"O caminho se fez em meio as trevas,e quando olhou para trás,apenas a escuridão o esperava."
"As escolhas são definitivas quando vistas como razão para seguir rumo ao propósito maior.Você compreende isso quando decide dizer não para as pessoas que um dia lhe causaram dor,ou quando por puro ato de semelhança,fere alguém para ter na vingança uma recompensa.Mas,quem parte rumo ao fim fez a escolha certa?"
As histórias são a maior e mais fascinante façanha do homem,seja por seu poder de alcance avassalador ou pelo fascínio profundo que causam em cada um de nós.Criadas à partir de sonhos profundos ou ideias simples,tais histórias movem o homem para lugares espirituais,onde talvez os passos não sejam tão necessários.Philip Mendel nunca leu uma história em sua vida pois estava sempre ocupado escrevendo seu próprio enredo;uma trama cheia de rastros de sangue,mágoas e palavras nunca ditas por medo ou apenas ausência de alma.
Sua infância,único período em que recordava alguma felicidade,passou rapidamente e não lhe deu tempo suficiente para guardar grandes memórias afetivas.Recordava seu pai e sua mãe trabalhando para manter a casa,mesmo que na época não tivesse total conhecimento de que aquilo era algo vital para sua sobrevivência,pois para ele eram apenas atividades de adultos,coisas que eram boas para eles.Correr atrás de sua irmã era uma de suas brincadeiras favoritas,principalmente quando o inverno coloria o campo com flocos esbranquiçados de neve,formando com o passar dos dias um manto gelado e escorregadio.Depois que seu pai saiu de casa,tudo isso transformou-se em passado,fragmentos pequenos que ainda circulavam em sua mente,só que com menos frequência que antes.
O tempo lhe trouxe experiências das quais queria ter fugido,mesmo sabendo agora que cada parte de sua vida era responsável pelo homem que havia se tornado.As pessoas sempre admiraram sua beleza,acreditavam ser um jovem com futuro promissor em qualquer área que desejasse,mas ninguém podia ver seus pensamentos e medos,suas razões obscuras e psicoses sem controle.Philip estava diante de um episódio de sua existência onde seriam definidos os próximos passos ou sua completa queda perante a vida;estava diante do julgamento de todos os seus medos e envolvido apenas em insanidade e ódio.
O apartamento de sua irmã era maior do que havia imaginado;um amplo espaço que provavelmente recebia vários amigos e colegas do trabalho.Dois quartos com grandes armários e camas aconchegantes,uma cozinha digna de um chefe italiano e uma sala com um grande lustre.Sua mente,apesar de conturbada e cheia de devaneios sangrentos não deixava que sentimentos menores como a inveja lhe invadissem;Philip não se importava com os bens da irmã,ele queria apenas silenciar o que para ele havia se transformado numa peça que já devia estar fora do tabuleiro.
No sofá de couro envelhecido da sala,Helena estava deitada e ainda desacordada.Suas mãos e pés estavam amarrados com um tipo de barbante triplo,uma técnica que impedia sua fuga indesejada.O seu lábio inferior apresentava um pequeno porém profundo corte devido ao soco do irmão,que no momento do golpe carregava um pequeno pedaço de vidro na mão.Não sangrava mais,pois Philip num ato controverso porém aceitável já que eram irmãos,estancou o ferimento com um band aid. Seu vestido estava manchado com sangue e sua pele apresentava pequenos arranhões superficiais.
O homem que parecia decidido e cada vez menos disposto a voltar atrás em seu plano,levantou o corpo da irmã e,com um tapa violento em seu rosto a acordou.Helena voltou à consciência como quem volta de um mergulho profundo e sufocante;sua respiração estava acelerada e seus olhos lutavam para entender a situação ao seu redor.Quando percebeu que estava presa,seu coração bateu mais rápido e o medo parecia a única sensação dominante naquele momento,até que viu seu irmão sentado à sua frente comendo uma maçã e admirando seu temor.
Philip a olhava como uma criança inocente que admira uma animal belo,porém indefeso pela primeira vez.A leveza que pertencia ao garoto que fora um dia,quando suas únicas intenções eram a diversão e o contato com a natureza desapareceu dando lugar à um olhar assassino e cheio de silêncio.Estava saboreando a fruta sem pressa e cada mordida parecia lhe dar mais prazer,pelo menos era isso o que ela pensava,pois na verdade o prazer dele vinha do momento em que estavam.
Ver Helena indefesa e ferida lhe trazia uma sensação de vitória e controle que só os caçadores experientes conhecem;o momento em que a vítima caí na armadilha,o ataque certeiro que apavora a presa e dá segurança ao predador.Philip estava obcecado com aquela cena,um breve instante de algo maior que planejava fazer,algo que deixaria todos alarmados e sua mente em paz definitiva.
Helena queria gritar mais não sabia do que o irmão era capaz caso o fizesse,o medo rondava sua mente e cada movimento de Philip a fazia tremer.
-Bem,vamos começar nosso jogo querida irmã...-Disse ele de repente
Sua voz era firme e trazia uma certeza que deixou Helena ainda mais temerosa,mas dessa vez ela tentou entender o que ele queria afinal:
-Não vai ter jogo nenhum,me solte agora ou vou começar a gritar e todos vão saber que o assassino mais procurado dos últimos tempos está aqui,é isso o que você quer?-Respondeu num tom desafiador
Philip continuou sua observação e sua expressão não mudou em nenhum momento,mas quando voltou à falar mostrou que sua insanidade era maior que a razão:
-Em primeiro lugar Helena,se você começar a gritar vai ser apenas por um segundo,tempo suficiente para que eu estoure sua cabeça com uma bala,mas assim não teria graça não é mesmo?-Disse ele com um sorriso no rosto
As suas palavras soaram pesadas e assustadoras,deixando o ar ainda mais carregado por uma sensação fúnebre.Helena compreendeu que era este seu plano,matá-la de uma vez por todas,apagar um de seus últimos laços familiares que ainda faziam sentido,já que sua mãe estava distante e não era a mesma depois de descobrir toda a verdade.Ele se levantou e veio até ela,e com um tom cada vez mais confortável para a situação,continuou:
-Então,como eu disse vamos começar o jogo.Eu irei lhe fazer três perguntas e se você for sincera em cada uma delas,eu a liberto e nunca mais irá saber que eu existo.Caso minta pra mim,infelizmente esta será sua última noite viva,entendeu ou preciso repetir as regras?
Helena sentiu seu sangue congelar e sua respiração tornou-se ofegante novamente.Como isso podia estar acontecendo?Como um homem a quem um dia amou tanto e quis proteger havia se tornado um monstro sem limites?Philip voltou a sua cadeira e esperou que ela concordasse com o jogo suicida proposto por ele,um jogo doentio que poderia acabar com a vida dos dois.
-Tudo bem Philip,como você quiser.Mas fique ciente de que tudo o que fez até hoje não ficará impune e se me matar estará condenado a sentir uma culpa da qual nunca irá se livrar...-Disse Helena
Ele a olhou por um instante e com uma expressão de ódio dirigida exclusivamente para ela respondeu de forma fria e imparcial:
-Acredite Helena,não tenho medo de punições ou culpa.Quero que entenda uma coisa enquanto coloca sua sinceridade nas palavras que irão sair por essa boca ensanguentada:eu estou só começando...
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Os Irmãos Mendel
General FictionAté onde a loucura pode levar alguém?Existem limites?
