Camila fechou os olhos e, quando os abriu, estava em um quarto de hospital. Marizete estava sentada em uma poltrona próxima ao seu leito, observando-a atentamente. Ela estava deitada, imóvel. Não havia mais aquele monte de aparelhos, apenas um, controlando sua respiração e seus batimentos. Benjamin, deitado ao seu lado, descansava a cabeça em seu peito, olhando para a TV.
— Olha lá, meu genro! — Carlos disse com um sorriso.
— Ele não é seu genro! — Camila respondeu, um tanto incrédula.
— Vai ser, minha filha, vai ser — Carlos insistiu, com um tom brincalhão.
— Esse é o meu papai Vovô? — Anjinho perguntou com curiosidade.
— É sim, meu amor — respondeu Carlos, com ternura.
Camila franziu a testa, sentindo uma pontada de confusão.
— Como vocês decidem a minha vida assim? Sem a minha permissão?
— Não fomos nós que decidimos, foi... — Camila interrompeu
— O Criador! Já entendi! — Camila respondeu, resignada.
— Vai, minha filha, está na hora — disse seu pai, beijando sua testa. Ele a abraçou com todo o amor que tinha, e Camila retribuiu com força, sentindo o conforto daquele abraço familiar.
Ela beijou o topo da cabeça do anjinho, que estava em seus braços, e depois abraçou Meire, dizendo que a amava. Com um suspiro profundo, começou a caminhar em direção ao seu corpo. Mas antes, sentiu o cheiro de seu filho. Ele estava lindo, crescido... Ela poderia perceber isso mesmo ali, naquele lugar.
Antes de se ajeitar em seu corpo, uma voz suave ecoou em seus ouvidos. Era ele. A voz dele...
"O Amor cura!
O amor cura!
Acreditem..."
Essas foram as últimas palavras que ela ouviu, antes de sentir o vazio tomar conta de sua mente. De repente, tudo ficou escuro. Ela queria abrir os olhos, mas não conseguia. Tentou mover-se, mas seu corpo parecia inerte. Forçou um músculo, sem saber qual era, até perceber que era sua mão. Tentou novamente e, dessa vez, sentiu que estava apertando a mão de seu filho. Ele estava ali, com ela. Sentiu a tensão em sua mão, e logo o ouviu, assustado.
Parou de pressionar sua mão. Não queria que ele ficasse com medo dela.
Sentiu lágrimas escorrendo por seus olhos. Ela estava chorando.
— Vovó Lizete... — Benjamin chamou, com a voz carinhosa. Ela sorriu com a suavidade daquela lembrança.
— Oi, meu bem — Marizete respondeu, com a voz doce, retribuindo o carinho de Benjamin. Camila, em silêncio, se questionava como pôde manter aquela distância deles. Como pôde se afastar?
— Vovó, a mamãe apertou a minha mão! — Benjamin disse, com empolgação.
— Foi? — Marizete perguntou, esperançosa.
— Sim. Duas vezes! Eu senti, vovó! Eu juro! — Benjamin estava radiante, e a animação dele tocou o coração de Camila.
— Eu acredito em você. Daqui a pouco, o médico vem aqui, e a gente conta a novidade para ele — Marizete respondeu, com um tom suave, mas havia uma pitada de frustração em sua voz. Será que Camila já havia feito isso outras vezes?
Ouvia uma conversa distante entre Luan e Marizete. Não conseguia vê-los, mas sabia que estavam ali, próximos. Cada palavra parecia um eco no fundo da sua mente, um teste para sua paciência e resistência.
— Papai, a mamãe apertou a minha mão duas vezes! — Benjamin afirmou, sua voz cheia de esperança.
— Foi, filho! E o que os médicos disseram? — Luan perguntou, ansioso.
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ABISMO
RomanceEla está afundando. Ele está brilhando. Mas e se, no fim, ambos estiverem perdidos? Camila sempre teve tudo: dinheiro, privilégios, excessos. Mas quem olha de perto vê as rachaduras - festas intermináveis, vícios perigosos, mentiras que a sufocam. E...
