Nós conversamos por um bom tempo, e depois de um tempo eu me sinto familiarizada o suficiente para parar de apenas assentir e começo a falar. Palavras inteiras, sem gaguejar, e logo, frases e mais frases, formando um discurso sobre política. Aquele é um dos assuntos que sinto que posso discutir o dia inteiro. E eu falo sobre aquilo com aquelas garotas, que falam sobre aquilo comigo. É uma conversa. Não estou falando sozinha. Aquilo me deixa tão feliz. Preciso agradecer a garota de olhos de chocolate (com uma lua no meio).
Allyson Brooke é uma pessoa incrível. Seu coração é bom e ela tem uma sabedoria admirável. Aposto que é a garota que recebe ligações de madrugada, quando as meninas precisam de conselhos. Normani Hamilton tem, além do brilho que quase irradia dela, a voz doce e o sorriso gentil que torna humanamente impossível que alguém em sã consciência a odeie. Dinah Jane me faz rir, mesmo que eu não queira, quase que de cinco em cinco minutos. Ela é tão naturalmente engraçada que é difícil manter pensamentos ruins por perto. Mas há uma coisa que se destaca entre todas. Seu amor pelas amigas. Eu achei que sua proteção-excessiva-e-quase-maternal caísse apenas sobre Camila, pela doença. Mas ela é assim com todas as outras. Cuidando, protegendo, amando, checando se estão bem. Caminah, Dinally e Norminah, como elas chamam, são baseados principalmente em carinho e proteção. E isso é tão bonito que me faz sorrir sozinha.
Fico ali olhando para elas, pensando em "agora somos cinco". Agora faço parte daquilo. Há quanto tempo não faço parte de algo? E se "agora somos cinco" trouxer dor? E se elas não entenderem? Penso demais e quase sumo entre os meus pensamentos enquanto elas ainda estão ali. Mas sinto uma mão na minha, puxando, segurando. E sei que é a mão dela mesmo sem olhar. Conheço aquele pulso fino, envolvido pela nossa pulseira.
As meninas ainda estão falando. E não é um assunto desinteressante. Normani fala coisas realmente inteligentes sobre política. Mas eu não consigo pensar em mais nada quando Camila vem tateando a cama até mim, e desaba em meu colo.
- Oi - Fala baixinho, abraçando meu pescoço. A voz de Mani abaixa. Elas estão prestando atenção. Minhas bochechas pegam fogo. Droga.
- C-Camz. O q-que...
- Sono, Lo.
Simples assim. Ela fecha os olhos e fica ali, mexendo os dedos devagar entre os meus fios de cabelo, como se só nós existíssemos. E eu acredito nela. As meninas estão caladas e eu não me atrevo a olhar para elas. Só para a garota quase adormecida em meu colo, com belos traços latinos, e menos tempo do que gostaria.
Quando ela dorme, parece (é) tão doce e pura que beijo sua testa sem pensar. Só penso depois, quando levanto meus olhos e três pares de olhos me encaram fixamente. Talvez eu tenha medo do sorriso no canto dos lábios de Normani e Ally.
- Vocês... - As duas começam ao mesmo tempo, e riem juntas, antes de voltarem a me olhar.
- N-Não. Quer dizer, não. Tipo, não mesmo. Eu nem sou gay.
As três me lançam olhares incrédulos. Sério? Até eu me olharia desse jeito.
- Ok, eu não sei o que eu sou, melhor pra vocês?
O quarto fica em silêncio. As meninas continuam encarando, antes de explodir em uma risada alta. Quase tapo os ouvidos de Camila.
- Olha, Laur, sei que nós nos conhecemos há pouco tempo, mas eu te vejo na escola há anos e você é a única que não sabe que é gay. Tipo, sério, eu estou quase te assumindo pra você mesma, desculpa, mas sério...
Elas continuam rindo, as duas, e eu rio junto depois de um tempo porque é impossível não rir. Talvez eu seja gay. Isso não importa nada. Nada mesmo. A única coisa que importa no momento é que eu estou rindo, com pessoas, e elas não estão rindo de mim. Depois de anos de bullyng e risadas de deboche que chegavam aos meus ouvidos dolorosamente, ouvir aquele som é algo incrível para mim. Som de amizade.
Coloco Camila de forma confortável na cama com a ajuda de Dinah, que está bastante séria há um tempo. Normani e Ally não estão ali. Foram procurar seu mascotinho chamado Sofia Cabello. E agora eu estou estupidamente amedrontada.
- Preciso falar com você.
Você não diz "preciso falar com você" para alguém com ansiedade. Você não pode, Dinah Jane. No momento em que ela diz isso eu quase evaporo. Quase sigo meu plano de pular a janela e correr para casa. Meu coração... eu posso ouvi-lo bater, e não é por um bom motivo.
- Me encontre lá fora - Ela diz, e sai. Eu estou tão confusa que fico ali, parada por minutos antes de me mover para sair do quarto, descer as escadas e alcançar o quintal. Minhas pernas bambas e meu corpo trêmulo fazem parecer que vou desmaiar. Talvez eu desmaie, e aí não terei que conversar com Dinah. Minha nova amiga e meu antigo pavor.
Não desmaio antes de chegar lá. Desabo na grama ao lado da loira esperando que seja rápida, que não seja tão grossa. Ela nem me olha. Só olha para frente. Para alguns girassóis de Sinu.
- Lauren, você sabe que proteger a Camila é quase meu dever, não sabe? - Assinto, incapaz de falar. Ela me odeia. Ela me quer longe. Meus pensamentos não ficam em silêncio um segundo sequer - Eu te acho uma garota incrível. Pelo menos agora, que eu vi de perto. Sem aquela máscara que você usa na escola. Eu sabia que tinha algo por trás - Abraço meus joelhos, ansiosa porque ela fala devagar e eu não estou entendendo. Meu estômago se revira dolorosamente. O que ela quer? O que ela quer dizer? - Eu preciso te contar..
- Conte - Digo, ansiosa, quase ordenando que ela me diga. Como eu adoraria ler mentes.
- Só caso você não tenha notado em todos esses anos, Jauregui, Camila é perdidamente, estupidamente, irremediavelmente e todas as palavras terminadas com "mente", apaixonada por você. Eu não deveria estar te dizendo isso. Você sabe que não. Eu deveria me manter quieta, e deveria deixá-la fazer o jogo lento dos apaixonados; mas ela não tem tempo. Nós todas sabemos disso, mas ela sempre esquece. Camila é infinita por dentro. Ela não aceitaria seu limite de tempo. Só acho que você tem que saber.
Fico em total silêncio, sem movimento. O vento balança meu cabelo e atira-o contra meu rosto repetidas vezes, e eu nem me movo para impedir. As palavras de Dinah se repetem, de novo e de novo em minha mente, quase dançando em frente aos meus olhos. Camila. É. Perdidamente. Estupidamente. Irremediavelmente. Apaixonada. Por. Você. Por mim, quando ela tem tantas pessoas. Por mim, quando eu passei anos distante.
- Ela é? No presente?
- É. No presente. E o presente aparentemente não é um bom tempo para estar apaixonada, certo? - Dinah finalmente me olha, o par de olhos castanhos brilhando - Eu entendo que você teve motivos para se afastar, Lauren. Eu entendo e ela perdoou você. Mas eu preciso saber que você não vai sumir de novo. Eu preciso saber que você vai ficar ao lado dela até o último dia. Não estou pedindo pra gostar dela ou se apaixonar. Mas ela ama você e ela está morrendo e a gente não pode mudar nada disso. A única coisa que eu preciso é que você não quebre o coração dela. Por favor. Ela é minha melhor amiga.
Dinah Jane está chorando. Dinah Jane. Chorando. Os meus medos em relação a ela se dissolvem enquanto ela soluça baixinho e leva as mãos aos olhos como uma criança tentando secar as lágrimas.
- V-Você q-quer um... um abraço? - É a coisa mais arriscada que eu poderia dizer. Mas Dinah me abraça e chora, soluçando, e dizendo qualquer coisa como "eu não acredito que isso está acontecendo", ou "eu queria curá-la".
O peso do tempo está sobre nós. Aquele tic-tac ecoando em nossos ouvidos, nos lembrando de que o tempo está passando. Eu entendo a preocupação de Dinah. Entendo o motivo das lágrimas. Mas não entendo porque meu coração está batendo enlouquecidamente, como se quisesse pular para fora.
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La Vie
RomanceCamila e Lauren se reencontram em um hospital, depois de oito anos. As duas estão doentes, e o tempo está passando mais rápido do que deveria. Mas sempre há mais tempo. Tempo de consertar; tempo de amar. E essa é a vida.
