CAPITULO 60

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Luan encarava o médico, o coração acelerado.

— E então, doutor? Qual é o estado da Camila?

O médico soltou um suspiro impressionado antes de responder:

— Milagroso. Simplesmente impressionante. Não restou uma única sequela grave.

Luan prendeu a respiração, esperando por mais detalhes.

— Camila não apresenta nenhuma doença, nenhuma lesão cerebral. Apenas uma leve paralisia nas pernas e um pequeno tremor na mão esquerda, mas nada preocupante.

Luan sentiu um peso sair dos ombros, mas a inquietação ainda estava ali.

— E por que ela não fala?

— Luan, sua esposa passou quase dois anos em coma. — A voz do médico era paciente. — Ela sofreu um derrame, teve um edema cerebral, fraturou cinco costelas, perfurou o pulmão, quebrou a mão e o joelho. Precisou ser entubada, passou por ECMO... O corpo dela foi ao limite. Precisamos dar tempo para que tudo se ajuste novamente.

Luan engoliu seco. Ele sabia de tudo isso, mas ouvir assim, em uma lista tão cruel, fazia seu peito apertar.

— Camila não pode se agitar. As coisas precisam ser reapresentadas a ela, pouco a pouco. Ela precisará de uma fonoaudióloga para reaprender a controlar a respiração, de fisioterapia para recuperar os movimentos, e de um neurologista para auxiliar na reativação das funções motoras e cognitivas.

— Então... ela tem amnésia temporária?

O médico negou com a cabeça.

— Não. Não há qualquer indício de amnésia. O cérebro dela está intacto. Ela sabe falar. Ela sabe andar. Mas precisa se readaptar a tudo isso. Afinal, passou quase dois anos sem dar nenhum comando ao próprio corpo.

Luan passou a mão pelo rosto, assimilando tudo.

— Entendi... E quando eu posso trazer o Benjamin para vê-la?

O médico hesitou por um segundo.

— Não sabemos como ela vai reagir ao ver o filho. Mas podemos tentar, com cautela.

Havia otimismo na resposta, mas também um alerta silencioso.

— Certo, doutor.

— Luan, precisamos lembrar que o caso da Camila é raríssimo. Pacientes em coma vegetativo dificilmente despertam. E, quando despertam, costumam apresentar sequelas graves. O quadro dela é um milagre. Mas precisamos monitorá-la de perto. As próximas 24 horas serão cruciais, então ela permanecerá na Unidade de Terapia Intensiva.

Luan assentiu.

— Tudo bem... Mas eu poderei visitá-la?

— Sim. Uma visita rápida, de 20 minutos. Amanhã, às 15h.

— E hoje? Posso me despedir?

O médico avaliou-o por um momento e sorriu, compreensivo.

— Vou permitir que entre comigo. Apenas cinco minutos.

Luan entrou no quarto em passos lentos, tentando conter a avalanche de emoções.

Camila estava ali. De olhos abertos. Viva.

Ele sorriu, aliviado, e se aproximou da cama, acariciando o rosto dela com a ponta dos dedos.

— Até que enfim a Bela Adormecida acordou.

Os olhos dela o acompanharam, atentos, mas ainda sonolentos.

— Escuta, quero que saiba que está tudo bem. — Ele apertou sua mão com carinho. — Nosso filho já está comigo. Logo, logo, você vai poder vê-lo, tá bom?

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