Às oito da manhã de um sábado, eu estou jogada na cama da minha namorada, usando um biquíni pela primeira vez em anos, e quase chorando. Quando avisei que iria para a praia com os Cabello e as garotas, minha mãe quase não conseguiu dar uma resposta. Chocada. Ela devia saber. Aquilo soava como algo terrivelmente assustador.
Eu sinto meu corpo tremer agora. Sinto cada parte de mim tremer e sacudir enquanto ela desliza os dedos por meu pulso, por minha barriga e por minhas pernas, por todas as cicatrizes que consegue sentir. É um toque delicado. Um toque doce. Um toque de amor. Como se estivesse colocando um band-aid em toda a dor.
- Passou... - Sussurra, tão baixo que eu quase não ouço. As lágrimas escorrem e eu quase não percebo. Estou quase adormecida - Está passando, Lolo... Está sarando. Você sente?
- Eu s-só queria... que sarasse logo.
- Cariño... Vá devagar com você mesma. Você é tão gentil e paciente comigo quando eu estou fraca. Seja gentil com você mesma também. Eu sei que é tão mais difícil, mas eu quero muito que lembre que você é importante, e sua dor é válida. E essas aqui - Ela deixa um beijo delicado em apenas uma das cicatrizes. Estou tão anestesiada que não consigo sorrir ou piscar - São suas cicatrizes de guerra. As pessoas se machucam. E está tudo bem. Nada do que passou importa tanto que vá substituir o que eu vejo agora. Uma mulher forte. Bondosa. Corajosa. Eu estou orgulhosa de você, acredite em mim.
Fico em silêncio. De olhos fechados. Sentindo as palavras entrando em minha pele e curando. Quando abro os olhos de novo, seus olhos estão a um dedo de distância dos meus. A lua afogada em chocolate. Arrumo algumas mechas de cabelo castanho atrás de sua orelha, antes de sussurrar.
- Obrigada por existir.
- Obrigada por existir ao meu lado.
Ela sempre tem uma resposta pronta para me dar, e sempre consegue fazer o sol se abrir em meu peito. Reúno as forças que começam a surgir para puxá-la para meu colo e sentar na cama. Camila ri se tivéssemos seis anos.
- E se alguém me perguntar sobre... Eu devo... Devo mentir? - Pergunto, ainda com medo apesar de tudo. Ela continua sorrindo.
- Eu aposto que não vão. Mas se perguntarem, segure a minha mão, e você vai saber o que dizer.
- Por que você está sorrindo assim? - Camila sorri mais ainda, e desliza os dedos pela alça do biquíni. É algo leve, como se ela quisesse apenas sentir o tecido. Coloco minha mão sobre a sua - Ele é preto.
- Eu imaginei. Obrigada por ser meus olhos. Quer me ajudar a colocar o meu? Acho que ele é rosa.
Nós nos levantamos. Engraçado como tudo parece ter mudado de um segundo para o outro. Eu ainda não me sinto a deusa da confiança, mas parece que o sol e a luz invadiram aquele quarto. E tudo está bem.
O biquíni é mesmo rosa. Quando encontro a parte de cima em sua gaveta desorganizada e me viro, ela está de costas para mim. Usando apenas a parte de baixo do biquíni. Não percebo o quão trêmula estou até estar muito perto. E só então eu percebo. De novo. Nós crescemos.
Camila é minha amiga de infância. Mas ela é minha namorada agora. Uma mulher. Com todas as curvas, mesmo bem mais magra do que nós gostaríamos. Deixo que meu rosto esquente, todo o resto do meu corpo também. Deixo que minhas mãos deslizem pela pele macia, devagar, como se eu reconhecesse o corpo mudado. E ela não se move. Confiança. Sorrio. E espero que ela sinta o que eu quero dizer. "Você é tão bonita.". Começo a colocar a parte de cima do biquíni, com toda a delicadeza que existe em meus dedos, terminando com um laço atrás. Camila se vira de repente e me abraça, com força. Sua pele diretamente na minha. Me sinto como se fossemos a mesma pessoa.
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La Vie
RomansaCamila e Lauren se reencontram em um hospital, depois de oito anos. As duas estão doentes, e o tempo está passando mais rápido do que deveria. Mas sempre há mais tempo. Tempo de consertar; tempo de amar. E essa é a vida.
