Caroline

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"Permitir para ir em frente;uma escolha libertadora."


"O maior acaso é acreditar em acasos,pois se eles realmente existissem,a vida seria mais interessante e menos voraz.Não é um desencontro do destino o simples ato de ajudar alguém.é na verdade o único encontro que vale à pena..."

A verdadeira mudança não é fácil,tão pouco vem de onde se espera.O tempo exerce seu poder imparcial,as estações passam e se não houver desejo em evoluir,o destino continua em frente e não espera nada de nós além de compreensão.Normalmente isso não afeta as pessoas que por medo ou plena arrogância não se colocam diante da realidade,mesmo que suas vidas dependam disso e suas histórias precisem de tal combustível.O fato é que cada mudança tem um princípio fundamental,algo como um start que define a importância disso em nossas vidas;um começo que determina toda uma existência,ou em alguns casos apenas o seu fim... 

Sem a palavra ou o ato que conforta,nenhum sentimento seria tão real assim.Sua mãe sempre soube disso,então além de estar presente em sua educação e lhe dar todo amor possível,fazia questão de expressar isso diariamente para a garota curiosa e cheia de sorrisos.

-Eu te amo muito minha pequena!-Dizia com um olhar sereno e vivido

Para seu pai,era algo realmente fantástico ver todo aquele amor e fazer parte disso,uma felicidade que poderia sustentá-lo por toda vida.Mas nem sempre o universo ouve tais desejos,e deixa de lado as pessoas envolvidas para apenas confiar nos mistérios do destino;e infelizmente seria assim.Caroline não se lembraria com riqueza de detalhes no futuro,mas a vida já começava a tirar dela todos a quem amava sem uma necessidade exata de sentido.Sua mãe morreu quando ainda era criança,e mesmo que a memória não fosse sua aliada nesse aspecto de recordação,o rosto dela ainda lhe parecia presente em seus sonhos mais tranquilos.

Atingida mais uma vez pelo impacto insano da perda do pai em um assassinato cruel,Caroline tentava apenas sobreviver aos pesadelos constantes e ao medo da solidão.As vezes tinha grande receio em ir para a cama,pois sua mente a fazia acreditar que só imagens distorcidas e sangrentas de corpos baleados pudessem ocupar suas noites.Entretanto,não estava tão sozinha quanto antes pois ao seu lado existia um homem em quem estava aprendendo a confiar e acima de todas as expectativas e possibilidades,a amar.

Philip Mendel não era como os outros,em nenhum aspecto banal.Para ele as palavras eram importantes,porém dispensáveis em quase todas as situações e isso começava a fazer sentido para ambos.O único momento em que expressava sua opinião era quando a jovem parecia triste ou a dor causada pela perda de seus pais se mostrava maior do que pudesse suportar sozinha,e mesmo assim era econômico em seus diálogos.Ela não o julgava por isso,pois sabia o quanto toda sua vida havia sido diferente do esperado para alguém de sua idade;estava beirando os 29 anos,mas quando lhe presenteava com o raro privilégio de sorrir,mostrava apenas uma infância perdida,esperando para florescer.

Os dias ao seu lado eram um misto de receio e convite para a confiança real;ele não pedia nada além de seu espaço para pensar e ler alguns livros que encontrou no porão da casa,e ela desejava apenas que tudo o que estavam vivendo ali não mudasse.Os dois estavam apaixonados,mas sem a completa noção disso e apenas interessados na completude de ambos;seja pelos meios tradicionais de um relacionamento ou pela convicção de que cada um realmente era um horizonte à ser explorado.

Por alguns dias,nada se ouviu naquela casa além dos talheres na mesa durante as refeições,que por algum motivo estavam sendo preparadas por Philip;talvez uma forma de agradá-la e ser útil,ou só um talento que queria mostrar.Aquele homem era diferente do covarde de quem tanto ouvira falar nos intervalos do curso de medicina,do qual inclusive já não fazia mais parte desde a fuga à seu lado.Seus colegas de turma estavam sempre informados sobre os assassinatos frequentes na cidade,a maioria deles causados pelo mesmo criminoso que atormentava famílias e driblava a polícia como num jogo.

Todos tinham um opinião particular e diferenciada sobre Philip,mas sempre chegavam ao mesmo senso:ele era frio,calculista e monstruoso e nem mesmo a prisão seria justa o suficiente para alguém viciado em causar o sofrimento de formas tão terríveis.E realmente existia verdade nisso;nem o próprio acreditava na simples justiça de um julgamento e por fim,a condenação a passar os últimos dias de sua vida em uma cela lúgubre e sem luz.As vezes,a culpa nos propõe o pior para curar uma alma ferida.Mas não se engane;pois o caminho irá ferir ainda sem a escolha correta.Não era um jogo predeterminado de regras criadas para funcionar,a vida dele agora era irrelevante e só lhe importava Caroline e seu futuro.

Ela sabia que aquele olhar distante queria apenas descansar,tomar seu lugar entre a cama e seus olhos.O amor deles não surgiu para servir de exemplo para ninguém,mas a noção da existência dessa força avassaladora trazia conforto para suas almas.Longe de tudo isso,da vida oposta de um irmão que aprendia a esquecer,Helena pensava na carta que encontrou na igreja e mais ainda,no nome de seu remetente.Ela já teria descoberto se aquilo era real ou apenas uma peça de sua mente diante do medo de Philip realmente estar vivo,mas as circunstâncias eram diferentes e ao que tudo indicava,existia um momento adequado e escolhido para sua leitura.

No verso do envelope,também escrito com aquela caligrafia tão familiar estava a seguinte anotação:

"Por favor,ler apenas no dia 10 de julho;o dia mais real de todos..."

Era como estar ouvindo tais palavras saindo da boca do irmão,o que lhe provocava arrepios.Mas de alguma forma,sua mente lhe assegurava que confiar naquilo,mesmo que fosse estranho ou louco era o melhor à fazer.A data estava próxima,e a ansiedade de Helena era visível para o marido e alguns amigos,mas sua habilidade de disfarçar compensava isso com sutileza.O fato é que ela sentia medo de abrir e ler o conteúdo daquele envelope;um medo que sempre tivera e que já tinha deixado marcas de mais.

O que ninguém esperava porém,é que aquela carta era mais que um simples recado ou insanidade de alguém querendo reacender a dor em seu peito passando-se por Philip,ou quem sabe algo realmente deixado por ele na mais assustadora das hipóteses.Mas em breve aquele envelope deixaria a vida de todos da família Mendel mais uma vez em em alerta;seria a última reação de todos...






Os Irmãos MendelHistórias para pegar e não largar. Descubra agora