- Puta que pariu - Maite murmurou assim que pôs os pés na minha sala.
- Você anotou a placa? - pedi sob os óculos de grau sem tirar a atenção do meu computador.
- Placa do que? - ela franziu o cenho praticamente se jogando na poltrona que tinha em frente a minha mesa.
- Do caminhão que atropelou você - ri - Já deu uma olhada no espelho?
- Nunca mais vou beber - ela levantou a mão direita como se fizesse um juramento. Eu voltei a rir porque aquela era a melhor piada do século.
- Deixa eu conferir aqui - fingi abrir a minha agenda - Acho que contando com essa deve ser a centésima quarta vez que ouço você falar isso.
- Dessa vez é sério - murmurou - Eu juro!
- Tá bom, como se em todas as outras não fosse - ela rolou os olhos.
- Você conseguiu terminar aquele relatório pra mim? - Christian pediu indo até a minha mesa.
- Está ali - apontei o aparador - Confere e me diz o que achou.
- Ei - ele disse só então percebendo a presença de Maite. Christian tinha dessas de não enxergar um palmo na frente dos olhos, até tinha fama de arrogante por conta disso. Não que ele ligasse, é claro - Parace que a sua situação está realmente complicada hoje - mexeu com ela que bufou.
- Ai até você Christian? Não, por favor - ela quase gritou levando a mão direita a cabeça, eu ri.
- Você vai tomar um analgésico ou vai ficar o dia todo com essa cara de ressaca? - levantei uma sobrancelha assim que Christian voltou pra sala dele.
- Eu já tomei - resmungou - Cadê a Dulce?
- Hmm - fitei o relógio - Não sei, vocês é quem ficaram bebendo juntas até tarde ontem.
- Eu ainda não posso acreditar que você dispensou o Ed Westwek daquela forma.
- E o que tem demais? Eu realmente estava cansada.
- Mas ainda assim - exasperada - Trata-se de Ed Westwek.
- E eu não estou nenhum pouco interessada nele - rolei os olhos.
- E ontem eu comecei a entender o porque disso - Dulce riu enquanto sentava ao lado de Maite com uma xícara de café e um par de olheiras - Você já viu o vizinho gato da queen A?
- Qual deles? - Maite franziu o cenho e eu ri.
- Não sei o nome, mas ele mora no apartamento da frente - disse insinuante e eu achei graça - E ao que tudo indica os dois tem um jantar hoje - sussurrou.
- Ah - Maite me olhou indignada - Então é por isso que você não pode ir comigo na Barneys hoje? Espero que esse rolinho seja bem melhor que o Westwek.
- Pra começar o nome dele é Afonso, e não é nenhum rolinho.
- Não foi o que pareceu - Dulce cutucou. E eu estava morrendo de vontade de atirá-la pela janela.
- Será que vocês duas não tem nada melhor pra fazer do que ficar tornando a minha paciência? - Maite fez aquela cara de ofendida to tipo você-não-divide-mais-seus-segredos-com-a-gente.
- Eu preciso ir a Barneys, que tipo de amigas são vocês?
- Que diabos você fez dessa vez?
- Eu meio que estourei meu limite de crédito - deu um moxoxo.
- Conta uma novidade? - Dulce rolou os olhos.
- É sério! É aniversário do meu pai na sexta e eu preciso comprar um presente.
- Não olha pra mim - ergui as mãos na defensiva - Christopher está desempregado e aumentando meu consumo de energia. Já tive que pedir um extra pros meus pais, o que não acontecia a mais de três anos.
- E eu acabei de voltar de Londres - Dulce tratou de tirar o dela da reta rapidinho - Minhas prestações vão entrar em euro, da pra ter noção do quão ferrada eu estou por tipo uns seis meses.
- Será que Thomas me da um adiantamento? - mordeu o lábio inferior. Eu e Dulce rimos cúmplices.
- Tenta a sorte - brinquei.
As duas ficaram ali até a hora do almoço. Dulce praticamente obrigou a gente a ir pro Bango que era um dos restaurantes preferidos dela: I. Porque serviam carnes, II. Porque tinham creme de avelã com maracujá de sobremesa e III. Porque tinha um garçom gato que sempre dava um jeito de atender a gente. Ele tinha um mega sotaque texano o que ela achava extremamente sexy. Confesso que nunca entendi isso.
Pra minha sorte (ou azar já que minha mesa anda cheia de prazos inadiáveis), o dia passou de pressa. Fui pra casa afim de tomar banho e me arrumar pro jantar que havia combinado com Alfonso. Pra minha sorte Dulce já havia ido pro apartamento dela e eu seria poupada de especulações.
Então depois do banho vesti um jeans básico, sandálias não muito altas e uma regata simples, até porque íamos jantar na casa dele e ao que tudo indicava não seria nada luxuoso. Então terminei de secar os cabelos e me maquiar até que lembrei que não seria perdoada nunca por dona Marichello se fosse jantar na casa de alguém com as mãos abanando. Segundo ela, essa era a maior falta de educação que podia existir. Eu já preferia acreditar que a maior falta de educação era quando as minhas colegas de escola iam lá em casa fazer algum trabalho sobre polígonos ou teias alimentares e ela insistia em mostrar aquelas fotos de quando eu sequer tinha noção do ridículo. Sem dúvidas essa era a maior falta de educação.
Então revirei a adega que sempre andava cheia mas que parecia ter esvaziado desde que Christopher havia decidido acampar na minha casa. Eu estava começando a acreditar que ele estava desenvolvendo algum distúrbio alcoólico ou algo do tipo. Então encontrei uma garrafa de vinho do Porto. Peguei-a e sai indo até o apartamento em frente. Depois de duas batidas fui recepcionada por Alfonso com um domã branco, calças jeans e aquele sorriso arrebatador. Cheguei a corar.
- Então - sorri meio absorta enquanto ele me dava passagem pra entrar - Trouxe vinho!
- Ótimo - ele voltou a sorrir e eu já estava a ponto de me xingar mentalmente por ficar assim com aquele simples gesto - Espero que goste de peixes, estou fazendo um salmão.
- É um dos meus pratos prediletos - confessei.
- E porque não vem aqui me ajudar? - sinalizou a cozinha - Assim podemos ir conversando.
- Não sei se eu seria uma boa auxiliar - neguei com vergonha.
- Aé? E porque? - ele achou graça enquanto andávamos pelo estreito corredor que dava pra cozinha.
- Porque eu sou uma verdadeira negação na cozinha - expliquei - Sou capaz de queimar macarrão instantâneo em dois tempos - ele riu e eu corei.
- Quer dizer que salvei sua noite da tele-entrega? - brincou enquanto picava um pimentão.
- Pode-se dizer que em partes sim.
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O Antídoto
AléatoireAnahí Portilla é uma garota nova-iorquina de 27 anos. Moderna e bem-sucedida, ela só quer uma coisa da vida: ser feliz! No entanto, quando não está tentando salvar o mundo - ela é advogada de uma ONG que trata de assuntos ambientais - ela está lutan...
