Perante a luz do Sagrado

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"Uma jornada  real não perde seus seguidores,mas o caminho sempre se transforma."


"As chances de algo acontecer não são definidas exatamente pela expectativa breve ou a solução proposta por alguém.Tudo segue um ritmo diferente do esperado,e isso é a forma de o destino dizer claramente:"Eu sei o que estou fazendo."

Os atos humanos são sempre diferenciados,porém únicos e de uma singularidade inexplicável.São sempre o oposto do que se imagina,além da aparência e acima de tudo,são capazes de surpreender dia após dia tamanha força ou fraqueza.Nem sempre existe algo para contemplar,principalmente quando se utiliza a dor para aceitar as consequências de uma vida sem atenção e amor,mas até nisso as atitudes mais controvérsias e banais são decisivas na busca de compreensão do ser humano.

Além disso,quando tais atos sobrevivem ao medo que silencia e fere profundamente temos a prova de que a impossibilidade é nada mais que um ponto de vista conturbado e pouco preciso;é só uma necessidade humana dificultar sua própria chegada ao topo.Mas,e se por um único momento a vida lhes der a chance de mudar,de ir além das cortinas de um mundo em chamas e marcado pelo sangue de inocentes e noites destruídas...O que acontece?

Faltava pouco agora,os preparativos já estavam em andamento e os convidados chegavam,trazendo com eles a aura de algo novo e emocionante.Lúcia estava no quarto de casa,preparando os últimos ajustes do vestido já no corpo de Helena,que parecia nervosa porém feliz.O último ano havia terminado com a promessa de renovação para os corações de todos na família Mendel,em especial para Helena que estava prestes a se casar com o homem que aprendeu a amar e confiar todos os dias,mesmo depois de ter presenciado situações da vida que poderiam,de alguma maneira bloquear seus sentimentos.

Ben era um homem confiante e sempre seguro de suas escolhas,e isso aprendera desde muito cedo com a família.Criado perante a ideia de igualdade de gênero e respeito à todos,sempre foi um verdadeiro cavalheiro e incapaz de magoar uma mulher;um tipo de formalidade necessária que já parecia perdida em outros lugares além de sua terra natal.Mas na noite em que conheceu Helena,naquele grandioso e belo desfile de moda no qual estava com um amigo,tudo isso pareceu convergir na certeza de que ela deveria ser sua;não como uma posse material ou simplesmente um desejo momentâneo,e sim como o amor que não encontrou em um outro alguém.

Os dois estavam ali sem saber exatamente o sentido de suas vidas,como dois pontos perdidos em busca do mesmo interesse.Tempos depois,um sincero amor surgia,trazendo um sentido até então desconhecido para ambos.Helena nunca teve a coragem necessária para lhe contar tudo sobre seu irmão ou sobre o tormento pelo qual passou antes de conhecê-lo,mas de certa forma isso não importava mais,pois quando estava ao seu lado tudo parecia mais leve e seguro.

Sua mãe já estava pronta;usava um vestido rosa com tons leves e um belo chapéu florido.A poesia que existia em sua alma agora era fruto da convivência com aquelas crianças que lhe inspiravam diariamente.As pessoas sempre serão capazes de encontrar um caminho pleno,basta deixar a vida fluir.O que nenhuma delas sabia,é que aquela comemoração teria um convidado não esperado,mas que sempre esteve presente mesmo quando distante.

Todos já estavam na igreja escolhida para o casamento;um templo de estilo Barroco Moderno e com grandes painéis,pinturas representando desde citações Bíblicas aos aspectos de crença da região.A mãe de Helena sempre foi muito religiosa,um vínculo que nunca tentou passar para os filhos desde a infância,nada além da simples razão de deixar para eles a liberdade de escolha no momento mais adequado.Dentro do templo,o aroma de rosas brancas e os olhares de todos os familiares aguardavam pela noiva,assim como Ben que já no altar,esperava apreensivo pela mulher a quem escolheu para partilhar uma vida em comum.

O carro se aproximava da igreja,e na porta de entrada seu melhor amigo já esperava para acompanhá-la até o altar.Ela nunca imaginou se casar na verdade,pois quando ainda muito jovem,acreditava que o amor era nada mais que uma invenção das pessoas em busca de uma vida melhor ou mais interessante.Além disso,o medo que a perseguia sem receios sempre a colocava diante da rejeição de viver ao lado de alguém desconhecido,de confiar em um homem como um dia confiou em seu próprio irmão.Entretanto,quando imaginava a distante possibilidade disso acontecer,desejava que seu pai estivesse lá para entregar sua mão ao futuro marido;mas ele não estava ali agora,e não estaria em nenhum outro momento.

A marcha nupcial começou à tocar e todos se levantaram,com exceção de um homem.Helena estava simplesmente deslumbrante com um vestido bordado à mão durante quase três meses;uma das atividades realizadas pela mãe e uma de suas amigas durante algumas horas por dia.Ao seu lado,um de seus melhores amigos e também colega no trabalho,que foi o primeiro à se oferecer para acompanhá-la,e o mais divertido também.Todos estavam felizes,com um olhar cheio de emoção e a simples mensagem de orgulho que estava no rosto de Lúcia.

No altar,Ben a recebeu e beijou sua mão.O amor que fluía ali era notório e fazia qualquer detalhe menor parecer invisível.O padre estava realizando os votos deles,e toda a atenção era voltada exclusivamente para o casal.Ninguém presente notou o silencioso convidado vestido de preto e com um chapéu que lhe cobria quase o rosto,mas ele estava lá e suas lágrimas também.Helena e Ben finalmente trocaram as alianças e o beijo que marcava aquele ato tão sublime,quando de repente ela olhou para os familiares e amigos,e de forma rápida porém natural,reconheceu um rosto do qual sempre iria se  lembrar em toda a vida.

Era Philip,seu irmão que estava ali.Seu coração passou da simples leveza para o medo em questão de segundos,mas algo diferente aconteceu dessa vez.Percebendo que ela estava assustada,o homem se levantou e foi embora,deixando apenas um vago olhar para trás.Poucas pessoas notaram sua saída,o que a fez imaginar que pudesse ser só uma impressão,mas a certeza poderia lhe machucar ainda mais.

O que não está ao nosso alcance,não está perdido em definitivo;apenas repousa na espera de uma certeza que possa iluminar nossa compreensão.Era um momento feliz,e nenhum deles iria perder isso,principalmente a jovem.Mas,depois de toda a comemoração e euforia daquele que deveria ser seu dia mais feliz,Helena voltou à igreja,deixando os convidados por alguns minutos.Ainda ciente do que viu,foi até o lugar onde o homem esteve sentado e,para sua surpresa encontrou um envelope ali.

Seu coração queria entender melhor o que estava acontecendo,mas o medo oculto em seu inconsciente dizia para esquecer e seguir.As vezes a vida nos propõe situações onde a razão e o medo tornam-se opostos inflamáveis e sem fim,cabe à nós a escolha.As perguntas em sua mente eram como um bombardeio,mas ela tinha certeza de que aquele era seu irmão.No verso do envelope branco,um frase com a letra tradicional de Philip lhe fez sentir sua presença marcante ao seu lado mais uma vez:

"Para Helena Mendel;uma leitura para lembrar que eu existi..."



Os Irmãos MendelHistórias para pegar e não largar. Descubra agora