Raiva é um sentimento instigante quando se está sufocando entre as dúvidas, a culpa e as lágrimas. Toda avalanche de sentimentos não cessará. Não há ninguém aqui para me envolver em seus braços quentes, passar a mão na minha cabeça e dizer que vai ficar tudo bem. Ninguém está vindo. Estou sozinha. Não posso olhar para as minhas mãos que fico com vontade de vomitar. Sinto que não me pertencem mais, e sim a uma assassina.
Como eu quero mentir para mim e imaginar que Feal esteja sendo um ajudante levemente irônico e irritando Alby, o seu mestre. Não consigo. Eu vi seus olhos abertos sobre a poça escura de sangue. Não olhava para mim, mas me pergunto se ele me viu antes...
Não importa o quão firme a falcata esteve uma vez na minha mão, eu não estava preparada para matar.
Em troca da vida de Brizo, eu perdi um amigo e a minha oficialização como ferreira. Condenados jamais se promovem. Não vamos dar um passo além da miséria, seremos enterrados nela pouco a pouco.
Tenho uma vontade incontrolável de bater a cabeça na parede, até que a dor passe ou que algo aconteça. Quero chutar, morder, gritar. Mesmo minhas mãos presas nas costas, sinto o osso de minha mão latejar, e ainda assim não sou contida de expressar a ebulição de raiva.
Acertar aquele druida no Beltane acabou com qualquer chance que eu tivesse de superar tamanho infortúnio. Eu não posso mais forjar, e o osso quebrado da mão não está devidamente imobilizado. Como dói. Dói tanto que parece piorar a cada sopro da corrente de vento que o toca.
— Aisling? — Viro-me agressivamente e me deparo com Brizo, do outro lado das grades de ferro que me aprisionam. Meu irmão está sem palavras, talvez até com medo. É estranho a forma como ele hesita para falar comigo, pois não sabe se me encara ou ao chão. — Eu queria tomar uma atitude por nós... Fazer algo de bom para o pai.
— Olhe o que você fez — disparo, sem o menor escrúpulo. Dou passos pesados e as grades me impedem de arrancar o couro dele, o que faz Brizo dar um pulo para trás. — Olhe o que você fez comigo! Com a gente! Nós estamos mortos por sua causa. — Ouço a minha voz envolvendo o corredor estreito. — Você está livre, e sabe quem foi que pagou? Cinco dias de trabalho meus no Beltane. Sabe quem pagou por sua vida? Sabe quem foi a pessoa que eu tive que matar para te salvar? Sabe o que vai acontecer comigo agora por sua causa?
E o último grito permanece ecoando pela eternidade. É tão cortante quanto o que o destino nos reserva.
— Meu bem... — Ah sim, o papai também está aqui vendo a sua filha digladiar o caçula. — Ele teve a melhor das intenções e...
— Eu tenho a melhor das intenções todo dia quando levanto antes do sol para ir trabalhar — interrompo. — Não me venha falar sobre isso. O que vocês estão fazendo aqui? Vão aproveitar a liberdade de Brizo, foram só quinhentas monas para pagar a fiança de desistência.
O silêncio é um cobertor pesado sobre a nossa discussão. Nenhum dos dois pronuncia mais uma palavra e eu evito encarar Brizo o máximo que posso, antes que o meu coração despedace de vez. Meu irmão é mais sensível do que costuma parecer. Ele é o mais carente da casa, afinal, mamãe foi embora na época em que Brizo mais estava apegado. Eu odeio a saudade, mas o que meu irmão deve sentir por ela é incompreensível, de tão amargurado.
— Eu vou te tirar daí — anuncia Brizo, já de costas para mim. Está arrasado, sei disso só pelo seu tom de voz alterado. Ele sequer espera o nosso pai para o acompanhar, segue até o fim do corredor e bate a porta.
O toque quente de papai sobre o meu ombro não me surte o efeito que eu gostaria. Não me acalma, não me aconchega e é vazio. Sequer há esperança nos seus olhos enrugados, é impossível ele me transmitir algo que deixou de sentir.
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A Forjadora do Desastre
Romance✨Eleita uma das melhores histórias de 2021 pelos embaixadores do Wattpad e finalista no Wattys 2021!✨ Por amor, ela quebrará as regras. Aisling tinha apenas oito anos quando sua mãe foi peregrinar. Quinze quando seu pai entrou num perigoso jogo de t...
