Noite sem estrelas

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-3060:

A vida nas ruas não era nada fácil. Touya já entendia isso melhor do que qualquer um. Sem qualquer garantia de repouso, banho ou mesmo de uma refeição quente e água potável, o menino apenas existia com os despojos duramente conquistados nas filas de abrigos ou em seus insignificantes ganhos por tarefas pouco dignas.

Não havia uma casa confortável, sem problemas de umidade. Não havia um banho quente ou uma refeição esperando para ser requentada a sua conveniência. Ao contrário disso, foram meses antes mesmo de que Touya tivesse algo que pudesse, remotamente, chamar de teto sobre sua cabeça.

O pouco dinheiro que conseguira arrancar de seu pai antes de sumir (não era como se ele tivesse conseguido saber que precisaria fugir com o rabo entre as pernas, afinal) estava fortemente abrigado em um local que Touya mesmo recusava-se a pensar a fim de mantê-lo para verdadeiras emergências. Quanto menos se lembrasse daquele valor em especifico, mais fácil seria resistir à tentação de recorrer a ele.

Então, mesmo que sua cabeça doesse na maioria dos dias, mesmo que seu estômago clamasse por comida de verdade ao invés do lixo que recebia como parte de seu pagamento no turno noturno da lanchonete, mesmo que suas roupas tivessem mais remendos do que tecido, Touya poderia dizer, orgulhosamente, que ele tinha algo. Que qualquer necessidade súbita de dinheiro era mais um incomodo do que uma situação irremediável. Ele até mesmo conseguia salvar alguns trocados às vezes!

Isso ajudava, em partes ao menos, consolá-lo com a potencial decisão que Touya havia tomado.

Lembrando-se da expressão chorosa de sua irmã, menos de uma semana atrás, Touya não suspirou enquanto deslocava as podres tábuas do assoalho de sua 'casa' e abria a pequena bolsa escura que continha aqueles sacrifícios trocados. Ele não se incomodou nem mesmo com tomar cuidado, visto que qualquer chance de permanecer naquele barraco tinha sido extinta junto com qualquer pé de meia.

Sua ridícula renda não seria mais suficiente.


*****


Pessoas que afirmam sobre idiotice, dificilmente entendem o desespero. Era nisso que Touya acreditava, pelo menos, enquanto passava os próximos dias num vórtice de trabalhos escusos e turnos desumanos. O adiantado novo contrato de aluguel, bem como seus documentos falsos, consumiram boa parte de suas escassas economias e, torcendo para não adoecer num futuro previsível, Touya configurou da melhor maneira possível a pequena kitnet.

Não havia muito além de uma cozinha caindo aos pedaços, uma cama lotada de cupins, um colchão empedrado e uma vizinhança questionável. A pouca louça que ele recolhera mais parecia saída do lixo de alguém (o que não deixava de ser verdade, mas mesmo assim...), os tecidos que adornavam o espaço eram tão puídos quanto suas vestes e a geladeira rugia estranhamente. Mas era um teto, ao menos, água correndo pelas torneiras, banhos razoavelmente quentes durante o inverno e uma tranca em sua porta.

Não era o melhor lugar para manter uma criança escondida, mas era o que ele tinha, mesmo assim.

Touya já conhecia o mundo suficientemente bem para não reclamar.


*****


-3053:

São nove horas da noite quando Fuyumi se esgueira até a pequena portinhola que conecta a mansão com o caminho de emergência e a destranca, permitindo que Touya entre sem alarde no inferno em terra que é a sua antiga casa.

A crueldade em meu mundo (o amor sob suas pálpebras).Onde histórias criam vida. Descubra agora