Capítulo 3

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Desde a festa, eu e Hugo não tínhamos ficado de novo. Ele não ficava mais em casa. A Bia passou a maior parte do tempo com o Eduardo, e quando eles fizeram um mês de namoro ele deu um anel pra ela até comprar a aliança. Eu fiquei arrumando as minhas malas. Tirei tudo do guarda-roupa da Bia e coloquei em caixas e malas. Três caixas e duas malas foram suficientes para comportar todas as minhas coisas. Meus pais voltariam para passar o Natal aqui, e depois iríamos embora de vez.

Mesmo que Hugo e eu não estivéssemos conversando, eu não podia deixar de comprar um presente de aniversário e Natal pra ele. Já que as datas eram tão próximas, eu sempre dava um presente só. E eu queria dar algo que ele nunca se esquecesse de quem deu.

Na véspera do natal, todos nós passamos o dia inteiro em casa ajudando a preparar a ceia, colocando os últimos enfeites e deixando os presentes embaixo da árvore. Até o Hugo que não parava mais em casa, ficou o dia todo com a gente e só aí reparei o quanto ele estava diferente. Parecia estar mais frio, não era o mesmo de sempre.

-Miranda, seus pais chegaram.

Desci as escadas correndo para abraçá-los. Estava morrendo de saudade.

-Tudo bem filhota?

-Porque não avisaram que já estavam aqui?

-Não adiantaria muito meu amor.

-Claro que adiantaria mãe. Eu não ficaria preocupada pelo voo de vocês estar atrasado em plena véspera de natal.

Meu pai observou o relógio e o mostrou a minha mãe.

-Ainda são seis da tarde Miranda.

-Deixe de ser dramática.

-Não me preocupo mais.

-Onde estão Débora, Fred e Bia?

-Estamos na cozinha.

-Entrem.

-Preciso de uma mãozinha com o assado Lara.

-O dever me chama.

Minha mãe foi para a cozinha ajudar e eu fiquei abraçada ao meu pai.

-Três pares de mãos não são suficientes?

-Você sabe que a sua mãe é a melhor com os temperos.

-Eu sei.

-Vamos lá, ajudar.

-Eu já fiz a minha parte. E a cozinha já está lotada.

-Tudo bem.

-Miranda, preciso de um favor.

-Pode falar tio Fred.

-Você pode ir com o Hugo até o supermercado? Esquecemos de comprar as passas, a maionese, os refrigerantes e gelo.

-Ok.

-Vamos?

Fomos no carro do pai dele. Ele não tinha carteira ainda, mas como o supermercado era no bairro mesmo, o pai dele não se importava que ele usasse. O silêncio era meio constrangedor, mas eu não podia ficar pensando nesse assunto. Fizemos as compras bem rápido. Quase não encontramos o gelo e as passas.

-Desculpa ter me afastado de você.

Eu me surpreendi e olhei para ele.

-Eu fiquei pensando que você realmente vai ter muitos outros caras se jogando em você lá em São Paulo, e não quero ser feito de bobo. E também não quero que você deixe de viver novas experiências por minha causa.

-Você não me impediria Hugo. Pode ficar tranquilo.

-Certo.

Chegamos em casa e levamos tudo pra cozinha. Só faltavam as coisas que fomos comprar pra tudo ficar pronto. Jantamos as oito e meia e meus pais ficaram falando do projeto deles. Meu pai era engenheiro e minha mãe designer, e eles estavam trabalhando na construção de um hotel ou algo do tipo.

Nós não tínhamos tradições natalinas, e por isso não fizemos nada do jeito que as outras famílias fazem. Ouvimos música enquanto comíamos todas as delícias que tia Débora, tio Fred, Bia, mamãe e papai fizeram. Eles arrasaram na cozinha.

Meus pais estavam cansados da viagem, e como sabiam que no dia seguinte iríamos pra São Paulo, logo depois do almoço, foram dormir consideravelmente cedo para a noite de natal. A Bia tinha ido passar o resto da noite com o Eduardo e a família dele, e não muito tempo depois, os pais do Hugo foram dormir também. Hugo subiu para o quarto e eu fiquei assistindo TV por um tempo, mas lembrei que tinha um presente pra entregar.

Abri a porta e ele estava sentado na cabeceira da cama, perto da janela.

-Posso entrar?

-Entra.

Ele me olhou meio triste.

-Oficialmente já é madrugada de Natal, então, vim entregar o seu presente.

-Também tenho um presente pra você.

-Eu disse primeiro. Feliz aniversário.

-Plataforma nove três quartos.

-Eu sei que você adora Harry Potter. Achei que iria gostar dessa correntinha.

-Obrigado Miranda. Eu meio que pensei como você.

-Uma correntinha com o chapéu do chapeleiro?

-Eu sei que ele é o seu personagem preferido.

-Eu amei Hugo.

Ele colocou o presente que eu o dei, e pegou o meu para por no meu pescoço. Senti seu toque e fiquei arrepiada. Fiquei de frente pra ele.

-Eu não quero que você me esqueça.

-Nem eu. Mas não é justo te dar falsas esperanças. Eu não sei o que vai acontecer em São Paulo. Nem sei o que vai acontecer aqui. Você vai estar no terceiro ano, e nem sabemos se eu volto em um ano mesmo.

-Eu sei.

Ele virou as costas pra mim, e senti sua respiração mais pesada. Me aproximei e toquei o seu ombro.

-Vamos continuar sendo amigos não é?

-Claro que sim.

-Vou sentir sua falta Miranda.

-Eu também.

Ficamos nos olhando por uns segundos, e não teve como evitar beijar aquela boca linda. O beijo começou devagar, e foi ficando mais urgente, com mais vontade. Ele me deitou na cama, e nos beijamos ainda mais.

-O que acha de uma despedida?

-Já estamos fazendo isso. Não?

-Quero te dar outro presente Hugo.

-Do que você está falando?

-De mim. Pra você nunca esquecer.

-Eu não te esqueceria nem se eu quisesse. Não precisa fazer isso.

-Isso também é por mim. Pra você ser sempre o primeiro e o que eu sempre vou levar comigo.

-Miranda...

-Você não quer?

-Claro que eu quero. Ter você seria loucura, mas seria uma loucura maravilhosa.

-Você está falando igualzinho ao chapeleiro.

Eu o beijei ainda mais. Tirei suas roupas enquanto ele tirava as minhas. E eu tenho certeza que nunca vou esquecer aquela madrugada, quando um pingente de chapéu dez sextos tocou um pingente da plataforma nove três quartos. Hugo foi o meu primeiro, assim como eu fui a primeira dele.

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