Depois do meu pequeno acidente envolvendo o meu vizinho e sonho de consumo de onze em cada dez mulheres novayorquinas não o vi mais, o que foi bom, por um lado claro. Bom porque provavelmente não saberia aonde enfiar a minha cara quando o encontrasse e ruim porque nunca era bom ficar muito longe dele. Não depois que ele de maneira misteriosa começou a adentrar os meus pensamentos.
Eu estava sentada na sala de reunião com os Smith. Tínhamos um horário agendado pra discutir as pendências do inventário do Sr. Big. Não tinha nem um mês que o cara havia ido morar na terra dos pés juntos e a família já queria logo separar tudo e cada um embolsar a sua parte. Eu me perguntava se isso aconteceria comigo caso eu viesse a ter bens. Se bem que filhos estão bem fora da minha lista de pedidos ao bom velhinho.
Me equilibrei sobre o salto agulha quinze com o qual eu mal podia caminhar. Christian sempre dizia que era sexy uma mulher sobre saltos altíssimos e me convensera a comprar esse Jimmy Choo na última Black Friday da Barneys. A vantagem é que eu havia pagado quase nada, a desvantagem é que eu conseguia usá-lo uma vez por ano pra dar tempo de eu esquecer o quanto ele matava os meus pés.
A senhora Smith me olhava meio resignada, como se reprovadas aquela atitude dos filhos. Sam, o herdeiro mais novo no entanto não parava de olhar para as minhas pernas descobertas pela saia lápis escura que eu usava.
- Então finalizamos - fechei a pasta amarela cumprimentando todos com um aperto de mão, sorrir na partilha de um inventário podia soar como deboche.
- Obrigada querida, você foi muito eficiente - a Smith mais velha sorriu e eu apenas concordei.
Todos se retiravam enquanto eu os acompanhava até a porta. O caçula ainda me olhava. Ai meu Deus, será que arranjei outro admirador? Minha vida ja era castigada o suficientemente com o Ed Westwick pegando no meu pé.
- Você é muito linda - olhou-me com aquele olhar de tigre sobre uma indefesa rapozinha. Se eu abrisse um sorrisinho era capaz de estarmos tendo uma rapidinha ali mesmo no banheiro da minha sala.
- Obrigada, e estou as ordens para qualquer coisa que precisar - fui cordial - Referente ao inventário, é claro - a arte de dar um fora com sutileza. Eu deveria essa à mestre Maite até o fim dos meus dias.
E ele entendeu o recado e eu agradeci mentalmente assim que ele virou as costas saindo dali. Apoiei as mãos na cintura suspirando cansada. Dulce estava pra chegar e fazia mais de um ano que eu não a via, Thomas não se importaria de me dar uma folga, não é mesmo?
- Ah Boss - nós o havíamos apelidado assim desde que ele confessara que amava ver Cake Boss e que podia ser um chefe tão chato quanto o Buddy. E essa foi a melhor piada que ouvi em anos porque o Thomas não conseguia negar nada nem pra uma mosca. Ele era aquele típico jovem-idoso de roupas descoladas e corte de cabelo moderno. Eu poderia até dizer que ele era a cara do vocalista dos Stones, mas ele se chatearia com isso, sem dúvidas - Dulce vai chegar e eu gostaria tanto de vê-la - enfatizei bem as minhas últimas palavras.
- Vocês duas vão se ver amanhã no escritório - ele ironizou sem tirar os olhos do New York Times, vai ver era por isso que não estava caindo na minha conversa e no olhar de cachorrinho-que-caiu-do-caminhão-da-mudança que eu fazia - Sem falar que a Maite está em Jersey, e Christian e Chace estão em audiência.
- Mas você ainda tem a Blake - lembrei e ele riu.
- Eu definitivamente preciso de alguém que se preocupe mais com o trabalho do que com a última cor das unhas da Beyoncé - bufei. Por um lado ele tinha razão, apesar de eu adora-la, Blake um poço de futilidade.
- Tudo bem, você venceu - dei um moxoxo enquanto meu salto tilintava sobre o porcelanato italiano da sala dele - E pra sua informação a cor é marsala.
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O Antídoto
De TodoAnahí Portilla é uma garota nova-iorquina de 27 anos. Moderna e bem-sucedida, ela só quer uma coisa da vida: ser feliz! No entanto, quando não está tentando salvar o mundo - ela é advogada de uma ONG que trata de assuntos ambientais - ela está lutan...
