CAPITULO 52

14 2 0
                                        

O silêncio no quarto era opressor. O monitor cardíaco apitava em intervalos regulares, e o cheiro estéril do hospital misturava-se com a dor surda que se espalhava pelo corpo de Luan. A medicação amenizava a fisicalidade da dor, mas nada era capaz de conter o nó em sua garganta ou o peso esmagador em seu peito.

Ele estava imóvel na cama quando seu pai entrou no quarto, o rosto marcado pelo cansaço e por algo mais... algo sombrio.

— Pai? — a voz de Luan saiu rouca, o coração acelerando diante da expressão fechada de Amarildo. — O que foi?

Marizete entrou logo atrás, os olhos vermelhos de choro. O pavor tomou conta de Luan num instante.

— O que aconteceu? Fala logo!

Amarildo respirou fundo.

— Filho... A mulher que você atropelou... é a Camila.

O tempo parou.

Luan piscou, o cérebro recusando-se a processar aquelas palavras. Sua respiração falhou, e ele precisou de um segundo para puxar o ar novamente.

— Não... — a palavra saiu num sussurro, como se negá-la pudesse mudar a realidade. — Não pode ser.

— É ela, filho — Marizete disse, a voz embargada. — Camila está em estado crítico.

Luan sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Sua mente se recusava a aceitar. Ele viu Camila pela última vez dentro de casa, frágil, debilitada... Como diabos ela foi parar naquela estrada no meio da noite?

— Me diz que ela está bem... — ele implorou, a voz falhando. — Me diz que ela vai ficar bem, mãe!

Marizete soluçou, e Amarildo apertou os lábios antes de responder:

— Os médicos fizeram o possível. Mas o estado dela é muito delicado. Ela está em coma induzido.

Luan sentiu algo dentro dele se despedaçar. O ar parecia rarefeito, e ele lutou contra a tontura.

— Eu preciso vê-la — tentou se levantar, mas o movimento fez uma onda de dor atravessar seu corpo.

— Você não pode, Luan! — Amarildo interveio, segurando-o pelos ombros. — Ela está na UTI. Os médicos não permitem visitas agora.

— Droga! — ele gritou, socando o colchão com força. Seu cotovelo lesionado protestou, mas a dor física não era nada comparada ao caos dentro dele.

Sua mente girava, voltando no tempo. O jeito que ela o olhou antes de sair, a raiva nos olhos, a dor disfarçada. O que ela estava fazendo naquela estrada? Por que ela saiu sozinha?

E se ela não sobreviver?

Luan fechou os olhos com força, sentindo a agonia esmagá-lo. Ele nunca teve tanto medo em sua vida.

O tempo parecia avançar em câmera lenta. Luan permanecia imóvel na cama, o olhar fixo no teto branco do hospital, mas sua mente estava presa em Camila. O peso da culpa era esmagador. Seu peito subia e descia em respirações descompassadas, enquanto a dor emocional se sobrepunha a qualquer ferimento físico.

Ele não percebeu a presença de Mariana até ouvir sua voz suave e hesitante.

— Luan...

Ele virou o rosto lentamente. Mariana estava ali, parada na porta, os olhos marejados e o semblante carregado de preocupação.

— Mari... — sua voz saiu fraca, embargada.

Ela entrou no quarto e se aproximou, puxando uma cadeira para sentar ao lado dele. Ficou em silêncio por um momento, observando-o com atenção.

ABISMOOnde histórias criam vida. Descubra agora