Interlúdio 04

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Há duas horas eu olhava para o teto branco, jogado na cama da suíte presidential do Maylot.

Ao meu lado, embolado entre os travesseiros de pluma, havia um envelope aberto. O resultado do exame de DNA pendia para fora, quase caindo no chão.

Eu agarrei as páginas mais uma vez, como se o resultado pudesse ter mudado. Ajeitando o óculos no rosto eu li as letras verdes da última linha.

Chance de paternidade: 99.99999%.

O que eu deveria pensar, numa hora dessas?

O celular tocou e eu espalmei os lençóis para encontrá-lo, quando minha vontade era desabar pelo resto do dia. Ao ver o número do Shane eu atendi rápido, e ouvir a voz do outro lado borbulhou meu estômago.

"Hum... Doutor Goldapfel?" Gaguejou ele.

"Pode me chamar de Michel, Shane." Respondi, tentando ser a voz calma daquela conversa.

"O senhor também recebeu o resultado?"

Eu olhei para os papéis novamente, e voltei a fitar o teto.

"Sim."

"Ah, cara... os repórteres vão fazer um escândalo." Shane soltou o ar rápido, talvez fosse uma risada. "Não que eu me importe, sei lá, foda-se, né? Mas se o senhor se importar..."

"Senhor? Não sou tão velho assim, Shane. Aliás, nossa diferença de idade é assustadoramente pequena."

"Sim, a mãe me disse. Ela também tá em choque e com medo que você odeie ela."

"Eu acredito na Kandi. Se ela não me contou, é porque não sabia." Respondi. "Como você se sente?"

Shane demorou a responder. Era quase fofo. Em todos os vídeos que a Kandi mandou ele era feroz, impetuoso e extrovertido, sempre arrebentando a voz no microfone como se o mundo lhe devesse atenção. Ouví-lo tão nervoso e tímido me confortava, era bom não ser o único surtando.

"Tudo bem conversarmos pessoalmente? Estou no saguão do Maylot." Disse ele.

Essa parte me fez saltar da cama. Ele estava onde? Ali naquele prédio? O que ele queria? Aliás, era óbvio o que ele queria, mas eu só queria me esconder e beber e pensar. Não avisei ninguém sobre o resultado. O que as pessoas faziam, naquele tipo de situação?

"Desculpa, não quis te assustar. Posso voltar outro dia, ou nunca." Gaguejou ele, com a voz aguda e surtada.

Eu coloquei a mão no bolso e dele tirei um par de chaves pretas novinhas, com o logotipo da Porsche gravado a ouro. Foi uma compra bastante impulsiva, que fiz enquanto eu aguardava o resultado naquela mesma manhã. Mas pelo visto não havia sido uma compra ruim.

"Já estou descendo." Respondi.

****

Eu não sabia para onde ir, então apenas dei voltas pela cidade. Durante minhas visitas eu pouco explorava aqueles lados de Waikiki, então as praias e cassinos de luxo me impressionavam. Recém era pôr-do-sol e os letreiros neons já estavam acesos, iluminando aquela metrópole praiana em todas as cores do arco-íris.

Devia ser a primeira vez do Shane a Waikiki, porque seus olhos cor-de-mel brilhavam para a paisagem paradisíaca. A beleza natural da praia contrastava com o vidro e metal da cidade, modernos e imponentes como em todas as ilhas havaianas.

"Esse carro tem um cheiro bom." Disse ele, após um enorme silêncio.

"Ah, ele é novo. Você gosta de Porsches?" Perguntei, fazendo roncar o motor.

Ondas em Rebentação (AMOSTRA)Onde histórias criam vida. Descubra agora