Desde a festa, eu e Hugo não tínhamos ficado de novo. Ele não ficava mais em casa. A Bia passou a maior parte do tempo com o Eduardo, e quando eles fizeram um mês de namoro ele deu um anel pra ela até comprar a aliança. Eu fiquei arrumando as minhas malas. Tirei tudo do guarda-roupa da Bia e coloquei em caixas e malas. Três caixas e duas malas foram suficientes para comportar todas as minhas coisas. Meus pais voltariam para passar o Natal aqui, e depois iríamos embora de vez.
Mesmo que Hugo e eu não estivéssemos conversando, eu não podia deixar de comprar um presente de aniversário e Natal pra ele. Já que as datas eram tão próximas, eu sempre dava um presente só. E eu queria dar algo que ele nunca se esquecesse de quem deu.
Na véspera do natal, todos nós passamos o dia inteiro em casa ajudando a preparar a ceia, colocando os últimos enfeites e deixando os presentes embaixo da árvore. Até o Hugo que não parava mais em casa, ficou o dia todo com a gente e só aí reparei o quanto ele estava diferente. Parecia estar mais frio, não era o mesmo de sempre.
-Miranda, seus pais chegaram.
Desci as escadas correndo para abraçá-los. Estava morrendo de saudade.
-Tudo bem filhota?
-Porque não avisaram que já estavam aqui?
-Não adiantaria muito meu amor.
-Claro que adiantaria mãe. Eu não ficaria preocupada pelo voo de vocês estar atrasado em plena véspera de natal.
Meu pai observou o relógio e o mostrou a minha mãe.
-Ainda são seis da tarde Miranda.
-Deixe de ser dramática.
-Não me preocupo mais.
-Onde estão Débora, Fred e Bia?
-Estamos na cozinha.
-Entrem.
-Preciso de uma mãozinha com o assado Lara.
-O dever me chama.
Minha mãe foi para a cozinha ajudar e eu fiquei abraçada ao meu pai.
-Três pares de mãos não são suficientes?
-Você sabe que a sua mãe é a melhor com os temperos.
-Eu sei.
-Vamos lá, ajudar.
-Eu já fiz a minha parte. E a cozinha já está lotada.
-Tudo bem.
-Miranda, preciso de um favor.
-Pode falar tio Fred.
-Você pode ir com o Hugo até o supermercado? Esquecemos de comprar as passas, a maionese, os refrigerantes e gelo.
-Ok.
-Vamos?
Fomos no carro do pai dele. Ele não tinha carteira ainda, mas como o supermercado era no bairro mesmo, o pai dele não se importava que ele usasse. O silêncio era meio constrangedor, mas eu não podia ficar pensando nesse assunto. Fizemos as compras bem rápido. Quase não encontramos o gelo e as passas.
-Desculpa ter me afastado de você.
Eu me surpreendi e olhei para ele.
-Eu fiquei pensando que você realmente vai ter muitos outros caras se jogando em você lá em São Paulo, e não quero ser feito de bobo. E também não quero que você deixe de viver novas experiências por minha causa.
-Você não me impediria Hugo. Pode ficar tranquilo.
-Certo.
Chegamos em casa e levamos tudo pra cozinha. Só faltavam as coisas que fomos comprar pra tudo ficar pronto. Jantamos as oito e meia e meus pais ficaram falando do projeto deles. Meu pai era engenheiro e minha mãe designer, e eles estavam trabalhando na construção de um hotel ou algo do tipo.
Nós não tínhamos tradições natalinas, e por isso não fizemos nada do jeito que as outras famílias fazem. Ouvimos música enquanto comíamos todas as delícias que tia Débora, tio Fred, Bia, mamãe e papai fizeram. Eles arrasaram na cozinha.
Meus pais estavam cansados da viagem, e como sabiam que no dia seguinte iríamos pra São Paulo, logo depois do almoço, foram dormir consideravelmente cedo para a noite de natal. A Bia tinha ido passar o resto da noite com o Eduardo e a família dele, e não muito tempo depois, os pais do Hugo foram dormir também. Hugo subiu para o quarto e eu fiquei assistindo TV por um tempo, mas lembrei que tinha um presente pra entregar.
Abri a porta e ele estava sentado na cabeceira da cama, perto da janela.
-Posso entrar?
-Entra.
Ele me olhou meio triste.
-Oficialmente já é madrugada de Natal, então, vim entregar o seu presente.
-Também tenho um presente pra você.
-Eu disse primeiro. Feliz aniversário.
-Plataforma nove três quartos.
-Eu sei que você adora Harry Potter. Achei que iria gostar dessa correntinha.
-Obrigado Miranda. Eu meio que pensei como você.
-Uma correntinha com o chapéu do chapeleiro?
-Eu sei que ele é o seu personagem preferido.
-Eu amei Hugo.
Ele colocou o presente que eu o dei, e pegou o meu para por no meu pescoço. Senti seu toque e fiquei arrepiada. Fiquei de frente pra ele.
-Eu não quero que você me esqueça.
-Nem eu. Mas não é justo te dar falsas esperanças. Eu não sei o que vai acontecer em São Paulo. Nem sei o que vai acontecer aqui. Você vai estar no terceiro ano, e nem sabemos se eu volto em um ano mesmo.
-Eu sei.
Ele virou as costas pra mim, e senti sua respiração mais pesada. Me aproximei e toquei o seu ombro.
-Vamos continuar sendo amigos não é?
-Claro que sim.
-Vou sentir sua falta Miranda.
-Eu também.
Ficamos nos olhando por uns segundos, e não teve como evitar beijar aquela boca linda. O beijo começou devagar, e foi ficando mais urgente, com mais vontade. Ele me deitou na cama, e nos beijamos ainda mais.
-O que acha de uma despedida?
-Já estamos fazendo isso. Não?
-Quero te dar outro presente Hugo.
-Do que você está falando?
-De mim. Pra você nunca esquecer.
-Eu não te esqueceria nem se eu quisesse. Não precisa fazer isso.
-Isso também é por mim. Pra você ser sempre o primeiro e o que eu sempre vou levar comigo.
-Miranda...
-Você não quer?
-Claro que eu quero. Ter você seria loucura, mas seria uma loucura maravilhosa.
-Você está falando igualzinho ao chapeleiro.
Eu o beijei ainda mais. Tirei suas roupas enquanto ele tirava as minhas. E eu tenho certeza que nunca vou esquecer aquela madrugada, quando um pingente de chapéu dez sextos tocou um pingente da plataforma nove três quartos. Hugo foi o meu primeiro, assim como eu fui a primeira dele.
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A vilã
Teen FictionToda história tem uma vilã. Certo? As vilãs também têm uma história por trás delas. Talvez não sejam vilãs porque querem, mas porque as pessoas as vejam assim. Sinto muito em dizer, mas essa não é a história de uma mocinha. Pelo menos não é o que a...
