Capítulo especial.
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(Ponto de vista de Valentina)
Deveríamos agradecer sempre pelas pequenas coisas. Pela comida que comemos, pelo líquido que ingerimos, pelos abraços recebidos, beijos dados, presentes inesperados, companhias positivas, olhares trocados, livros que emocionam, filmes que nos fazem refletir, pelo verde lá fora, pelo azul lá em cima, enfim, por todas as coisas que julgamos muitas vezes banais, como talvez o simples fato de despertar. Sabe quando você tira aquele cochilo de tarde depois de uma refeição deliciosa e acorda com uma chuvinha lá fora, quase que te embalando de novo pro sono e essa sensação faz você ficar leve, abrir um sorriso porque você se sente vivo? Eu queria sentir isso novamente e não mais apenas ouvir o que era dito e permanecer imóvel, passiva.
Tudo o que aconteceu naquele hospital eu estive presente, mesmo que apenas como espectadora da minha própria realidade. E foi isso que eu fui. Apenas um objeto inanimado esperando para que o fim da cena aterrorizante que acontecia chegasse ao fim. E de certa forma chegou, mas não como era esperado. O que era aguardado era aquele fim de ato dramático em que seria tudo ou nada. Quase uma novela mexicana de tão a flor da pele todos se encontravam.
O que os outros atores que contracenavam comigo naquela cena não sabiam era que eu podia ouvi-los, quase senti-los, porém meus olhos não se abriam, por mais força que eu fizesse. Ouvi tudo que foi falado. Desde o momento em que a mulher da minha vida soube da minha piora, passando pela negociata de seu sangue especial, incrivelmente compatível com o meu, até o momento em que seu corpo se rendeu e parecia ter descansado. As palavras do homem que estava a frente daquele procedimento nunca mais sairão da minha mente: "Não podemos desistir. Temos que salva-las. Ou pelo menos, uma delas."
Após aquela sentença dita com tal dramaticidade, tudo ficou em silêncio. Do lado de fora, é claro, pois dentro de mim era gritado em alto e bom som que se fosse para salvar alguém, que esse alguém fosse a minha morena, de sorriso largo e coração enorme. Eu sempre fui uma pedra no caminho de quem o cruzasse, já ela não. Ela tinha a magia dentro dela, ela acalmava, ela fazia tudo brilhar mais forte. Ninguém poderia ter dúvidas de quem tinha que sobreviver. Mas o silêncio permanecia me fazendo urrar dentro da minha mente que se ela não estivesse mais entre os meros mortais, eu não poderia mais sobreviver.
Então permanecia assim, aguardando. O fim ou o recomeço. Eu ainda não sabia qual deles se apresentaria para mim, mas acredito que se não a tivesse ao meu lado, seria de fato o fim. Não há recomeço para quem não tem mais um porque de estar vivo. Ela era a razão pela qual eu segui em frente em todos os momentos difíceis da minha vida. Me recordo de um dos nossos primeiros instantes juntas, quando no colégio ela foi cercada pelo grupo daquele idiota do Lucho e acabou se machucando. A vi tão indefesa, tão pura. Apenas queria protege-la. Eu já tinha uma razão para ficar de olho nela, pois segundo meu pai, ela era especial e essencial para o projeto dele, mas eu não poderia assusta-la. Tinha que ganhar sua confiança e atraí-la até o centro de pesquisa. Mas depois daquela troca de olhares onde nosso mundo se encaixou e de ve-la daquela forma, tão pequena, tão amável, tão única, eu tive noção que a minha missão era muito maior que apenas seguir o comando dado por meu digníssimo e falecido pai. Eu a protegeria de tudo e de todos. Dos idiotas como o Lucho, dos perigosos como meu pai e principalmente, de mim. Eu a guardaria com a minha vida. Mas no atual momento, eu sentia que poderia ter sido exatamente o oposto. Ela me guardaria com a dela.
Não fazia ideia de tempo, há quantos dias eu permanecia daquela forma, quais seriam as consequências para o meu corpo, para a minha mente, daqueles dias praticamente em coma e depois de passar por um procedimento tão fora do padrão, onde meu sangue, doente e contaminado, foi substituído pelo de Juliana. Mas nada disso era tão incomodo quanto o que sentia naquele segundo em que questionava minha existência: uma coceira. Sim, uma maldita coceira na minha canela. Tudo o que eu queria era conseguir mexer meu braço, meu tronco e alcançar aquele horrível incômodo e dar um fim dele. E com esse pensamento e essa sensação desagradável, eu despertei. Assim, como se não fosse uma tarefa que há dias eu tentava finalizar. Em um ato que poderia ser cômico, se não existisse a possibilidade da minha namorada não estar mais viva.
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O que ficou pra trás
FanfictionSabe quando a gente acha que tá pronto pra seguir em frente? Que o que passou ficou no passado e não nos afeta mais? Que quem um dia foi importante, hoje é apenas a sombra de uma antiga realidade? Então, esquece. Quando o tempo não importa, passado...