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Meu nome é Anahí Portilla, sou advogada ambientalista, tenho 27 anos e uma forte tendência ao pessimismo. É inevitável, nasci assim. Desde os meus 17 anos quando resolvi entrar pro curso de Ciências Políticas de Harvard sonhava com a justiça e seus ideais. Depois das duas primeiras duas aulas de processo penal, eu só queria conseguir me formar. Além de integrar o Greenpeace, trabalho em um escritório de advocacia. Infelizmente viver apenas de boa ação não dá, já que além de boa alma sou também uma consumista nata.

Desde que comecei a ver os primeiros episódios de Sexy and City, ainda no colegial em Orange County, eu não podia querer outra coisa que não fosse desfilar por Manhattan sobre lindos Louboutin's vermelhos número quinze ao melhor estilo Carrie Preston. O único problema disso tudo é que quando o primeiro boleto bancário do seu aluguel chega, toda essa atmosfera elitista não é tão doce quanto nas telas do cinema.

Mesmo assim, ainda moro em Manhattan. Eu e meu irmão Christopher, que depois de levar um fora da namorada não sabe fazer outra coisa da vida a não ser ver as reprises dos jogos dos Yankes atirado no sofá de couro importado da minha sala enquanto enche o corpo de gordura com cerveja e salgadinhos industrializados. Desde que ele chegou deve ter ganhado uns doze quilos, e olha que estamos falando de três semanas. Se continuar nesse ritmo vai ter um infarto e possivelmente mamãe vá me culpar pelo resto da vida por não tê-lo feito frequentar a academia. Eu francamente amo meu irmão, mas quando ele quer consegue ser insuportável.

O único lado bom de morar em Manhattan, além de ser perto da Barneys e do Central Park, é a vizinhança. Mais precisamente o apartamento 701. Alfonso Henrrera era um desconhecido até Christopher convidá-lo para ver um jogo de baseball aqui em cada. Eu havia acabado de sair da academia, os cabelos completamente desgranhados, suada, com cara de sedentária que resolveu fazer uma corrida pra postar foto em rede social, quando girei a maçaneta e dei de cara com ele.

Apesar de ja termos nos esbarrando algumas vezes no elevador ou de ele possivelmente já ter me ajudado com algumas sacolas, sempre estive ocupada demais para reparar nele devidamente, e uau, ele era um gato. Mas como eu não estava em condição alguma de ficar ali fui para meu quarto e aguardei até que Christopher ficasse sozinho. Tentei extrair algumas informações do tipo CPF, RG, antecedentes criminais. Tudo bem, estou brincando. Mas meu irmão era muito lerdo pra esse tipo de coisa. Só duas coisas eram capaz de chamar a atenção dele: um engradado de cerveja e um par de peitos siliconados.

O dia estava insuportavelmente quente, e pra ser sincera, não sei se conseguiria me lembrar de outro dia tão quente como aquele em Nova York. E o pior de tudo é que ao que tudo indicava, aquela amostra grátis do inferno estava longe de acabar.

Chace me olhava distraído enquanto balançava uma caneta entre os dedos. Aquele sorrisinho enigmático com certeza era de alguém que estava prestes a traçar a minha secretária, ao julgar que ele não tirava os olhos dela desde que a reunião começou. Então alguns segundos depois um bilhete amassado pairou sobre a minha frente. Chace era um ótimo advogado trabalhista, mas no quesito ser sutil era terrivelmente um desastre. Eu ri constatando que estava certa: ele queria o telefone pessoal da minha secretária. Maneei a cabeça em sinal de reprovação e ele movimentou um "qual é A, quebra essa pra mim" com os lábios. Eu não quebraria nada para ninguém. Será que todos ali achavam que eu tinha vocação para cupido, pombo-correio ou sabe-se lá mais o que? Primeiro Maite afim do filho do chefe, agora Chace me pedindo pra arrumar uma trepada pra ele com a minha secretária. Era demais pra mim.

- O que custa você me passar o telefone? - ele pedia pela enésima vez. Eu estava com os pés esticados enquanto tentava me concentrar na tese de defesa. Mais um pouco ali e eu seria capaz de atira-lo da janela do décimo quinto andar.

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