"As reflexões de uma jornada são a prova de que ela teve sentido,ou não."
"Existem situações em que as palavras e calam para dar lugar à dúvida e ao acaso.Tais palavras podem soar inadequadas ou com uma mensagem improvável de acontecer,e em ambos os casos é preciso agir com cautela,buscando o equilíbrio que fortalece e sugere a memória.O passado que não aconteceu não pressupõe um futuro impossível,ele apenas guarda marcas imparciais ou firmes de mais para determinadas compreensões..."
Depois de finalmente contar tudo sobre seu irmão a polícia,Helena sentia-se mais leve.Suas noites de insônia tornaram-se menos frequentes e mesmo quando ocorriam eram apenas reflexo do estresse provocado pelo atraso da entrega de alguns fornecedores ou a falha de algum editorial,algo com o que já havia se habituado.Agora chegava no trabalho mais cedo que de costume provocando a surpresa de seus funcionários,dentre os quais alguns conhecidos por lhe chamarem de "Branca de Neve" por dormir de mais e chegar quase no fim das atividades.Sua rotina vinha mudando muito,pois percebeu que as vezes pensava de mais sobre o passado,deixando parte de suas tarefas nas mãos de outras pessoas.Após seu depoimento ao delegado Olivetti,todos os crimes que presenciou,todos com o mesmo assassino estavam agora com a visão da justiça,e isso era algo em que poderia confiar,tinha certeza disso.
Para Philip,a vida continuava tranquila até então.Sua casa agora mais organizada com móveis e um piso novo aparentava ser verdadeiramente um lar,apesar de ainda trazer um clima sombrio e silencioso.Sua mãe agora era sua visita constante;sua companhia para longas conversar vespertinas e para fazer seu bolo de cenoura,seu preferido desde a infância.As vezes,entre um devaneio ou uma conversa mais engraçada,Philip gostava de observar a mãe,ver como aquela mulher era forte e única para ele.Certa vez numa destas observações lembrou-se de quando,ainda criança soube da separação dos pais.Ele era muito jovem e não sabia ao certo como pensar ou agir para não afastar ainda mais os dois.Decidiu apenas observar e repetir as ações de Helena,sua irmã que apesar da pouca idade parecia saber melhor o que fazer,talvez por ser mais inteligente ou por ser uma menina apenas.
Depois de algum tempo tentando manter-se assim,sem dizer nada e apenas concordando com tudo o que ouvia,Philip começou a pensar que olhava a mulher errada:era sua mãe quem precisava de atenção daquele momento em diante.Ela sempre foi firme,mesmo quando seu pai viajava sem avisar ou demorava a aparecer em casa,nunca ouviu sua mãe discutir por isso;para alguns isso poderia parecer fraqueza e submissão,mais para ele era força e proteção.Estava ali agora,sentada na poltrona à sua frente,com um belo vestido florido e colar de madrepérolas com um sorriso breve e encantador,capaz de lhe trazer conforto.A vida toda só desejou ter um pouco daquela mulher,ser forte e capaz de seguir em frente apesar de qualquer adversidade da vida assim como ela,mas era algo impossível e ele sabia o por quê.Numa de suas visitas,sua mãe tentou algo que evitava fazer,conhecer melhor os pensamentos de Philip.Quase ninguém sabia o que dizer sobre o rapaz e sempre que tentavam ultrapassar seus limites com perguntas mais decisivas,seu olhar frio e amargo era a resposta.
-Filho,por que brigava tanto quando era mais jovem?Na maioria das vezes você era violento com seus colegas e nunca falamos sobre isso(...)Sei que evita falar sobre esses assuntos mas,sou sua mãe então...-Disse ela de maneira inusitada enquanto guardava as xícaras.
Os olhos dos dois cruzaram-se de repente e então houve um momento de silêncio.Esse tipo de pergunta o atingia com uma navalha apesar de nunca comentar sobre isso com ninguém.Sentia-se acuado e forçado a expor um lado sombrio que as vezes só queria sufocar dentro de si mesmo.O peso do silêncio que se seguiu foi o suficiente para criar um clima de claro desconforto,até que Philip finalmente respondeu:
-O passado não importa tanto quanto parece,além disso a senhora é minha mãe,não uma juíza.Não volte a tocar neste assunto.-Disse de maneira breve e seca
Sua mãe percebeu sua evidente irritação e deu fim a conversa.Para ela,esses eram os momentos em que podia identificar essa irritação como a vontade de seu filho de evitar novas crises,pelo menos do seu ponto de vista.Mas na verdade tudo isso era apenas uma distração para Philip,que tentava deixar de lado essas questões para não ter que voltar seus pensamentos para as noites no lago e olhar de uma menina assustada o acusando.Ele ainda não sabia que seu nome era investigado,mas seu instinto dizia que algo estava pra acontecer,e realmente estava.
Agora sua mente lhe trazia de volta a lembrança do lago próximo a casa onde morava com a família;considerado por ele um local libertador.Passava horas ali brincando com a irmã mais nova,imaginando desenhos nas nuvens do céu e jogando pedras na água.Gostava de vê-las sobrevoar a superfície três ou quatro vezes seguidas antes de afundar completamente,como corpos inertes e sem vida.Além disso a simplicidade daquele lugar ainda o fazia pensar muito em Helena,sempre disposta à suas brincadeiras,tão doce e livre com seu cabelo solto enquanto corria na beia da água...Tudo estava diferente,a vida traçou caminhos distintos e cada escolha os levou até aquele ponto;estavam distantes um do outro e sempre em busca de liberdade.
Philip e Helena partilhavam dores particulares,cada um em seu modo de relacionar isso com o mundo.Pode-se dizer que são conflitos intensos,porém parecidos em alguns pontos,pois mesmo quando os sentimentos entram em conflito ou a raiva parece a única característica capaz de definir algo,a busca pela verdade permanece,a razão pela qual a memória não se fragiliza por inteiro.Os próximos atos são as consequências disso,são o resultado de dor e silêncio...
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Os Irmãos Mendel
General FictionAté onde a loucura pode levar alguém?Existem limites?
