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Seattle, Washington  – 2010

Voltar nunca foi tão difícil quanto partir.

Quando deixei Seattle, estava anestesiada pela dor, focada apenas em proteger minhas filhas e escapar das memórias que me consumiam.

Mas agora, retornar significa enfrentar tudo o que deixei para trás, as pessoas que magoei, as lembranças que tentei enterrar.
Será que eles ainda me reconhecerão?
Será que eu ainda sou a Alina que eles conheciam?

Estou quebrada, mas é hora de encarar os pedaços espalhados do meu passado e, talvez, tentar reconstruir algo com eles.

Alina nunca imaginou que entrar em um avião pudesse ser tão difícil quanto foi na volta para Seattle.

Quando embarcou para a Alemanha, menos de um dia após o enterro de Mark, ela não era ela. Estava vazia, anestesiada pela dor, e tinha um único objetivo: chegar à Alemanha com suas filhas.

Mas agora, depois de oito meses, com partes de si mesma lentamente se reconstruindo, o medo voltou a atingi-la com força.

Olhar pela janela a fazia reviver aquele dia, o som do impacto, o frio da floresta, a dor nos olhos de Mark.

Durante dez horas, enfrentando um voo transatlântico, ela não conseguiu fechar os olhos. O passado estava ali, pulsando a cada instante.

Quando o avião pousou e as rodas tocaram o solo de Seattle, o relógio em seu pulso marcava 8h da manhã. Ela suspirou ao olhar pela janela. Estava em casa novamente.
Pelo menos fisicamente.

Segurando as meninas em seus braços, Alina cruzou o aeroporto, lutando para ignorar o peso das lembranças que invadiam sua mente a cada passo. Antes de embarcar, ela havia entrado em contato com Josie, a antiga babá das meninas. Josie concordou em esperá-la em casa, como sempre fazia antes. Ela já tinha a chave, então estaria tudo pronto para recebê-las.

No táxi a caminho de casa, Alina tentou preparar sua mente para o reencontro com aquele lugar. A casa que uma vez foi um lar.

Porém, quando o veículo estacionou na frente da porta, ela percebeu que não estava pronta. O coração apertou ao ver as janelas que ainda guardavam as memórias de um passado feliz.

Ela tocou a campainha e esperou.

— Bem-vinda de volta, Alina. — Josie abriu a porta com um sorriso acolhedor.

— Obrigada, Josie. — Alina respondeu, entregando as meninas para os braços da babá e lhe estendendo a mala. — Eu... Eu não vou entrar agora. Preciso resolver algo primeiro. Cuida delas?

— Cuide do que precisa, Alina. Estou aqui para elas. — Josie não precisou de muitas palavras para entender. Apenas assentiu e abraçou as meninas.

Sem olhar para trás, Alina entrou novamente no táxi.

— Pode me levar ao cemitério, por favor? — disse ao motorista.

O trajeto foi silencioso. Enquanto observava a cidade passando pela janela, Alina sentia o peito apertar. Ela sabia que aquele momento era necessário, mas isso não tornava as coisas mais fáceis.

Ao chegar ao cemitério, desceu do táxi e caminhou até o túmulo de Mark. A pedra fria parecia pesada com as palavras gravadas nela. Ela se ajoelhou devagar, sentindo as lágrimas rolarem antes mesmo de dizer uma palavra.

— Oi meu amor... — começou, a voz trêmula. — Eu... eu voltei.

Ela respirou fundo, tentando se recompor, mas as lágrimas vieram com mais força. Ficou assim por um longo tempo, chorando, permitindo-se sentir toda a dor que carregava. Quando finalmente conseguiu falar novamente, a voz saiu mais firme.

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora