CAPITULO 33

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Depois de dezoito horas de voo, Camila finalmente chegou ao apartamento do pai, em Miami. Stacy a acompanhava e ficaria com ela até o dia em que ela viajaria para a Espanha. O cansaço do voo era visível em seu corpo, mas havia algo mais profundo, algo que nem o sono seria capaz de apaziguar. Camila sentia-se estranha, distante, como se um pedaço de si ainda estivesse naquele lugar distante, com Luan, em Alphaville.

O apartamento estava impecavelmente limpo e organizado, como sempre. Ao olhar para aquele ambiente, Camila não pôde deixar de sentir falta da bagunça do seu próprio apartamento, onde tudo parecia mais confuso e caótico, mas também mais... seu. Ali, naquele lugar, ela sentia a presença do pai em cada canto. A ausência dele a sufocava. Camila havia tomado uma decisão: nada seria alterado. Nenhuma peça de roupa, nenhum objeto. O apartamento permaneceria do jeito que ele o deixara antes da viagem.

Ela caminhou até o quarto dele e foi ali que avistou o fraque que seu pai usara na festa da empresa. Estava embalado em um saco com zíper, provavelmente pronto para ser enviado à lavanderia. Ela o abriu devagar e, ao fazer isso, o cheiro do perfume Paco Rabanne que ele tanto gostava invadiu suas narinas. Era um aroma forte e másculo, diferente do tradicional Giorgio Armani que a maioria dos executivos usava. Aquela fragrância parecia envolver todo o quarto, como se o próprio espírito de seu pai estivesse ali, presente.

Seu pai sempre foi um homem vaidoso, um homem que sabia se cuidar. Mesmo na casa dos cinquenta e poucos anos, ele ainda exalava juventude e vitalidade. Camila sempre o viu assim, impecável. O cabelo arrumado, a barba feita, sempre com roupas bem engomadas. Quem não conhecia a história dele, jamais poderia imaginar que ele não nascera em berço de ouro. Na verdade, seus avós, embora tivessem criado os três filhos com uma educação íntegra, enfrentaram muitas dificuldades financeiras. Mas, mesmo diante disso, seu avô sempre incentivou seus filhos a estudar e lutar pelo que queriam. O tio Alberto, tio Beto, como Camila o chamava, trabalhou com seu pai durante muitos anos, mas agora morava na Suíça, com sua loja de chocolates que exportava para o mundo todo. Ele já se casara três vezes e tinha três filhas: Bella, de 27 anos, Maya, de 25, e Charlotte, de 6. Charlotte, a mais nova, tinha se tornado um verdadeiro encanto para Camila, desde que ela a conhecera no ano passado. A pequena era linda, e Camila já estava pensando em visitá-la algum dia.

Apesar de toda a proximidade, tio Beto não pôde vir ao Brasil para o velório de seu pai. A distância e o tempo não permitiram, e Camila não se importou. Era melhor assim. Não queria ter que explicar algo que nem ela mesma sabia direito. E, falando em pessoas distantes, Tia Alice era, sem dúvida, uma das mulheres mais incríveis que Camila conhecia. Pena que, após se casar com Arthur, Tia Alice se mudou para a Nova Zelândia. Era engraçado lembrar de quando ela e Arthur se conheceram online, há uns quinze anos. Na época, Tia Alice tinha 27 anos, e Camila ainda era muito pequena para entender direito a situação. Mas o que ela nunca esqueceu foi como seu pai, tão protetor, ficou preocupado quando soube que Alice estava se envolvendo com um homem estrangeiro. Depois de muitos anos de namoro à distância, eles se casaram e a tia se mudou para o outro lado do mundo. Hoje, Tia Alice era dona de uma escola de artes e dava aulas de teatro, sua grande paixão.

Camila não falava muito com Alice ou com seus filhos, Isaac e Benjamin, mas, de vez em quando, trocava mensagens esparsas. Não sabia ao certo o porquê de mencionar sua família agora. Talvez fosse a solidão falando mais alto, talvez fosse a saudade de uma conexão mais profunda com alguém. Ou talvez fosse apenas a sensação de estar tão sozinha, mesmo rodeada de pessoas, que a fazia querer lembrar que ainda havia laços por aí.

Ela deu um suspiro e tentou afastar esses pensamentos confusos. Afinal, o que ela precisava agora era descansar e começar a se encontrar de novo, longe das memórias que ainda a assombravam. Camila sabia que a jornada seria difícil. O que ela não sabia era que, mesmo estando em um novo lugar, com novas rotinas, as sombras de seu passado continuariam a segui-la, e ela precisaria enfrentá-las, mais cedo ou mais tarde.

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