Seattle, Washington - 2011
É comum pacientes amputados sentirem o membro como se ele ainda estivesse lá. Como se ele ainda existisse. Essa síndrome é chamada de membro fantasma. Isso também acontece com as pessoas que perdem aqueles que amam. O tempo passa, a ferida começa a cicatrizar, mas você ainda sente aquela presença. O tempo todo. É como se o cérebro não quisesse aceitar o trauma terrível que sofreu. E dói. Dói demais. O cérebro fica tentando preencher o vazio, tentando completar o membro perdido.
O hospital pulsava com a agitação da manhã. O som ritmado das rodas das macas deslizando pelo piso encerado se misturava às vozes apressadas dos enfermeiros dando instruções e ao bip incessante dos monitores cardíacos. O cheiro forte de antisséptico pairava no ar, mesclado ao aroma de café recém-passado.
Alina sentia o peso do plantão noturno em seus ombros. Não havia pregado os olhos a noite toda, passando horas entre cirurgias complicadas e emergências incessantes. Seu corpo clamava por descanso, mas tudo o que ela tinha era um copo de café quente entre as mãos. Ainda assim, o simples ato de levar a bebida aos lábios foi interrompido quando Callie surgiu em seu caminho.
Os olhos da cirurgiã brilhavam de indignação, e sua respiração estava ligeiramente acelerada, como se tivesse vindo apressada ou estivesse prestes a explodir em palavras. Alina suspirou, preparando-se mentalmente para o que quer que estivesse por vir.
— Você não vai acreditar! — Callie exclamou, agitando as mãos no ar.
Alina suspirou, levando o copo de papel até os lábios. Após uma noite exaustiva de plantão, que incluiu duas cirurgias demoradas, tudo que ela queria era café. Muito café. Mas Callie não lhe daria esse luxo.
— O que foi agora? — Alina perguntou, sem esconder o cansaço na voz.
— O Derek enlouqueceu. Ele quer estrear a "nova mão" operando um neuroma acústico! Você acredita nisso?
— Um neuroma acústico? É sério isso? — Alina parou no meio do corredor, franzindo o cenho.
— Sim! E, obviamente, ele não quer ouvir ninguém.
Alina soltou um suspiro exasperado e, com o café ainda em mãos, seguiu apressada para o andar das cirurgias.
O hospital parecia mais movimentado do que o normal naquela manhã, com internos correndo de um lado para o outro, ansiosos por qualquer oportunidade de aprender. Enquanto caminhava em direção à recepção do centro cirúrgico para a reunião de emergência convocada por Owen, avistou Derek seguindo na mesma direção.
Ele parecia calmo, mas ela conhecia aquele olhar determinado, e teimoso, até. Aquele era o grande retorno de Derek ao centro cirúrgico depois de mais de um ano longe. Mas a questão era: ele estava realmente pronto?
— Você perdeu o juízo? — Alina perguntou, se aproximando dele.
— Bom dia pra você também. — Derek arqueou as sobrancelhas e olhou para ela de soslaio.
— Você realmente acha que operar um neuroma acústico logo de cara é uma boa ideia? Essa é uma cirurgia longa e complicada, com uma chance altíssima de mortalidade. E é com isso que você quer testar sua nova mão? — Ela cruzou os braços. — Passa ela pra mim e faz minha craniotomia no lugar.
— Ah, obrigado por me encorajar. — Derek soltou uma risada curta. — Você é uma ótima amiga.
— Eu só estou dizendo para não forçar. — Alina replicou. — Foi o que você me disse quando eu voltei.
— Eu já deveria ter operado o Jimmy há muito tempo. — Ele parou de andar por um segundo e a encarou, o sorriso sumindo levemente. — Mas o avião caiu, e eu fiquei de molho. Então, vai ser hoje.
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Código Azul
Fiksi PenggemarAlina Koracick sempre teve um destino claro: ser médica, seguir os passos de seu pai como neurocirurgiã. Mas quando ela deixa para trás sua vida em Baltimore e o conforto do Hospital Johns Hopkins para ingressar na residência cirúrgica do Seattle Gr...
