— Anna, tem algo de errado? — perguntou Olga.
— Acho que acabei de cutucar a onça com vara curta — respondi sentando-me no banco alto em frente ao balcão da cozinha.
— Annabela, Annabela. Cuidado.
— To com fome. Teve o quê de janta? — perguntei.
— Ou janta com o senhor ou não janta — Ela parecia ocupada, concentrada preparando uma massa grossa.
— Ah, por favor, Olga. Olga do meu coração — eu respondi brincando.
Ela me encarou séria.
— Eu vou acabar me dando muito mal em te acobertar, minha criança — ela disse abrindo vagamente um sorriso. — Suba que daqui a pouco estarei lá.
— Sabe que se você não estivesse aqui, eu não sobreviveria não é? — disse sorrindo para ela.
— E como sei — ela disse soltando uma risada gostosa.
Nesse mesmo instante, vi alguns homens uniformizados em preto e branco entrando com um lustre gigantesco pela porta da cozinha. Ele parecia ser feito com os mais refinados cristais.
— Olga, para quê tudo isso?
— É para o aniversário de 23 anos do senhor.
— Nossa, só 23? E quando vai ser?
— Na próxima terça.
— Vai ser aqueles bailes chiques que a gente vê nos filmes. E é muito importante porque todos do convívio do senhor estarão presentes.
— Inclusive a mãe dele? E aquele irmão que se atirou para cima de mim?
— Isso mesmo — ela confirmou. — Anna, já deu sua hora. Xô, xô — ela berrou fazendo gestos com as mãos para que eu saísse da cozinha.
— Ai, me enxotando — reclamei. — Ta bom. To indo. Beijo. Boa noite, pessoal — disse para os funcionários que entravam e saíam da cozinha.
— Boa noite, Bela — eles responderam em uníssono.
Eu caminhei vagarosamente para o meu quarto, observando atentamente aos detalhes.
No salão, os funcionários já trocavam o lustre antigo pelo novo que vi na cozinha. Acenei para alguns deles que estavam auxiliando na troca. Ao subir a grande escadaria do salão, percebi pela primeira vez o corrimão tão bem moldado em uma madeira que parecia ao mesmo tempo velha pra caramba tanto quanto parecia que tinha acabado de sair de alguma loja de artigos bem caros. O famoso vintage.
Entrei no meu quarto, sentei no banco colado a parede da janela e desejei ter uma sacada. Talvez isso me ajudasse com essa questão de liberdade que tanto me afligia naquele quarto.
Do outro lado do vidro um tantinho embaçado da minha janela - cor de rosa também, argh -, Gilbert e outros funcionários de terno e gravata, provavelmente seguranças de Adam, conversavam como se fosse algum segredo muito importante.
Agora os seguranças rodeavam Gilbert, gesticulando agressivamente. Será que foi algo que Gilbert falou que eles não curtiram?
Enfim... Melhor não me meter nisso. Gilbert parece atrair problemas e eu já tava cheia deles.
Dois toques rápidos na porta me fizeram saltar.
Olga foi rápida dessa vez — pensei.
— Pode entrar — eu berrei apressadamente.
— Trouxe seu jantar, Anna. O que você tanto olha aí? — Olga diz se aproximando de mim.
— A vista daqui. É tão bonita, não é?
— É sim — afirmou. — Boa noite — ela disse beijando o topo da minha cabeça.
— Boa noite, Olga — eu disse mandando beijinhos pelo ar em retribuição.
Eu sei o que é ter uma mãe, e sei como é não ter mãe. E eu sei também como faz diferença entre ter e não ter.
Olga me lembrou minha mãe, e ela, por enquanto, é o que eu tenho que mais se aproxima de um amor materno. Por mais que eu não seja correspondida, e que nem conheça tanto Olga assim. Mas estar perto dela me trazia certo conforto de lar e isso me ajudaria a não pirar com a ideia de me sentir tão sozinha sempre.
Nos dias seguintes, a mansão parecia ter ganhado vida com toda uma decoração se instalando junto e muitas pessoas apressadas pela mansão.
A última vez que vi Adam foi antes de ontem, quando eu o chamei de babaca mais, Olga me disse pela manhã que ele tinha ido resolver alguns problemas em sua empresa. Que para mim, parecia mais uma empresa fantasma. Porque eu não sabia o nome, nem do que se tratavam os negócios dele.
A real é que eu nem sabia que ele tinha uma empresa.
Olga me revelou que ele herdou a maior parte das ações de seu pai antes de falecer. Como se isso respondesse todas as minhas perguntas.
Bom, eu não me considero uma pessoa curiosa sempre. Para ser sincera, sou bem o oposto de curiosa na maioria das vezes. E eu estava começando a suspeitar que essa característica minha estivesse começando a se esvair. Porque milhares de perguntas se instalaram na minha mente como um chiclete grudento e derretido em tapete de carpete.
Porque meu pai me apostou?
Porque Adam apostou com meu pai? Se ele já é podre de rico?
Porque Adam parece tão arrogantemente estúpido às vezes e em outras vezes tão amável?
Porque a "mãe" e "irmãos" de Adam não moram junto com ele?
O que aconteceu com a irmã de Adam para fazê-lo mudar tanto?
Estava deitada na cama olhando para teto do quarto há umas duas horas, eu estava quase vegetando ali. Resolvi tomar um banho e quando entro adentro no banheiro, me deparei com um ser ruivo de roupão e pantufas negras.
— Foi mal — berrei, batendo a porta no susto.
— Calma... Eu to passando pra te avisar para trancar a porta do outro lado quando for usar esse banheiro — a voz de Adam soa abafada do outro lado da porta. — Pode entrar, vou sair — ele avisou.
— Acho que isso não vai dar certo — eu disse, me sentindo muito constrangida.
— É só não roubar mais minhas sandálias — ele solta uma tremenda gargalhada, fazendo eco no banheiro. — Tranca assim que eu sair — ele disse. — Boa noite, Bela.
— Boa noite, Adam.
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Recadinho:
*Oi, gente! E então, o que acham? Qual será o rumo desta história?? Me contem suas teorias aí, prometo responder todas.* (Ainda estamos em revisão)
Caso tenha gostado, não esqueça de votar nos capítulos. Bjs 😘😘💕🌹
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Eu e a Fera
Ficção GeralAposta ou venda? A verdade é que nem ela mesma sabe. Sabe somente que sua vida pertence á Adam Hayes. 🌹 Annabela, uma jovem de apenas 17 anos acabou indo parar na mansão da Família Hayes. Sem entender quase nada de sua situação, Adam, seu novo tuto...
