006

1.8K 151 36
                                        

Alfonso estava tentando tudo pra agradar e eu não conseguia entender se aquilo era uma forma de agradecimento ou algum interesse de me levar pra cama. Assim que o salmão ficou pronto sentamos as mesa que ele havia decorado. Ele então abriu o vinho e eu sorri. No fundo fazia tempo que ninguém preparava algo pra mim ou tentava me impressionar. Alfonso tirou o domã e sentou de frente pra mim, revelando o que eu tanto temia: aqueles braços fortes e bronzeados.

- Hmm - murmurei - Está muito bom.

- Você gostou mesmo ou está dizendo isso só pra me agradar? - brincou.

- Está realmente bom - ri - E eu não finjo gostar pra agradar, definitivamente.

- Isso é importante - ele concordou.

- E você ficou com algum tipo de dor depois do acidente? Você estava tão bem que até esqueci de perguntar! - levei a mão a cabeça, esquecida. Acho que nunca havia me sentido tão patética na presença de alguém.

- Um pouco na lombar, mas já estou tomando alguns medicamentos - com uma careta ele apontou a estante que havia ali. Só então percebi que havia uma foto dele com a garotinha, aquela que eu e Dulce havíamos visto no dia anterior. Ele estava com um sorriso lindo e ela lhe dava um beijo na bochecha, com o rosto todo lambuzado de chocolate. De repente meu instinto maternal aflorou, mas algo que durou uns dez segundos. Eu francamente não tinha jeito com crianças, muito menos vocação pra ter uma delas.

- Que bela garotinha - sorri.

- Ah - ele deu um sorriso orgulhoso, e quase conseguiu me derreter. Juro que quase - Essa é a minha filha, Chloe.

Ok. Filha? Ele tinha uma filha? Era provável que tivesse uma mulher então, uma namorada. Ai meu Deus, porque ele tinha que ter uma filha? A vida só podia set injusta comigo.

- Hmmmmm - foi a única coisa que consegui pronunciar enquanto tomava minha taça de vinho.

- Ela é uma princesa - olhei e vi que seus olhos brilhavam, ele devia ser um pai incrível, deduzi - Você tem que ver quando ela está toda arrumadinha pro balé, da vontade de dar umas boas mordidas.

A verdade é que ele estava ali na minha frente tentando me empolgar com toda aquela história de filha fofinha e delicada, mas eu simplesmente não conseguia sentir aquele encanto todo. 1. Porque eu definitivamente não gosto de crianças, 2. Porque eu nunca na vida quis ter filhos e 3. Porque todo aquele lance de ele ter uma filha era complicado pra mim, por mais que eu e ele não tivéssemos nada. Eu tinha uma imagem de Alfonso Herrera que não tinha nada a ver com trocas de fraudas ou reuniões de pais e mestres.

- E quanto a mãe dela? - Eu sei. Eu sei que banquei a intrometida, mas a curiosidade falou mais alto.

- Nós nos separamos - ele deu um moxoxo - É difícil falar sobre isso.

- Se você quiser, não precisa me contar - salientei. Na verdade eu queria suplicar pra que ele me contasse.

- Não imagina - ele deu de ombros - É que digamos que ela não tinha muita vocação pra maternidade - explicou - A mãe dela quem cuida da Chloe até hoje. Ela sequer a chama de mãe, e bem, as vezes me dói ver minha filha sofrer dessa forma.

Eu pigarreei sem graça. Talvez eu a entendesse, em partes.

O assunto logo foi cortado, então o jantar terminou e mesmo que com a insistência dele para que eu deixasse tudo ali, diz questão de ajudá-lo com a louça. Lavei enquanto ele enxugava e me contava sobre o trabalho e os planos dele de montar um pequeno bistrô. Depois sentamos na sala e ele me mostrou os chocolates suíços que um amigo dele havia trazido da última viagem a Europa.

O Antídoto Onde histórias criam vida. Descubra agora