Bethany tem uma ótima vida superficialmente. Mas, como qualquer pessoa, tem pequenas partes ocultadas em seu interior. Em um momento oportuno de ousadia, ela foge de tudo que a aborrece, tenta seguir com uma nova vida e, claro, sem preparo algum, ac...
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— Desculpe, mas só tenho isso... — respondi, engolindo em seco.
— Certo, mas se apresse. Já vamos fechar — respondeu a atendente. Observei-a andar até detrás do balcão e logo desaparecer pela porta dos funcionários da lanchonete.
Eu tentava controlar o meu pânico. E agora, o que faria?
Não tinha um tostão no bolso. Fui burra o suficiente para sair sem pegar uma quantia favorável de dinheiro. Mas, bem, eu saí às pressas.
Eu... fugi de casa.
Ainda não conseguia acreditar. Agi de maneira automática, com raiva e... cansaço. Sabe quando você vive dizendo uma coisa e não imagina que a fará? Eu fiz e há algumas horas. Só esperava nunca ser encontrada. Eu não voltaria de jeito nenhum. Mais fácil seria morrer.
Comigo, só levei uma mochila, com algumas roupas e documentos. De resto, deixei para trás — se bem que não havia como trazer, mesmo.
A atendente voltou, vestindo agora um surrado casaco de cor creme, desligando as luzes de um lado do salão da lanchonete. Eu permanecia do lado de cá, desesperada internamente. Já até com dor de cabeça.
Devia ser onze horas da noite, mais ou menos. Se eu saísse dali, com certeza seria assaltada para levarem o pouco que tinha ou pior... Eu mal sabia onde estava também.
Depois que puxou as cortinas das janelas, a atendente caminhou até a minha mesa e sentou-se na cadeira do lado contrário. Minha impressão é que ela era um pouco estranha, sei lá. Tinha um olhar muito sério. Parecia querer me penetrar ou esbofetear a qualquer hora e, do jeito que eu estava enrolando para sair, não tinha dúvidas que talvez o faria.
— Qual é o problema? — quis saber ela, cruzando os braços. Sério, aquele olhar estava me dando calafrios.
— É que estou... estou esperando alguém... — menti.
— Garota, se este alguém quisesse vir até você, viria em um horário acessível. De preferência, um horário em que estivéssemos abertos — rebateu.
Esta situação estava ficando insana. Se eu contasse a verdade, talvez me ajudasse? Provável que me levaria a uma delegacia. Eu era uma menor, rebelde, sem um responsável presente, no fim das contas.
Bom, se fosse o caso, inventaria algo para me safar. Jogar os documentos fora, talvez. Fingir amnésia, demência... dane-se.
— Olha, na verdade, realmente não tenho pra onde ir. Aconteceram algumas coisas em casa e eu... fugi. É complicado — contei, tentando soar o mais convincente possível.
— Você mora por aqui? — perguntou. Eu engoli em seco.
— Não. Peguei um ônibus qualquer e vim parar aqui.
— Você tem algum problema mental ou algo do gênero? — questionou. Arqueei uma sobrancelha, sem entender.
Era ironia ou uma pergunta séria? Ela realmente me fitava como se eu tivesse algum tipo de demência.