O caminho da cachoeira

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Ao partir, Arthur e os outros trinta e um sobreviventes concordaram em contornar as montanhas e seguir por um desfiladeiro nas proximidades do Vale do Fim do Mundo, pois se eles voltassem pelo mesmo caminho poderiam dar de cara com os boinas vermelhas.

Todos andaram sem pausa até depois da meia noite, até que avistaram a grande região do Vale e o pântano que o cercava.

Depois que a chuva cessou, as nuvens se dispersaram e a lua ficou extremamente clara, iluminando toda a região.

Ninguém havia dito uma só palavra até que, do estreito caminho do desfiladeiro, avistaram dois aviões atirarem bombas incendiárias no centro do vale.

一 São bombardeiros V40. 一 Disse Arthur. 一 O mesmo modelo do que nos atacou mais cedo.

一 Mas por que estão queimando aquele lugar? 一 Thúlio perguntou.

一 Agora eu entendi. 一 Respondeu. 一 Aquele era o verdadeiro alvo. O fato de nos encontrarem foi por pura e azarada coincidência.

一 Mas por que estão atacando aquele lugar? 一 Thúlio perguntou novamente.

一 Eu não sou vidente...

一 Podemos fazer uma pausa? 一 Beatriz tomou a palavra. 一 A dor nas minhas costas está quase insuportável.

一 Tudo bem. Vamos parar e tratar os ferimentos. 一 Arthur respondeu. 一 Mas nós teremos que sair daqui antes que amanheça...

Enquanto isso, nas cavernas ao centro do vale, alguns dos soldados de Diego corriam desesperados, com seus corpos em chamas devido ao bombardeio.

一 Esses covardes jogaram napalm na gente! 一 D'Lucas gritou.

一 O que é isso? 一 Diego perguntou.

一 É uma bomba incendiária.

一 Inimigos avançando pelo pântano. 一 Hélder tomou a palavra.

一 Defendam as cavernas! 一 Diego deu a ordem.

Imediatamente os soldados foram para fora e receberam os inimigos com tiros. Só que dessa vez o avanço era bem mais organizado.

Arthur observava o local de pé, na beira do desfiladeiro, deixando o vento balançar sua capa e o capuz esconder seu rosto.

一 Você está bem? 一 Iroha perguntou.

一 Meu corpo... 一 Respondeu com voz rouca. 一 Ele está queimando.

一 Como assim?

Ele ficou alguns segundo em silêncio e então continuou:

一 Olha, Iroha. É melhor você se afastar de mim.

一 Por que você está dizendo isso agora? 一 Seus olhos se encheram de lágrimas.

一 É o melhor a se fazer...

一 Arthur, qual o seu plano? 一 Hanz os interrompeu.

一 Vou tentar levar você em segurança até Horto.

一 E quanto a essa batalha no vale à frente?

一 Não vamos nos envolver... Iremos apenas cruzar o rio pela cachoeira e sair da região.

Alguns minutos depois o grupo partiu à caminho da cachoeira do Riacho da Vida.

O sol estava prestes a nascer, quando eles chegaram nas proximidades do local.

Um caminho feito com tábuas e alguns troncos facilitavam a locomoção entre as árvores do manguezal. E apesar de o riacho não ser fundo, na região, a água chegava quase na altura dos joelhos.

Arthur seguia adiante, seguido por Thúlio e o restante do grupo, que andava em fila.

Já Iroha era a última, pois ela havia começado a se distanciar de Arthur, como ele tinha pedido.

Já ouvindo o som da cachoeira, ela avistou um movimento entre as árvores, em uma parte seca.

Uma pessoa usando um capuz branco havia chamado sua atenção. Então Iroha saiu da rota e a seguiu.

Lentamente a misteriosa pessoa de capuz branco se distanciou do caminho feito de tábuas e troncos e se aproximou da cachoeira, ficando com água cobrindo os pés. Mas ao perceber que estava sendo seguida parou e disse:

一 Olá, Iroha... Ou prefere ser chamada de Hori? 一 A voz era de garota.

一 Quem é você? 一 Iroha perguntou ao se aproximar.

A misteriosa pessoa retirou o capuz, mostrando um longo cabelo acinzentado e em seguida ficou de frente para ela e sorriu.

Seu olho esquerdo era vermelho incandescente e o esquerdo branco como neve e, apesar da coloração de seu cabelo, uma mecha preta como a noite se destacava.

一 Eu só quero te dar um conselho. 一 Respondeu.

一 Eu não preciso ouvir nenhum conselho vindo de uma desconhecida. 一 Iroha sacou a espada.

一 É sobre o Arthur...

一 Então você conhece ele?

一 E muito bem. 一 Sorriu. 一 Mas ele ainda não me conhece...

Iroha guardou a espada.

一 O que você tem pra me dizer? 一 Perguntou.

A garota soltou um longo suspiro e disse:

一 Olha. Eu sei que as coisas também não estão fáceis para você, mas independente do que aconteça, não se afaste do Arthur. 一 Deu as costas novamente. 一 Se fizer isso, coisas ruins irão acontecer.

一 O que você quer dizer com isso?

一 Apenas...

一 Parada! 一 Uma voz ecoou atrás de Iroha.

Ao se virar, viu um pelotão de soldados com boinas vermelhas, que apontavam suas armas contra ela.

Depois, Iroha olhou para trás; e a garota de capuz branco não estava mais lá, então não houve escolha a não ser se render.

À frente do seu grupo, Arthur sentiu uma frieza em seu braço direito. E ao olhar lembrou que Iroha o havia abraçado durante todo o dia, desde o ataque ao vilarejo. Também lembrou que desde o dia em que ele acordou ela sempre esteve ao seu lado.

Arthur sentiu um aperto em seu peito e um frio na barriga. Ele percebeu o quanto estava sendo egoísta, pois aquele momento era mais difícil para Iroha do que jamais foi para ele.

一 Tem soldados atrás de nós! 一 Hanz gritou. 一 Temos que andar mais rápido.

一 Onde está a Iroha? 一 Arthur perguntou.

Porém ninguém soube responder.

一 Mas que merda. 一 Gritou. 一 Ninguém viu?

一 É que ela sempre costuma andar com você...

Ele se acalmou, virou para Thúlio e disse:

一 Siga com o grupo, sempre em linha reta até chegar à floresta de carvalhos negros. Eu encontro vocês lá.

一 O que você vai fazer? Perguntou Thúlio.

一 Vou procurar a Iroha.




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