"A necessidade é continua,e seu principio diverso e intenso..."
"Se diante da dor somos expostos ao medo,diante do perigo conhecemos a profundidade de cada ser.É um jogo de equilíbrio sem certezas,onde apenas o instinto prevalece atuando em forma de ação e reação.Diante disso,as atitudes pessoais são vistas como decisões,então nada mais importa..."
Se todas as memórias do passado lhe atormentavam,as vezes parecia que era só o começo.As noites em claro,pesadelos que remetiam a infância e imagens distorcidas de rostos familiares;tudo aquilo era a porta de entrada para medos cada vez mais profundos e intensos.As pessoas sofrem por não terem controle diante da aflição,e isso multiplica seu sofrimento,tornando a dor um ciclo vicioso e sem controle.Apesar disso,ele sabia que algo era diferente agora,e mesmo que fosse apenas uma impressão,ele queria confiar nisso.
O corredor era escuro e exalava um odor pouco convidativo.As paredes estavam cobertas por pedaços de madeira velha,talvez uma tentativa de deixar o lugar mais seguro de alguma forma,assim pensou Caroline.O espaço era pequeno,mas apesar disso ela servia de apoio para um homem que ainda se recuperava dos ferimentos.Atrás deles,o som de um móvel sendo arrastado bruscamente e uma voz ressoando no espaço que os dividia.Caroline e Philip estavam próximos da saída daquele corredor,construído pelo pai da jovem na época em que se mudaram para aquela região.A saída improvisada era para fugas de emergência,pois os assaltos e sequestros eram frequentes e Carlos decidiu não arriscar o bem estar dele e da filha.
Atrás deles,Olivetti caminhava cada vez mais rápido apesar de não saber exatamente onde aquele corredor o levaria,mas com a certeza que estava cada vez mais próximo de capturar Philip.No momento em que entrou no quarto,soube que suas suspeitas tinham fundamento,pois antes de perceber que a jovem estava fugindo,notou que peças de roupa estavam jogadas no chão,e uma das peças era a camisa que o assassino usava no dia em que foi baleado. Olivetti iria até o fim dessa vez,mesmo que isso pudesse lhe custar seu distintivo e carreira;ele sabia que existe um limite,mas o ódio que sentia por Philip Mendel o impedia de perceber isso.
Os dois finalmente chegaram ao fim do corredor,e assim como seu pai lhe dissera lá estava,seu antigo carro.Ele o usava basicamente para fazer o transporte deles quando viajavam,pois o dinheiro que recebia não era suficiente para manter algumas contas e por isso usava o carro.Naquele momento sua finalidade seria diferente,e pelas circunstancias em que estavam,mais arriscada.Caroline teria que levar Philip para uma outra região,mais ao norte da cidade,mas não sabia como iria conseguir sem o auxílio do pai.Ele havia lhe dito que no momento certo ele mesmo iria fazer isso,então a jovem nunca se preocupou com o assunto.
Philip não entendia nada além da necessidade que tinham de sair dali rapidamente.Mas aos poucos juntava os fragmentos do que viu e ouviu para tirar suas conclusões.Se Olivetti estava ali,sabia que estava vivo e provavelmente queria prendê-lo a qualquer custo,já que essa parecia uma das grandes missões da sua vida.Concluiu também que se Caroline estava ao seu lado naquele momento,algo teria acontecido com seu pai,e quanto a isso ainda não tinha certeza.De repente,ouviu o som do motor do carro e soube que mais uma de suas fugas estava começando.
Olivetti chegou a tempo de ver o carro se distanciar,e isso fez uma raiva genuína invadir seu peito.Voltou pelo mesmo corredor,só que agora numa corrida frenética e sem medo de cair ou machucar-se.De volta à sala da casa,notou que Carlos já não estava mais ali,e sem parar para pensar nisso,seguiu até o carro.Alguns segundos depois,já estava na estrada procurando pelos fugitivos.Ele não sabia pra onde iam,mas dessa vez seu plano não iria falhar e seu alvo iria pagar de forma justa por cada um dos crimes que cometeu.
O carro não era muito confortável,mas Philip não tinha do que reclamar.Caroline comandava o volante com eficácia,o que o surpreendeu um pouco.Ela sabia o caminho e naquele momento peculiar,o homem que fez da dor sua sombra durante toda sua vida notou algo.Seus olhos pareciam colados na estrada à frente,uma atitude firme que só demonstrava o que já sentia nos dias em que Caroline entrava no quarto.Ele percebeu detalhes pequenos,como a cor de seus cabelos e o leve batom que usava;um sinal de que nem mesmo o perigo impede a beleza simples de existir.
O fato é que nas últimas semanas,algo estava dividido em seu peito.As noites em claro agora eram também invadidas por imagens sem foco,onde uma jovem sorria e isso abria novamente seu mundo,dando-lhe sentido e cor.Era como se de uma forma ainda desconhecida por ele,a vida fosse capaz de trazer uma razão ou alguém para fazer lembrar de seus sentimentos.
Em meio ao seu breve devaneio,não percebeu que um outro carro se aproximava rápido dos dois;era Olivetti,e pela velocidade sabia que sua maior necessidade era dar um fim definitivo aquilo.Caroline acelerou o veículo e com isso Philip sentiu o impacto da coluna no banco de trás,soltando um grito de dor que a fez virar-se.
-Desculpe,eu não queria machucá-lo,mas precisamos sair do alcance daquele carro!-Disse a jovem com olhar preocupado
-Tudo bem...-Respondeu Philip
O carro de Olivetti estava agora à poucos metros deles,e Caroline sabia que precisava sair dali o mais rápido possível,então numa tentativa ousada saiu da estrada e entrou na mata fechada. Olivetti freou bruscamente pois sabia que não iria conseguir alcançá-los ali,e a noção de que mais uma vez havia perdido Philip liberou uma explosão de raiva dentro de si.As circunstancias não pareciam favoráveis para ele,mas o que antes era apenas uma necessidade de cumprir a lei de forma justa e adequada,começava a se transformar numa obsessão sem controle.
Philip sentia muita dor agora,um de seus ferimentos começava a sangrar e Caroline estava focada em levá-los para longe.O carro balançava sob o terreno irregular,cercado por árvores baixas e galhos secos.A mente da jovem era um turbilhão de pensamentos,desde o estado do homem ferido que carregava à grande preocupação com o pai,pois até aquele momento não sabia o que havia acontecido com ele.
Já era noite quando se aproximavam do destino,mas nenhum dos dois disse nada.Caroline percebeu um repentino silencio no carro,quando notou que Philip tinha desmaiado.Ela pensou em parar para socorrer o homem,mas decidiu não arriscar e por isso seguiu em frente.Naquele mesmo instante,Olivetti chegava em casa com uma expressão marcante de raiva e decepção,que logo assustou a esposa que estava sentada no sofá da sala.Mais uma vez a sensação de que havia falhado fez sua raiva crescer;aquele assassino estava tirando sua paz gradativamente,mesmo que distante ou sem cometer novos crimes.
O destino fazia novas jogadas,e mais pessoas poderiam vir a sofrer sem necessidade.A busca frenética por justiça e condenação,a dualidade de sentimentos profundos e a possibilidade de recomeços...Tudo isso,aliado ao tempo,seria como uma noite interminável.
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Os Irmãos Mendel
General FictionAté onde a loucura pode levar alguém?Existem limites?
