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Seattle, Washington - 2011

Na faculdade, eu tinha uma professora de neuro que dizia que a gente nunca escolhe o momento certo para as grandes decisões.

Segundo ela, a vida não avisa quando é hora de mudar, ela simplesmente empurra.

Na época, eu achei exagero. Achei que planejamento resolvia tudo.

Hoje eu sei: algumas escolhas não pedem certeza. Pedem coragem.

A semana passou mais rápido do que Alina imaginava. O encontro com Andrew, o vinho, o riso fácil, o toque leve da mão dele, ainda voltava à mente dela em flashes inesperados. Mas ele já estava de volta à Alemanha, e a vida dela seguia no ritmo habitual: crianças, plantões, caos e pequenas brechas de silêncio entre tudo isso.

Naquela manhã, Seattle acordava envolta em uma névoa fina, e o ar úmido grudava na pele. Alina desceu as escadas da casa do Alex devagar para não acordar as meninas, os cabelos ainda úmidos do banho, a bolsa pendurada no ombro e uma caneca de café fumegante entre as mãos.

A Cristina estava largada no sofá, de roupão, bebendo café como se fosse remédio. Alex vasculhava uma gaveta à procura, provavelmente, de algo que ele mesmo perdeu.

— Dia intenso? — Cristina perguntou, sem levantar muito os olhos.

— Vai ser. — Alina suspirou. — O corretor marcou três casas hoje. Se eu tiver sorte, não vou odiar todas.

Alex a observou por cima da porta da geladeira.

— Você tá com aquela cara de "eu preferia estar dormindo".

— Eu preferia mesmo. — ela riu, cansada. — Mas eu preciso encontrar um lugar pra mim e pras meninas. Não dá mais pra viver no seu quarto de hóspedes.

— Meu quarto de hóspedes é ótimo. — Alex retrucou. — Muito superior às suas opções de casa. E aqui você sempre tem babás a disposição.

— Alex, seu quarto de hóspedes tem um vazamento. No teto. Acima da minha cama.

— Charme vintage. — ele deu de ombros.

Cristina revirou os olhos.

— Vai logo antes que ele tente te convencer a morar aqui pra sempre.

Alina respirou fundo. Um peso familiar apertou o peito.

Procurar casas... definitivamente não era só sobre imóveis. Era sobre aceitar que já estava hora de seguir a sua vida. Que aquele futuro  que ela tanto desejou com seu marido e filhas, já não existia. Que estava construindo outro, ainda indefinido, ainda estranho, ainda doloroso.

Ela pegou as chaves.

— Volto depois das visitas. Se precisarem de mim...

— A gente sabe cuidar das crianças, Ali. — Cristina cortou, pegando a caneca dela e tomando um gole sem pedir. — Vai. Procura sua casa nova.

As palavras ecoaram mais fundo do que Alina esperava.

Ainda parecia errado.
Mas... necessário.

No caminho até o carro, ela ajeitou a bolsa no ombro e sentiu o casaco leve bater contra a perna.

Ela engoliu seco.

— Uma coisa de cada vez.  — murmurou para si mesma, destravando o carro.

A primeira casa aguardava.
O futuro também, mesmo que ela ainda não soubesse como parecia.

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora