Luan estava em sua caminhada, com a mente focada em um único objetivo: chegar à Espanha e resgatar Benjamin. Ele havia se perdido no trânsito, e a tensão se intensificava. A ideia de não poder proteger seu filho, de estar tão longe e impotente, o consumia a cada minuto. Mas, enquanto a mente de Luan estava longe, seus pés o levavam para uma estrada ainda mais sombria, onde a noite parecia engolir tudo ao seu redor.
Ao descer a estrada que levava ao condomínio, ele percebeu, tarde demais, que a escuridão esconde muitas surpresas. Algo não parecia certo.
Um grito cortou o silêncio da madrugada.
— MAMAAAAÃE! — A voz de um menino, em agonia, parecia vir de algum lugar distante.
Luan apertou os olhos, tentando localizar a origem do som, mas foi quando o som se repetiu, e ele percebeu o perigo. Ele acelerou, pisando no pedal de forma frenética, e sem perceber a silhueta em frente ao carro, já era tarde.
SOM DO IMPACTO.
O carro parou bruscamente. Luan estava atordoado, o coração acelerado, e a sensação de que algo terrível tinha acabado de acontecer o invadiu. Ele estava jogado no asfalto, em pânico, e observou até a figura caída no chão. Seus olhos não podiam acreditar no que viam.
Ela estava ali, imóvel.
A luz do farol do carro iluminava seu rosto, e ele reconheceu. Era Camila.
Tentou se levantar, mas foi em vão.
— Camila! Camila, fala comigo! — Sua voz saiu em um fio de desespero.
Mas ela não respondeu. O silêncio tomou conta do cenário, a angústia aumentou, e Luan não sabia se sua própria mente estava começando a enlouquecer ou se realmente tinha acabado de atropelar a mulher que ele achou ter esquecido, mas que bastou aparecer, para ele lembrar de que era ela, o amor de sua vida.
— Por favor, fica comigo... — Ele sussurrou, mais para si mesmo do que para ela. O desespero estava consumindo sua razão.
Luan tentou tatear o bolso, e conseguiu com muito esforço, pegar seu celular que aparentava ter danificado um pouco, mas ainda assim, funcionava.
- Siri, ligar para a emergência...
MINUTOS ANTES...
Camila acordou sobressaltada, o coração acelerado. Um pesadelo a havia assombrado. No sonho, viu Nicholas batendo em Benjamin, proferindo palavras cruéis, tão cruéis que ela mal podia acreditar. O desespero tomou conta dela de imediato. Levantou-se da cama, sentindo uma dor incômoda na barriga, mas não podia mais esperar.
Sem hesitar, calçou os chinelos e saiu do quarto, movendo-se silenciosamente pela casa. A madrugada ainda estava escura, as horas avançavam e, ao olhar para o relógio, Camila arriscou a pensar que o início da madrugada já havia chegado. A casa estava em silêncio, o que só aumentava a sensação de solidão que a acompanhava nos últimos tempos.
Desceu as escadas sem fazer barulho, tentando não ser notada. Abriu a porta da casa de Luan e saiu, sem destino. A necessidade de ir até o hangar onde seu avião estava aguardando para levá-la de volta à Espanha era urgente. Ela sabia, lá no fundo, que precisava voltar, que seu filho precisava dela. O pressentimento de que algo estava errado, algo que ela não podia explicar, a consumia por dentro.
Caminhou rápido, com passos decididos, como se estivesse correndo contra o tempo. Seus pensamentos estavam ocupados em uma prece silenciosa, uma súplica ao céu.
"Senhor, se puder me ouvir, me ajude. Eu quero ver meu filho crescer, educá-lo, dar a ele o amor que nunca tive da minha mãe. Não nos prive disso, Senhor."
Ela fechou os olhos por um instante, sua mente inundada de arrependimentos e culpas.
"Eu sei que não sou digna do Teu amor, sei que falhei muitas vezes, culpei a Ti pelos meus erros, pela minha dor. Mas, por amor a Jesus, tem misericórdia de mim. Senhor, não permita que nenhum mal aconteça ao meu filho. Me devolva ele."
Foi então que ouviu, ao longe, uma voz.
— MAMAAAAÃE!
Camila parou no meio da rua, seus sentidos aguçados. A voz de Benjamin, gritando por ela, a fez estremecer. Olhou para todos os lados, confusa.
— MAMAAAAÃE! A voz soou novamente, mais perto agora.
A angústia tomou conta de Camila, e, desesperada, ela gritou de volta.
— BENJAMIN? MEU FILHO!
Olhou ao redor, em pânico, mas não conseguiu ver nada. Sua mente estava começando a duvidar de sua sanidade.
— MAMAAAAÃE! AQUI! DO OUTRO LADO!
Ela então o viu, ou melhor, pensou vê-lo. Benjamin estava ali, sorrindo, com as mãos levantadas, como se estivesse brincando. O coração de Camila disparou.
— BENJAMIN! MEU FILHO! NÃO SAIA DAÍ. É PERIGOSO ATRAVESSAR A RUA SOZINHO! A MAMÃE VAI TE BUSCAR.
— TÁ BOM, MAMÃE! VOU ESPERAR POR VOCÊ!
Camila não pensou duas vezes. Correu até a rua, atravessando-a apressadamente para alcançar o que achava ser seu filho. O abraço seria a salvação, mas, quando chegou até onde ele deveria estar, não havia ninguém.
Ela sentiu a presença de seu filho apenas na mente. Era só uma alucinação. Sua respiração ficou difícil, mas, mesmo assim, não desistiu.
— NÃO, MEU FILHO! A GENTE PRECISA FUGIR! O NICHOLAS NÃO É SEU PAI, E ELE NÃO É LEGAL. ELE É MAL! VEM, MEU AMOR, VEM!
O grito a fez parar no meio da rua, quando ouviu uma outra voz, vindo de onde seu filho deveria estar.
— MAMÃE, CUIDADO! O CARRO!
Camila, atordoada, tentou entender o que estava acontecendo. Olhou para os lados, e foi nesse momento que percebeu a luz dos faróis de um carro vindo em alta velocidade.
— ONDE? AAAAAAAAAAH!
O impacto foi inevitável. O som estrondoso a fez tremer, e tudo ao seu redor ficou em um borrão de dor e desorientação. Sua visão escureceu enquanto o chão parecia se abrir sob seus pés. Ela mal teve tempo de processar o que estava acontecendo antes de a escuridão a consumir por completo.
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ABISMO
RomanceEla está afundando. Ele está brilhando. Mas e se, no fim, ambos estiverem perdidos? Camila sempre teve tudo: dinheiro, privilégios, excessos. Mas quem olha de perto vê as rachaduras - festas intermináveis, vícios perigosos, mentiras que a sufocam. E...
