Encarei Alfonso completamente atônita. Não era para as coisas serem dessa forma. Definitivamente. Minha mãe ainda balançava a fita entre os dedos como se quisesse uma explicação, Alfonso me olhava entre um misto de curiosidade e espanto.
- Mãe, será que você pode levar a Chloe pra tomar um sorvete? - supliquei.
- Mas Anahí você deve uma - a interrompi, quase que gritando.
- Mãe, você pode levar a Chloe pra tomar um sorvete?
Ela parecia ter entendido o que se passava ali na sala. Alfonso sentado em uma poltrona, tentando manter sorriso nos lábios ao se despedir da filha. Eu segurando o choro que estava preso na minha garganta desde o momento em que minha mãe estragara tudo.
- Você, quer dizer, você está grávida? - Alfonso disse, após o transe, assim que a porta do apartamento se fechou e minha mãe e Chloe saíram por ela.
- Eu juro que não era pra ser assim - sussurrei, chorando - Eu juro que não sei como isso pode acontecer.
Alfonso suspirou. Levantou, deu alguns passos de um lado para outro da sala. Passou a mão pelo cabelo. Suspirou novamente, talvez tentando digerir aquela situação que parecia complicada até mesmo pra mim.
- O que nós vamos fazer? - me olhou, os olhos sem expressão. Tava na cara que ele havia detestado a notícia de que seria pai outra vez.
- Eu, eu não sei...
Minha voz sai como um fio. Juntei os joelhos enquanto me encolhia no sofá. O silêncio reinava. Isso era algo pelo qual eu esperava minha vida toda, um verdadeiro milagre acontecia e eu simplesmente não conseguia ficar feliz.
- Annie, eu não quero que me entenda mal - ele se aproximou, tocando meu rosto entre os dedos - Mas esse não é o momento para termos um bebê. Eu acabei de montar o bistrô, minha situação financeira é delicada, estou devendo dinheiro à minha mãe e - o interrompi, estarrecida.
- Você não precisa procurar justificativa pra explicar que não gostou, está nítido, nos seus olhos - levantei, indo até a janela. Eu estava me sentindo uma fraca, uma boba por estar ali, em lágrimas na frente dele. Era como se estivesse suplicando por uma resposta positiva.
- Annie - tocou meu ombro, devagar - Você está entendendo tudo errado - suspirou.
Me virei, segurando o choro.
- Você sabe quanto eu esperei por isso? - ele me encarou sério - Sabe quantas vezes eu sonhei com esse momento sabendo que jamais poderia acontecer comigo? Sabe quantas noites eu passei pedindo a Deus e todos os santos que me dessem esse milagre? - enxuguei uma lágrima solitária - Em algum momento, desde que você ouviu da boca da minha mãe, daquela maldita forma, que teríamos um bebê, em algum momento você pensou em mim Alfonso?
- Annie, por favor....- o barrei.
- Não, sou eu quem vai falar. Eu tentei lutar contra todos os meus instintos mais intensos para não entrar nessa relação, eu juro que tentei, Deus sabe que sim - pausei - Mas eu simplesmente não pude, eu amo você, e por mais que negasse a mim mesma, era a você que eu pertencia. Meu corpo, meu pensamente, sempre foram seus - maneei a cabeça em negação - Você me deu o mundo Alfonso, um mundo que eu jamais esperava ter outra vez, e acabou de arranca-lo quando disse aquelas malditas palavras "o que vamos fazer". Como o que vamos fazer? O que você pensa que eu faria? - gritei - Que eu tiraria essa criança? Que eu abdicaria do meu sonho de ser mãe?
- Amor, não é nada disso, me deixa explicar.
- Eu esperava que você me dissesse o que iríamos fazer. Foi você quem me prometeu o mundo Alfonso. Eu juro que nunca procurei criar expectativas sobre nós, mas eu vi uma verdade tão grande nos seus olhos que foi inevitável acreditar em cada palavra - pausei, tentando conter o choro - Eu esperava que você dissesse, "nós vamos ficar juntos nessa, vamos tirar isso de letra" ou que tudo ficaria bem e que você pelo menos fingisse estar um pouco feliz, ao menos por mim. Eu não me importaria em ter que abdicar de conforto, de compras ou de tantas outras coisas para termos esse bebê. Eu abdicaria de tanta coisa Alfonso, trabalharia por dois se fosse necessário...
- Eu também Annie. Eu também abriria mão de muitas coisas, jamais me importei com luxos ou nada do tipo, eu apenas fui pego de surpresa. Eu quis ser sincero com você. Eu te amo, não quero que entenda tudo de forma equivocada. Eu, bem, eu só não estou preparado, quero que possa compreender....
- Eu estou magoada - virei novamente, enxugando as lágrimas com as costas das mãos - Percebi que não posso contar com você Alfonso, isso não é atitude de quem diz amar.
- É claro que você pode contar comigo Anahí, pelo amor de Deus, nós vamos nos casar, quero construir uma vida com você.
- Eu acho que talvez se tenha alguém aqui que tenha entendido tudo errado Alfonso, esse alguém é você.
- Anahí, o que você está...
- Vá pra casa por favor - depositei minha aliança na palma da mão dele, a fechando em seguida.
- Annie, pelo amor de Deus, não faz isso - segurou meu rosto entre as mãos. Eu as tirei delicadamente, mantendo o olhar sério, já sem lágrimas.
- Por favor Alfonso, não torna as coisas mais difíceis do que já estão sendo pra mim - fitei o teto, tentando me conter.
- Você está rompendo comigo? É isso? - pediu, visivelmente desolado.
Fechei meus olhos, virando as costas pela terceira vez. Um silêncio se fez, dois minutos depois a porta da frente bateu, com força, não era por raiva. Era por arrependimento. Dei alguns passos até o aparador, afim de apanhar as chaves e trancar a porta, quando bati meus olhos sobre o mógno do móvel. Lá estava a aliança antes depositada nas mãos dele, e um pequeno e breve bilhete.
Desculpe, não posso ficar com ela. Sempre pertenceu a você, assim como meu corpo e meu pensamento. Eu te amo.
Fui um babaca.
Um completo babaca Alfonso.
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O Antídoto
CasualeAnahí Portilla é uma garota nova-iorquina de 27 anos. Moderna e bem-sucedida, ela só quer uma coisa da vida: ser feliz! No entanto, quando não está tentando salvar o mundo - ela é advogada de uma ONG que trata de assuntos ambientais - ela está lutan...
