Capítulo 3

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Acordei sentindo a dor nas minhas costas, só então percebi que havia dormido com os braços e a cabeça apoiados na mesa e ao me levantar senti minha nuca arder e minha cabeça latejar. Que inferno, não que a cama que eu uso seja a coisa mais confortável do mundo, mas pelo menos a dor não é tão cruel quanto essa.

Olho a pequena janela redonda ao meu lado e vejo o sol forte queimar meus olhos, hoje vai ser um daqueles dias… O calor faz com que todas fiquem mais lentas e as tarefas não são colocadas em prática devidamente. Reviro os olhos e estico os braços ouvindo as juntas estralarem, respiro fundo e limpo a garganta antes de me levantar.

- Bom dia Capitã!- ouço o cumprimento de Dinah assim que saio da minha cabine, só faço um breve aceno com a cabeça e ando atrás da cozinha, sinto ela meu encalço.- Tenho novidades.

Ela insistia em manter uma conversa, e meu estômago implorava por comida.

- O que Dinah?- pergunto sem paciência.

- A naúfraga ainda não abriu a boca, mas aprendeu a fazer "sim" ou "não" com a cabeça.- a menção da mulher fez minhas lembranças reavivarem.

- E o que? Ela mostrou o rabo de peixe?- perguntei sarcástica e desci um lance de escadas com pressa.

- Não, mas foi gentil e mais calma, só gostaria de informar que ela está dormindo.

- Então é folgada, arrange um trabalho para ela e mantenha os olhos na mulher.

- Que trabalho pode ser feito se ela usa algemas?- olhei para Dinah que nunca na vida havia insistido tanto em um assunto como o dessa mulher.

- Mande ela para o cesto, você pode vigia-la de baixo pelo convés.- dei de ombros e peguei minha comida na cozinha, Dinah fez o mesmo.

- E você acha que ela avisaria se tivesse alguma coisa?- Dinah perguntou.

- Imediata se não confia nela porque a deixou sozinha em sua cabine?- encarei os olhos de Dinah e ela sorriu.

- Como sabe que ela está sozinha?- perguntou.

- Do mesmo jeito que sei que está sem algemas, e isso foi uma ordem, então espero que cumpra no momento que a vê-la novamente.

- Tem a minha palavra Mila.- eu revirei os olhos e mordi um biscoito velho, enquanto comia eu observei a cozinha.

A cozinheira tratava de preparar uma carne de porco com alguns legumes em conserva, mas nossos estoques de alimentos e bebidas já estavam acabando.

- Esse é o último?- perguntei em voz alta me referindo ao porco.

- O último senhora, - a cozinheira respondeu cortando a carne com um facão, ela limpou o suor da testa- à partir de agora só peixe.

- Em dois dias estaremos em terra firme, junte algumas mulheres de confiança e um pouco de dinheiro para tratar da comida.- era algo necessário e eu confiava a tarefa à ela.

- Esse não é trabalho da Entendente, Capitã?- ela perguntou receosa.

- Mas eu passo esse para você.- vi seu sorriso surgir e suas bochechas redondas ficarem vermelha, ela parecia feliz.

- Capitã, se me permite perguntar eu gostaria de saber o que acontecerá com a naúfraga.- ela parou de cortar a carne para perguntar e se aproximou um pouco mais da mesa, vi seu avental sujo de sangue, o que me causou um certo enjoo enquanto eu comia um pedaço de queijo.

- Jane está cuidando dela.- foi uma simples resposta e a mulher só concordou com a cabeça e voltou ao trabalho no mesmo instante.

Observei a mulher por mais alguns instantes, fazia tanto tempo que não conversávamos que eu nem lembrava mais seu nome, a verdade é que eu não conheço metade da minha tripulação e isso é um erro da parte de uma Capitã. Eu devo confiar em todas, o navio é como a minha casa e não se convida qualquer um para a sua casa.

Levantei-me da mesa com os pensamentos rondando a minha cabeça, talvez eu deva começar a conhecer melhor a todas e não só as que convivem comigo. Agradeci à cozinheira e disse um adeus cordial que foi correspondido com um sorriso de dentes destruídos e amarelos.

Ao subir as escadas passei por algumas mulheres que arregalaram os olhos e saíram correndo ao me ver.

Andando pelo convés eu olhava para o céu sem nuvens e o sol escaldante, eu sabia o caminho para a minha cabine de olhos tampados, o céu nunca foi de um azul tão claro quanto esse.

- Ai.- saiu da minha boca ao sentir que esbarrei em alguma coisa.

- Está cega Capitã?- ouvi a risada conhecida de Dinah e a encarei querendo matá-la.

- Que merda é essa?- perguntei até ver no que, ou melhor, em quem eu havia esbarrado. A naúfraga estava ali me encarando do mesmo jeito da primeira vez, ela tinha raiva e eu revirei os olhos sem paciência. Aqueles olhos verdes ficavam marcados dentro de mim, eles teem uma força estranha.

- Eu estava ajudando a levar a novata lá para cima, mas é meio difícil já que ela está algemada.- Dinah disse mostrando as cordas e indicando o mastro com o olhar.

- Suba com ela e coloque as algemas quando ela estiver lá em cima.- disse como se não fosse algo óbvio, ouvi a morena rosnar irritada e eu a encarei novamente.- Oh! Mesmo vestida não consegue ser civilizada.- ela mordeu os lábios e pude perceber que estava trincando a mandíbula.

Sim, o ódio é recíproco.

- Desse jeitos vocês vão se matar.- Dinah diz e eu desvio o olhar.

- Faça ela trabalhar, e quando terminar sirva a comida.- digo me retirando sem olhar para trás e sem esperar por uma resposta.

Os olhos verdes continuavam pregados na minha visão, a raiva descomunal que eu senti pala mulher me alimentava, eu não entendia o por quê, mas aquilo era pessoal e ela estava no meu navio, eu vou mostrar a ela quem ela deve respeitar aqui.

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