Capítulo 46

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               A casa de Ale é quase fora da cidade, pelo caminho podia ver as árvores dançando ao vento enquanto eu dirigia veloz pela estrada. O céu estava claro e um sol alto já brilhava indicando um excelente dia quente. Pela minha cabeça passava uma dezena de coisas absurdas, como ela está doente, está morrendo e quer fazer um último pedido, se acidentou. Não vi quando um cavalo cruzou a estrada. Seus olhos se viraram rapidamente para mim e quase senti que a batida era iminente. Freei com toda força, o pneu queimou no chão liberando um cheiro desagradável e eu bati a cabeça no volante, mas felizmente não fez corte ou hematoma algum. O animal agora parecia estar bem longe, nem sinal quando vi o dono correndo atrás e gritando um: Desculpe. Olhei para o espelho retrovisor olhando mais uma vez minha testa me certificando que não havia ficado nenhuma marca. Respirei fundo.

              Estacionei e me dirigi a porta principal, bati uma ou duas vezes. Olhei para dentro através da vidraça, mas nada. Seu gato passou por mim esfregando seu rabo em minha perna e então correu. O seguiu, óbvio que ele não é um cachorro eu fareja pessoas, mas e se... Passamos por um caminho extenso de terra até chegar onde Ale estava ajoelhada com uma tesoura gigantesca nas mãos plantando uma pequena arvorezinha.

— Você está bem? Realmente bem? — Questionei vendo-a passar a mão na testa levemente suada e sorrir pra mim.

— Que bom que veio querida. Sabia que viria. — Ela se levantou e beijou meu rosto com uma animação assustadora. — Temos algumas mudinhas novas aqui pra plantar e eu queria plantá-las antes das 11h horas quando o sol realmente estará forte.

— O que? Eu pensei que estivesse morrendo ou algo assim?

— Não querida. Por que pensou uma coisa assim? — Ela riu alto. Minha boca abriu automaticamente e eu não pude evitar soltar uma careta.

— Vamos, temos muito trabalho. — O que? Por que ela não chamava o filho querido ou a maravilhosa nora que ela tem.

           Ale me emprestou luvas grossas cinzas de um material que parecia borracha, além de um chapéu redondo de palha, muito grande. Cavamos buracos na terra enquanto as plantas nos esperavam na sombra. Imagino que elas estivessem bem ansiosas para que a dona delas me tivesse chamado. Depois transferimos com muita delicadeza as plantinhas para a terra cobrindo toda a sua raiz. Tinham pelo menos 20 delas e ao final eu me sentia muito cansada jogando água em cima.

— O que são?

— São roseiras. — Respondeu com um olhar doce para as coisinhas verdes no solo.

— Eu devia adivinhar pelos espinhos. — Mostrei meu dedo que sangrava um pouco, um pequeno furinho que consegui quando cansei de usar as luvas.

— Ah sinto muito, elas são bem danadas se não tomar cuidado, mas não fazem por maldade. — Ela me estendeu um lencinho que tive dó de sujar com meu sangue e toda a sujeita da minha mão. — É como o amor. Eles nunca fazem por maldade. — Ela espreitou os olhos pra mim e agitou a cabeça derrubando o chapéu fazendo uma extensa trança loiro platinado balançar em sua cabeça. Parecia uma Rapunzel, porém mais madura. — Vamos que eu vou preparar o almoço e uma boa limonada para mulheres trabalhadoras como nós.

— Eu não poderei ficar, tenho um compromisso. — Menti.

— Não querida esqueça, desmarque pra já. Você fica.

             Eu me sentava em uma dessas cadeiras altas no balcão da cozinha fatiando tomates, cenouras, cebolinha, pimentões e mais um punhado de coisas enquanto Ale mexia em panelas gigantescas como se um exército fosse almoçar ali.

— Como está indo a gravação da sua novela? Sempre que posso eu a assisto, ou seja, todos os dias. — Ela sorri.

— Está indo realmente bem. Estou bem feliz no momento. Muito ocupada.

Poderíamos Cair (Vondy)Onde histórias criam vida. Descubra agora