"Mergulhe na escuridão e descubra que não é um refúgio,e sim uma prisão."
"Luz e escuridão são elos de um jogo silencioso e pertinente,onde cada um dos envolvidos se mantem distante da realidade.As regras são definidas sem interações externas,apenas a força que move cada objetivo particular.A questão é:luz e escuridão podem dividir uma mesma alma?"
Ninguém ultrapassa os limites da existência sem antes compreender que somos apenas um rascunho do universo.As pessoas se preocupam com sua rotina e bens materiais até que a verdade,em sua mais cruel intensidade entra em suas vidas e revela mais dor e menos esperança.A verdade não é uma distorção,nem mesmo um desejo distante quando se tem equilíbrio e força para recebê-la de braços abertos;é apenas um passo para o crescimento espiritual de cada um.
A polícia estava em total estado de alerta na cidade pois mais um crime brutal foi cometido por Philip Mendel.O caminhão da empresa ForceOne foi encontrado na manhã do dia seguinte,próximo ao mercado mais movimentado da região.Os clientes do local não perceberam nada estranho,afinal era apenas mais um caminhão de entregas,mas logo um cheiro muito forte começou a incomodar à todos.A polícia foi chamada já que não havia ninguém responsável pelo veículo no local,e por isso precisaram abrir a parte traseira do caminhão à força.
Lá dentro,amontoados um sobre o outro como peças dispensáveis,dez corpos completamente nus estavam depositados.A cabeça de cada um deles apresentava uma queimadura recente e por isso o cheiro impregnante se espalhava.Os policiais estavam cada vez mais assustados com os crimes de Philip;ele parecia desenvolver sua linha de crueldade particular apenas para causar impacto em todos.
Olivetti estava na delegacia tratando de um outro caso quando recebeu a ligação de um dos policiais que estavam no local do crime:
-Senhor,encontramos um caminhão com dez corpos aqui na Praça Marcílio Hernest. Os corpos estão com a parte superior da cabeça totalmente queimada e,ao que tudo indica é mais um crime de Philip Mendel.
Sempre que ouvia aquele nome,Olivetti sentia um frio na espinha e sabia que já estava mais do que na hora de parar aquele monstro antes que fosse tarde de mais para outras famílias.O policial informou ainda que encontrou um bilhete do assassino e que nele,desafiava-os a encontrá-lo,além de prometer mais mortes.O delegado estava ciente de que a mensagem era realmente uma forma de desafiá-lo,além de ter a certeza de que era preciso encontrar Philip o quanto antes.A burocracia do caso era estressante,desde trâmites de liberação de recursos para um detetive até a pouca consideração do Centro de Apoio Tático em relação aos crimes investigados.
Mesmo com todas as perspectivas negativas encontradas,Olivetti estava disposto a ir cada vez mais fundo nesse caso;o que parecia apenas mais um de seus ofícios como delegado tornou-se na verdade uma questão de honra maior.Era preciso ser fiel ao seu juramento de total comprometimento com a justiça,e ele sabia que para isso teria que usar toda sua capacidade e aptidão.Depois de relacionar os atos de Philip no último ano,ele chegou a conclusão de que faltava algo;talvez um pequeno detalhe que passou despercebido mais que seria crucial.Enquanto organizava alguns documentos de um arquivo,parou para ler sobre um caso até então sem explicação:a morte de Robert Mendel,um homem que trabalhou durante toda sua vida mais que se entregou a vida boemia,abandonando a família e que foi encontrado morto numa pensão.
Depois de ler todos os registros,descobriu que aquele homem era na verdade pai de Philip,algo que o permitiu estabelecer uma conexão.A morte de Robert não tinha um culpado,o corpo foi encontrado no chão de um quarto e a causa da morte foi registrada como asfixia.Ainda nos registros,o único depoimento foi o de uma mulher que,segundo o documento lembrou-se de ter informado o endereço de Robert para um jovem rapaz que se identificou como seu filho.Ela não sabia seu nome,mas a descrição batia com a imagem de Philip.Era a peça que faltava para Olivetti no momento:Philip havia matado o próprio pai.Seguro dessa informação,contou pessoalmente à sua mãe.Após apresentar todos os documentos para provar o que falava,ressaltou que precisava saber se Philip tinha uma relação conturbada com o pai:
-Dona Lúcia,sei que esse assunto não lhe faz bem mas tudo realmente aponta que seu filho foi o responsável pela morte de seu ex-marido Robert.Poderia me dizer como era a relação deles em casa,e se ele teria motivos para cometer esse crime?
Lúcia estava perplexa com a possibilidade,entretanto depois de negar isso pra si mesma desde o inicio da conversa,ela sabia que seu filho era capaz de tudo.Contou apenas que logo após a separação,Philip ficou muito isolado e triste,mas que isso não indicava nada além de uma reação natural de um filho que vê seu pai ir embora.Depois de uma conversa longa,Olivetti despediu-se e prometeu mais informações assim que possível e,antes de partir alertou a mulher:
-Por favor,tome cuidado caso ele apareça e se isso ocorrer nos chame imediatamente.Ele é seu filho mais é muito perigoso e a senhora sabe disso.Passar bem senhora...-Disse entrando no carro
A verdade sempre nos faz reagir,seja de forma positiva ou negativa.Lúcia estava aterrada apenas com a suposição de que Robert possa ter sido uma das vítimas de seu próprio filho;era absurdo e lhe causava náuseas.Ela estava tentando traçar seus dias sem pensar tanto,pois sua vida havia se tornado um tipo de alucinação,onde tudo parecia lhe causar arrependimentos,principalmente seu filho.Ela queria dormir e esquecer tudo o mais rápido possível,mas sabia que a vida não era assim,capaz de nos atender de imediato de acordo com nossas meras vontades.As investigações continuavam agora com mais força e Olivetti não iria parar até capturar Philip.
Longe de tudo isso,o homem que era procurado por todos os lados estava ali,debaixo do nariz de todos,escondido numa antiga construção que foi abandonada.Estava no banheiro,com o som portátil ligado enquanto fazia a barba.Diante do espelho,seus olhos pareciam um amplo convite para o mistério e a profundidade enquanto a lâmina afiada percorria sua pele.Philip cantarolava a música que estava tocando,um clássico do mestre do Rock David Bowie quando sem querer cortou o rosto.Olhou no espelho e ao ver o sangue misturado à sua espuma de barbear,riu de forma confortável.Em sua mente,apenas um nome se fazia presente naquele momento,alguém que precisava desaparecer de sua vida para que pudesse se sentir finalmente livre:
Helena Mendel,sua irmã.
