"Nada além da verdade,pois a verdade liberta..."
"Não adianta esperar muito da vida se não há dedicação;é como esperar o resultado sem propor a ideia em busca dessa finalidade.As pessoas erram ao ir além do que podem para reafirmar seus conceitos e definições,e ao invés de lutarem para mudar o que está a seu alcance de maneira coerente,absorvem a crueldade exterior para se tornarem dignas de algo indefinido..."
A natureza do ser humano é intensa o suficiente para causar impactos notáveis,mesmo quando a inércia parece predominante.Parece complicado,mas é tão simples quanto o cair da chuva.Nenhuma tempestade é cruel por destruir fazendas e casas,na verdade é um simples fenômeno e só isso basta.O mesmo acontece para cada ser humano:mesmo que determinadas ações sejam potencialmente cruéis,pode haver uma razão para tal...Ou não.
Depois de uma busca que indicava nada mais que perda de tempo à procura de um homem que nem sabia se estava vivo ou não,Olivetti encontrou o que procurava e começou a traçar seus próximos passos.Quem poderia imaginar que Philip Mendel,um dos maiores assassinos dos últimos tempos estaria sendo protegido por um homem de meia e idade e sua filha universitária.Ainda parecia incrédulo quanto a veracidade das informações,mas decidiu ir em frente mesmo que isso pudesse ser só mais uma tentativa vazia.
Estava nervoso,e a cerveja que antes lhe agradava começou a incomodar enquanto se levantava e seguia em direção ao carro.Sua mente era um campo minado de pensamentos e ideias,mas sabia que se não tivesse paciência,tudo poderia dar errado.Esperou que o homem também deixasse o local e com os olhos seguiu seu passos até que montasse em seu cavalo,amarrado do outro lado da rua.Agora um pouco mais calmo e confiante do que deveria fazer,esperou que o homem se afastasse e seguiu-o com o carro.
O que movia Olivetti naquele momento era sua noção de justiça,algo que nem sempre foi presente em sua vida e que,de certa forma,contribuiu para que se tornasse uma pessoa melhor. Conrad Olivetti foi criado numa cidade do Sul por seus pais e mais seis irmãos,e sua vida não teve episódios significativos até que completasse 16 anos de idade.Nesse período estava se preparando para seguir a mesma profissão do pai,como policial militar apesar de não concordar com isso. Conrad sempre foi irresponsável quando adolescente,mas sua mãe sempre dizia que era uma fase temporária e que estudar para ser como o pai iria ser algo benéfico.
Por ser jovem e talvez querer mostrar à todos que era mais corajoso e ousado do que pensavam,se envolveu com as pessoas erradas e conheceu o mundo das drogas.Foi o momento mais obscuro da vida de Olivetti;perdeu seus melhores amigos,que se afastaram ao perceber que não era o meso de antes,e o pior de tudo,perdeu o apoio da pessoa que mais amava no mundo,sua mãe.Muitas vezes é a dor que nos oferece a possibilidade de redenção,mesmo que isso pareça contraditório ou sem sentido pleno,e foi isso que aconteceu na vida dele.
Depois de ser apreendido roubando uma loja de roupas,Olivetti foi levado para uma delegacia local e lá encontrou um homem de quem se lembraria para sempre.O policial era diferente dos outros colegas,mais calmo e com palavras confiantes e lhe disse algo que o fez pensar muito.O homem se aproximou de sua cadeira,onde estava sentado com a roupa suja e o cabelo bagunçado e disse:
-Se quiser,posso te ajudar quando for roubar de novo amigo...O que acha?
Conrad levantou a cabeça e o olhou por um longo período,com um olhar de quem dizia algo como:"Você está maluco?".O policial ficou ali parado,e antes que continuasse com o discurso,a voz do jovem se fez presente na sala:
-Eu sei que é errado,não preciso da sua ajuda para fazer coisas injustas...-Disse Conrad
-Muito bem rapaz,"injustiça" é o ponto.Acha justo roubar a loja de alguém que provavelmente precisa mais do que você?
A pergunta se propagou na sala e nos ouvidos do jovem,quando o policial se afastou e disse apenas:
-Eu sei que não é alguém ruim,é só um jovem em busca de um caminho só seu.Então vou te dar um conselho:seja justo...-Finalizou saindo da sala
Ele foi liberado e à partir daquele momento resolveu mudar sua vida.Com a ajuda de seu pai e outros parentes,foi internado numa clínica de reabilitação e durante esse tempo estudou sobre leis e normas técnicas.Quando o vício das drogas se tornou apenas uma página de seu passado,mergulhou no conhecimento e depois de muito esforço,tornou-se delegado.Dia após dia lutava consigo mesmo para ser justo,se tornar alguém com intenções significativas e sinceras e sabia que isso era o correto à fazer,para desculpar-se com as pessoas que de algum modo feriu ou deixou de lado quando perdeu o controle.
Estava seguindo aquele homem com esse pensamento fixo,ser justo para ser correto.Se Philip realmente estivesse vivo,era seu dever como homem da lei capturá-lo e assim fazer com que pagasse por seus crimes,e por isso sua busca era permeada de sentido.O carro parou próximo à uma pequena casa na beira da estrada,rodeada por árvores grandiosas e flores silvestres. Olivetti desceu e continuou a pé até o local.Próximo a pequena varanda de cedro envelhecido;o cavalo agora descansava depois da longa caminhada,e do outro lado do terreno,o telhado de um galinheiro começava a ser iluminado pelo sol do entardecer.
O delegado com anos de experiência sabia o que fazer,mas de certa forma estava apreensivo.Queria dar um fim a suas dúvidas e descobrir se naquela casa estava seu alvo,mas não queria fazer isso de forma muito precipitada.Parou e refletiu um pouco,e depois de decidir que seria o melhor a fazer,foi até a casa.
O som de batidas na porta assustou Carlos,que preparava um chá na cozinha.Sua filha estava no quarto com Philip;sua atenção era maior agora que o efeito de alguns remédios estava sendo positivo e em breve o homem poderia sair daquela cama.Carlos abriu a porta e se deparou com um homem sério e com trajes de alguém importante.Vestia uma calça de couro escuro e camisa social,coberta por uma jaqueta.Tirando um distintivo de seu bolso esquerdo,o homem se apresentou:
-Boa tarde,meu nome é Conrad Olivetti,delegado da DP Central e estou à procura de um foragido da polícia nessa região,o senhor teria alguma informação que pudesse nos ajudar senhor?-Disse
Carlos sabia quem ele estava procurando,mas sua expressão não mudou apesar de saber que protegia um assassino.Ele tinha total conhecimento dos crimes cometidos por Philip,mas quando o encontrou à beira da morte naquele casebre,deixou que seu lado humano falasse mais alto e o ajudou.Carlos queria fazer com que Philip se transformasse em alguém melhor,e contou isso para a filha dias depois de trazer o estranho para casa,e mesmo sem gostar da ideia de abrigar alguém como ele,Caroline não conseguiu intervir contra o desejo do pai.
Mas naquele momento,soube que estava comprando para si uma briga maior do que podia suportar;algo que talvez estivesse fora de seu alcance.Mesmo assim,prometeu a si mesmo defender essa ideia até o fim,por isso tentou evitar que o delegado entrasse:
-Não conheço nenhum foragido doutor,acho que veio ao lugar errado.Mas se souber de alguma coisa lhe procuro na cidade...-Disse em um tom seguro
Olivetti não estava ali para ser barrado,quando parecia tão perto de conseguir o que queria.Seus olhos estavam fixos no homem e sabia que cada palavra sua era carregada de uma mentira mórbida e sem explicação,pois afinal por que proteger um assassino?
-Não tem problema se eu der uma olhada não é mesmo senhor?-Disse dando um passo à frente
Os dois cruzaram olhares firmes e Carlos soube que não podia impedir a lei de cumprir seu papel.O que viria a seguir não fazia parte dos planos de nenhum deles,mas o resultado não seria o esperado.Em busca de significado,justiça e transformação,naquela tarde mais um inocente iria cair...
