Camila saiu de casa naquele início de manhã sem dizer a ninguém para onde ia. Nem para Bruna, sua confidente, nem para Mariana. Apenas pediu que Mariana assumisse qualquer compromisso dela no trabalho e disse a Sra Fátima que voltaria antes das crianças saírem da escola.
O silêncio dentro do carro parecia mais alto do que qualquer som da cidade. Ela segurava o volante com força, como se isso pudesse conter o turbilhão dentro dela. A cada quilômetro percorrido, sua mente voltava ao passado—à dor, às perdas, às feridas que Marta havia deixado. Durante muito tempo, sentiu ódio. Raiva. Uma revolta que queimava dentro dela. Mas agora, havia algo diferente.
Liberdade.
Ela queria se libertar do peso que carregava.
Ao chegar ao presídio, estacionou, respirou fundo e saiu do carro. A fachada cinza e imponente do prédio reforçava a sensação de frieza e distância. Camila se apresentou na recepção, entregou seus documentos e passou pelos procedimentos necessários—revista, registro, uma breve espera. Cada etapa parecia um teste para sua determinação, mas ela seguiu firme.
— Camila Santana, pode entrar.
A voz do agente penitenciário ecoou no salão, chamando sua atenção.
Ela se levantou e o seguiu por um corredor estreito e iluminado artificialmente. O som dos passos dela se misturava ao eco metálico das portas de ferro se abrindo e fechando. Seu coração batia firme, mas seu olhar permanecia sereno.
Até que, finalmente, a última porta se abriu.
Do outro lado, esperando por ela, estava Marta.
Marta estava sentada atrás da mesa de visitas, as mãos apoiadas sobre o tampo frio de metal. Seu rosto, outrora marcado pela arrogância e pelo controle, agora exibia os traços duros da realidade que a prisão lhe impôs. O tempo passou, e mesmo que ainda tentasse manter certa altivez, seu olhar não escondia o cansaço.
Quando seus olhos encontraram os de Camila, uma tensão silenciosa se instalou no ar. Marta não esperava vê-la ali.
— Que surpresa... — disse Marta, arqueando levemente a sobrancelha.
Camila puxou a cadeira e sentou-se de frente para ela, mantendo-se ereta, determinada.
— Eu precisava vir.
Marta soltou uma risada seca.
— Imagino que seja para me lembrar de tudo o que fiz com você.
Camila negou com a cabeça.
— Não. Você já sabe muito bem o que fez. Eu não estou aqui para cobrar nada, nem para buscar vingança.
Marta cruzou os braços, estudando-a com desconfiança.
— Então por que veio?
Camila respirou fundo antes de responder, deixando suas palavras saírem com a clareza e a firmeza que carregava dentro de si.
— Para dizer que te perdoo.
A expressão de Marta se quebrou por um instante. O choque passou rápido, mas foi perceptível. Ela abriu a boca para dizer algo, mas hesitou.
— Você me perdoa? — repetiu, como se quisesse se certificar de que tinha ouvido direito.
— Sim.
Marta soltou uma risada sarcástica.
— E acha que isso muda alguma coisa?
Camila manteve o olhar firme.
— Para você, talvez não. Mas para mim, sim. Eu passei anos carregando raiva, mágoa, dor... Sentimentos que me consumiam, que me faziam questionar tudo. Mas eu escolho seguir em frente. Escolho não deixar que o que você fez defina minha vida.
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ABISMO
RomantikEla está afundando. Ele está brilhando. Mas e se, no fim, ambos estiverem perdidos? Camila sempre teve tudo: dinheiro, privilégios, excessos. Mas quem olha de perto vê as rachaduras - festas intermináveis, vícios perigosos, mentiras que a sufocam. E...
