87

1.1K 114 23
                                        

Seattle, Washington – 2011

Eu nunca fui muito fã de mudanças.
Na oncologia, quando uma célula normal se transforma em algo maligno, chamamos isso de transformação celular.

As malditas células se tornam tóxicas bem diante dos nossos olhos, devorando tudo ao seu redor. Então, até onde eu sei, transformação é uma droga.

A ironia é que, na vida, mudanças são vendidas como progresso. A gente ouve essas palavras bonitas o tempo todo: modernizar, otimizar, integrar, adaptar. Tudo supostamente para nos tornar mais eficientes, mais preparados. Mas no fim das contas, será que funciona mesmo? Ou será que a gente só se transforma em algo que não reconhece mais?

A sala dos médicos era um refúgio entre cirurgias caóticas e plantões intermináveis. O cheiro de café requentado impregnava o ar, misturado ao aroma suave de desinfetante e ao zumbido dos monitores espalhados pelo hospital.

Cristina estava jogada no sofá, pernas apoiadas na mesinha de centro, gesticulando animadamente enquanto debatia com Jackson. Alex estava recostado na parede, os braços cruzados, tentando, sem sucesso, se defender dos ataques verbais dos amigos.

No canto da sala, sentada à mesa, Alina preenchia um prontuário com a caneta deslizando preguiçosamente sobre o papel. Seu terceiro café da noite esfriava ao lado, mas ela o bebia mesmo assim, porque era mais hábito do que necessidade a essa altura do plantão.

A conversa ao redor estava barulhenta e caótica, mas era exatamente assim que ela gostava.

— Pela milésima vez, eu e a Jo não estamos juntos. — Alex disse, a frustração evidente na voz.

— Ah, qual é, vocês estavam no cio ontem. — Cristina retrucou com um sorriso travesso.

Alina suspirou, levantando o olhar do prontuário.

— Eu preciso me mudar daquela casa. — murmurou, mais para si mesma do que para os outros.

— As meninas não estavam lá ontem. — Alex apontou, como se isso melhorasse a situação.

— E ainda assim, vocês gritaram como se estivessem em plena luz do dia. — Alina tomou um gole de café. — Sua namorada não respeita ninguém. Parece uma adolescente.

— Ela não é minha namorada. — Alex rebateu, já sem paciência.

— Eu disse que tava rolando. — Cristina estendeu a mão para Jackson. — Paga aí!

Jackson revirou os olhos, mas pegou a carteira e entregou uma nota amassada para Cristina, que sorriu vitoriosa.

— Vocês estão a um drink de fazer sexo selvagem. — Alina comentou, casualmente, como quem comenta sobre o tempo.

— Pela gritaria de ontem, achei que já tivesse rolado. — Jackson acrescentou, dando um gole em sua água.

— Vai lá, garotão. — Cristina cutucou Alex. — Recheia o peru dela.

Alex fechou os olhos, exasperado.

— Pelo menos eu não beijo caras na porta de casa às três da manhã, não transo com meu ex toda noite e não agarro internas no sofá de outras pessoas.

— Ótimo saber. Vou providenciar um exorcismo pra aquele sofá. — Alina parou de escrever e olhou diretamente para Jackson. — Minhas filhas se deitam lá, sabia?

— Pera... quem você beijou às três da manhã? — Jackson franziu a testa.

— Andrew Perkins. — Cristina respondeu antes que Alina pudesse abrir a boca. — Não ficou sabendo?

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora