CAPITULO 30

52 3 0
                                        

— Como você pode fazer uma coisa dessas com a Bia? Você é uma louca! Eu te odeio, Marta! O grito de Camila foi carregado de uma dor indescritível, o tom tremendo de raiva.

— Menininha insolente! Igual a sua mãe. Aquela empregadinha maldita. A culpa é toda sua! Se seu pai não insistisse nessa besteira de filhos, nem você nem essa outra estariam aqui. E nós dois seríamos felizes. Marta disparava palavras venenosas, e de repente, um tapa cruel acertou o rosto de Camila. Quando a mão de Marta se ergueu para dar outro, Luan a segurou firmemente.

— É PORRA NENHUMA! Camila explodiu. Você não é nada! Agora que sei de tudo, dou graças a Deus por não carregar seu sangue sujo, sua maldita! Sempre te odiei, Marta. Sempre! Eu nunca entendi como uma filha poderia odiar a própria mãe. Me sentia suja, indigna. Mas agora eu entendo. Agora eu sei o porquê eu te odeio! Ela falava com a raiva e a dor de quem carrega um peso insuportável. Eu te odeio por tudo o que fez comigo quando eu era só uma criança e ninguém soube até hoje. Você me humilhava, me tratava como escrava. Queimava minhas mãos com as colheres, me fazia limpar seus sapatos e, quando eu não fazia do seu jeito, você me batia com eles. Você me obrigava a ajoelhar no milho e ficar horas olhando para a parede. Eu era só uma criança.

O choro de Camila tomava conta, o peso das palavras carregando toda a dor acumulada ao longo dos anos.

À medida que fui crescendo, você ficou mais cruel. Quando eu queimei sua blusa sem querer, você me queimou com o ferro. Eu só tinha dez anos... dez anos! Ela se engasgou com as palavras. Você me forçava a fazer comidas sem receita e depois me obrigava a comer. Você me fez engolir meu próprio vômito! Você foi cruel! O peso das palavras parecia um fardo que ela não conseguia mais carregar. Eu entrei em anorexia por sua culpa! Eu não queria mais comer, eu tinha nojo, e quando comia, vomitava, porque, por mais que a comida fosse boa, o meu psicológico me dizia que aquilo me fazia mal.

Ela pausou, as palavras soando como um grito mudo, uma dor que não se apaga. Luan olhou para ela com uma mistura de compaixão e tristeza, mas ela não queria que ele a visse como uma vítima.

Eu fui internada em uma clínica aos quatorze anos, por sua culpa. E aos dezesseis, depois de sair da clínica, você me levou a um lugar onde fui forçada a passar por experiências terríveis. Você me drogou e me deixou ali, onde fui abusada. Camila chorava, mas as palavras ainda saíam com a mesma intensidade. Eu não te perdoaria se tivesse feito a mesma coisa com a Bia.

Ela olhou para Marta com desprezo e um sentimento profundo de repulsa. Eu espero que algum dia você sinta, de alguma forma, a dor que eu senti durante todos esses anos. Você destruiu minha vida, me fez ser alguém que nem eu mesma reconheço. Ela se virou para Luan, e ele a abraçou, tentando oferecer um mínimo de conforto. Eu estou bem, obrigada. Ela se afastou dele, com uma expressão que misturava força e vulnerabilidade. Porque eu não sou uma pobre coitada, eu sou muito mais do que isso.

— Peixoto, pode abrir o testamento. Camila disse, com um tom de voz mais calmo, mas ainda com a tensão de quem enfrentou uma batalha interna.

— Esse testamento tem valor legal, reconhecido por lei e registrado em cartório, não podendo ser contestado em hipótese alguma, sem direito a recorrência em nenhuma instância. Visto que foi assinado e lavrado no Superior Tribunal Federal, o famoso STF. Peixoto, o advogado da família, começou a ler o testamento com um tom formal, enquanto todos aguardavam, em silêncio, as palavras seguintes.

"Perante o amparo da lei e após a análise das evidências apresentadas, ficou comprovado o adultério de Marta Rodrigues, esposa de Carlos Vasconcelos Bittencourt, que manteve um relacionamento extraconjugal estável com Juan Ramirez Ferrara durante o período de seu matrimônio. Adicionalmente, foi demonstrado que Marta Rodrigues gerou uma filha, Ana Beatriz Sampaio, cujo teste de DNA comprovou uma incompatibilidade de 99,99% entre Carlos Bittencourt e a criança, negando, assim, a paternidade.

ABISMOOnde histórias criam vida. Descubra agora