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Seattle, Washington  - 2010

Os médicos nunca tiveram todas as respostas. Antigamente, quando se ficava doente drenávamos o sangue  comp se estivéssemos trocando óleo. Precisamos sempre repensar o que achávamos que era verdade. E redefinir tudo.

Cirurgiões não fazem acordos, desafiamos a morte, vamos além da perfeição, operamos por horas a fio se sor preciso. Somos treinados pra resolver, mas nao significa que resolveremos.

A sala dos médicos estava silenciosa naquela manhã, exceto pelo som ocasional de páginas sendo viradas e teclas pressionadas em um computador. O aroma familiar de café amargo misturava-se ao leve odor de desinfetante que nunca abandonava o hospital. Alina empurrou a porta com mais força do que o necessário, quebrando o silêncio com o estalo abrupto do batente. Ela entrou com passos firmes, sua expressão carregada como se o mundo todo tivesse decidido conspirar contra ela naquela manhã.

Alex, jogado casualmente no sofá, olhou por cima do ombro, franzindo as sobrancelhas. Ele segurava um copo descartável de café, e o vapor subia lentamente, criando uma névoa que parecia pairar entre eles.

— Bom dia! — ele disse, a voz carregando o habitual tom despreocupado.

Alina nem sequer olhou para ele. Foi direto ao armário, arrancando a porta com certo ímpeto e pegando seu uniforme.

— Péssimo dia. — ela rebateu, fechando o armário com força suficiente para fazer os outros presentes olharem de canto de olho.

Alex deixou escapar um sorriso de canto, o tipo que indicava que ele sabia exatamente como provocá-la.

— Que bicho te mordeu? — ele perguntou, inclinando-se levemente para frente.

Ela se virou, bufando, enquanto vestia o uniforme.

— Voltei há uma semana e não operei uma única vez. Se eu não entrar em uma sala de cirurgia logo, eu é que vou morder alguém. — Alina disparou, ajustando o jaleco com movimentos rápidos e precisos.

Alex continuou a observá-la em silêncio, os olhos brilhando com algo que era uma mistura de diversão e alívio. Ela percebeu, estreitando os olhos.

— Que foi? — perguntou, desconfiada.

Ele levantou-se devagar, cruzando o espaço entre eles. O sorriso agora era genuíno, mais caloroso.

— Você voltou. — Alex respondeu simplesmente, antes de inclinar-se e deixar um beijo estalado no rosto dela.

Alina piscou, surpresa pelo gesto inesperado, mas não teve tempo de responder antes que ele se afastasse.

— Imbecil. — ela resmungou, mas o leve sorriso que surgiu traiu seu tom severo.

Alex parou na porta, olhando-a por um momento.

— Também te amo. — ele gritou, antes de sair e deixar a porta se fechar atrás dele com um clique suave.

Alina ficou ali, sozinha. Ela ajeitou o jaleco, deixando as mãos descansarem nos bolsos por um instante. Seus olhos vagaram pela sala, absorvendo o ambiente tão familiar e, ao mesmo tempo, tão diferente. Respirou fundo, sentindo o ar reciclado do hospital encher seus pulmões.

Era irritante, frustrante, e, ainda assim, reconfortante estar ali. Um lugar que, apesar de tudo, ainda parecia seu.

[...]


Alina caminhava pelo corredor em direção à enfermaria da emergência, os passos marcados por uma firmeza quase desafiadora e o olhar determinado fixo à frente. Ao longe, Meredith e Cristina estavam encostadas no balcão, trocando palavras de forma casual, como se o caos do hospital não as atingisse. Quando Alina se aproximou, interrompeu a conversa silenciosamente, posicionando-se ao lado delas e cruzando os braços em um gesto que transparecia tanto exasperação quanto impaciência.

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora