Marizete entrou no quarto, segurando uma tigela fumegante nas mãos. Seu olhar carregava preocupação e afeto.
— Licença, minha querida. Posso entrar? Trouxe uma canja para você se alimentar.
Camila ergueu o olhar lentamente. Seus olhos estavam inchados, vermelhos, pesados. Havia um cansaço devastador ali, não apenas físico, mas emocional. Respirou fundo antes de falar, a voz baixa, trêmula, carregada de dor.
— Eu... eu preciso contar tudo. Eu preciso que vocês me ouçam.
Marizete se aproximou, sentando-se ao lado dela. Com delicadeza, envolveu as mãos frias de Camila entre as suas.
— Estou aqui, filha. Fala comigo.
Camila sentiu um nó apertar sua garganta. Seu peito subia e descia descompassado. Sentia-se fraca, exposta, despida de qualquer armadura que pudesse protegê-la. Mas precisava falar. Precisava colocar para fora tudo o que a consumia.
— Eu estava tão perdida, Mari... Quando descobri que estava grávida, entrei em pânico. Tive medo do Luan tirar o Benjamin de mim. Acreditei que fugir era a melhor opção.
Ela fez uma pausa, sentindo as lágrimas quentes escorrerem por seu rosto.
— Eu quase perdi o Benja... Sofri uma queda no final da gravidez. Passei dezoito horas esperando por socorro. Tive hemorragia, fraturei o baço. Ele nasceu tão frágil, Mari. Tão pequenininho... e eu... — um soluço escapou de seus lábios, quase sufocando suas palavras — eu entrei em coma.
Marizete apertou suas mãos, chocada.
— Meu Deus...
— Mas quando acordei, eu achei que tudo ficaria bem. Eu tentei me convencer de que estava segura. Stacy sempre me aconselhou a procurar o Luan, contar sobre o Benjamin. Mas eu sentia tanto medo.
Ela fechou os olhos, lembrando-se de todas as noites em claro, de todas as vezes que ensaiou dizer a verdade e falhou.
— E então... Nicholas apareceu. Ele me fez acreditar que eu não precisava revelar nada para ninguém. Que o melhor era todos acharem que ele era o pai do Benjamin, e que assim... tudo ficaria mais fácil.
Camila riu de maneira amarga, balançando a cabeça.
— No começo, ele parecia um homem bom. Alguém que realmente se preocupava comigo, com o meu filho. Mas depois que nos casamos... tudo mudou. Ele começou a me cobrar, exigia cada vez mais. Primeiro, queria um cargo de diretor na empresa. Depois, me convenceu a registrá-lo como pai legítimo do Benjamin. E por fim... veio a cobrança por uma gravidez.
Marizete sentiu um arrepio percorrer seu corpo, temendo onde aquela conversa chegaria.
— E foi aí que ele começou a...? — perguntou, quase sem coragem de completar a frase.
Camila engoliu seco, os olhos inundados por uma dor sufocante.
— A primeira vez que ele me bateu... eu não sabia o que fazer.
Sua voz quebrou.
— Achei que fosse por causa da bebida. Ele estava alterado, nós discutimos... Ele me pressionava a engravidar. Eu quis acreditar que era só uma fase. Mas não era. E eu... comecei a sentir medo. Não só por mim, mas pelo Benjamin.
Ela passou as mãos trêmulas pelo rosto, como se quisesse apagar cada lembrança.
— Quando brigamos pela segunda vez e ele me bateu de novo... eu revidei. Dei um tapa de volta. Disse que ele não tinha o direito de encostar em mim. Que eu era independente, que mantinha a casa, meu filho, e que ele só tinha um emprego bom por minha causa.
Seu peito subia e descia de forma descompassada. A culpa, o arrependimento, o ódio de si mesma—tudo misturado em um turbilhão dentro dela.
— Ele parou de me bater. Mas começou outro tipo de tortura.
Marizete arregalou os olhos, o coração apertando ainda mais.
— O que você quer dizer?
Camila riu de novo, um riso trêmulo, desesperado.
— Ele se fazia de bom marido. Chegava em casa com um vinho, preparava jantares especiais. Quando eu recusava beber, ele insistia. Quando eu insistia em recusar, ele me forçava.
Ela fechou os olhos com força, sentindo o estômago revirar.
— Eu sempre acordava estranha no dia seguinte. Sensação de ressaca. Às vezes, meu corpo doía... minha intimidade doía...
Ela soltou um suspiro trêmulo, segurando o choro que insistia em voltar com força.
— No começo, achei que era coisa da minha cabeça. Mas depois... depois eu percebi. Ele me drogava. Me forçava a beber, me fazia ficar tonta, e então... me abusava.
Marizete levou uma mão à boca, horrorizada.
— Não...
— Sim. — Camila confirmou, quase sem voz. — Ele fazia isso para me engravidar.
Seu corpo tremia.
— E eu só fui perceber quando já era tarde.
Marizete puxou Camila para um abraço apertado, lágrimas silenciosas escorrendo por seu próprio rosto.
— Meu Deus... minha menina...
Camila agarrou-se a ela com desespero.
— Eu tentei fugir, Mari. Eu juro que tentei! Mas ele sabia tudo sobre mim. Sabia da falsificação dos documentos. Me ameaçava o tempo todo.
Ela puxou o ar, trêmula.
— Eu lutei pelo meu filho! Eu fui pra cima dele! Eu tentei, Mari, eu tentei! Mas ele... ele estava armado...
Seu choro se tornou descontrolado.
— Eu entrei em pânico! Eu não queria morrer como meu pai! Eu não podia morrer e deixar meu filho sozinho!
Ela soluçava sem controle agora, completamente destruída, enquanto Marizete a segurava com toda a força que podia, tentando transmitir qualquer resquício de segurança.
— Me perdoa... me perdoa, por favor...
Marizete beijou o topo de sua cabeça, apertando-a contra si.
— Não tem nada para te perdoar, minha filha... Você foi vítima. E agora, nós vamos lutar por você e pelo Benjamin.
Foi quando Luan entrou no quarto, a expressão carregada de urgência e desespero. O choro de Camila provavelmente havia ecoado pela casa inteira.
— Camila. — Ele chamou. Sua voz era firme, mas gentil. — Olha pra mim.
Ela hesitou, mas ergueu o olhar.
Luan se aproximou, ajoelhou-se diante dela e segurou seu rosto com cuidado.
— Nós já localizamos o Benjamin. Estou em contato com a Stacy. Vamos trazê-lo para casa, em segurança.
Camila piscou, o choque tomando conta de sua expressão.
— O... o quê?
— Você não precisa fazer nada. Fica aqui, com a minha mãe, com meu pai. Assim que eu estiver com o nosso filho, eu trago ele para você. Eu prometo.
Ela assentiu com a cabeça, ainda sem voz.
— Ela comeu, mãe? — Luan perguntou.
— Não. Assim que eu cheguei, ela começou a desabafar comigo, e a canja esfriou. Vou buscar outra.
— Eu não consigo comer... — Camila murmurou.
— Mas precisa. — Luan respondeu, a voz firme. — Benjamin vai precisar da mãe dele forte quando voltar.
Camila respirou fundo. E, mesmo que sem vontade, assentiu.
Ela precisava ser forte.
Pelo filho dela.
Pelo Benjamin.
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ABISMO
Любовные романыEla está afundando. Ele está brilhando. Mas e se, no fim, ambos estiverem perdidos? Camila sempre teve tudo: dinheiro, privilégios, excessos. Mas quem olha de perto vê as rachaduras - festas intermináveis, vícios perigosos, mentiras que a sufocam. E...
