Novo começo

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- Não, não e não.

- Vai, Arthur; deixa! - Disse Ví, com os olhos cheios de brilho.

- Pois é. A gente sabe o que tá fazendo. - Iroha girava uma tesoura entre os dedos.

- Já disse que não vou deixar vocês cortarem meu cabelo.

- Ok, então. - Iroha deu as costas - Vamos Ví, melhor não insistir com um caso perdido.

Arthur levantou, saiu da casa, caminhou até o topo da colina, sentou e ficou observando a vila. Sua mente produzia lembranças dos dias, meses e anos anteriores; a guerra havia acabado com ele.

Vinda de trás, uma voz o surpreendeu.

- É uma bela visão aqui, não é! - Era Alice.

- Sim. - O vento batia no rosto de Arthur, mas ele não esboçava nenhuma reação; era como uma casca vazia.

- Nem sempre foi assim, sabia? - Alice sentou ao seu lado - Não muito tempo atrás essas pessoas passaram por momentos difíceis, mas seguiram em frente. São pessoas fortes... Principalmente a Iroha.

Arthur olhou para a senhora.

- O que aconteceu?

- Ela, Ví e Edu não são irmãos de sangue.

- a Iroha não parece nada com eles, mesmo.

Alice sorriu.

- Seis anos atrás os pais deles e encontraram vagando pela floresta; faminta e assustada. Então levaram para casa e cuidaram dela... Iroha nunca falou sobre seu passado; e no começo era uma pessoa difícil e cabeça dura, assim como você, minha criança.

Alice colocou a mão na cabeça de Arthur e bagunçou seu cabelo.

- Eu não sou mais criança faz muito tempo...

- Ela disse a mesma coisa. - Continuou - Mas encontrou uma família aqui; encontrou pais e irmãos que a amam de verdade... Só que dois anos atrás aconteceu o pior.

- O que?

- Você já percebeu que além de Thúlio e seu irmão, não tem muis nenhum homem entre vinte e quarenta e dois anos aqui nessa vila?

- Isso é verdade... - Arthur ficou pensativo.

Nesse momento, Alice mudou seu semblante para sério.

- Dois anos atrás os soldados vieram, reuniram todos os homens entre dezoito e quarenta anos e os levaram a força para torná-los soldados; um deles era o pai de Ví e Edu. Sua esposa tentou impedir que o levassem, mas foi morta na frente dele, dos seus dois filhos e de Iroha.

Ao ouvir isso, Arthur franziu o cenho, cerrou os dentes e apertou o punho esquerdo.

Crawford, seu desgraçado!

- Esse foi o pior dia que essa vila já viu. - Alice continuou - Mas depois, Iroha passou a cuidar de seus irmãos e jurou que nunca iria deixar isso acontecer de novo e, em pouco tempo se tornou a melhor aluna do meu marido.

- Como eles conseguiram seguir em frente, mesmo depois de tudo isso? - Arthur perguntou, enquanto rabiscava o chão com um graveto.

- Não se trata de esquecer ou apagar o seu passado, mas se você focar apenas nisso, vai perder as coisas boas que o presente lhe proporciona...

- Entendi... 

Alice sorriu, levantou e disse:

- Até mais, minha criança. - Depois saiu.

Antes de ouvir isso, Arthur tinha um pensamento totalmente diferente dessas pessoas. Mas agora ele os via com outros olhos e, além da vergonha pela forma que os havia tratado, ele sentiu um pouco de esperança.

Será se eu também posso seguir em frente? Ou até mesmo recomeçar?

- Arthur! - Um grito ecoou na sua frente e, ao olhar, ele viu uma garota de pele morena e cabelos cacheados que junto com seu irmão acenavam e sorriam - Tá na hora do almoço, vamos comer!

Naquele mesmo instante, os primeiros flocos de neve começavam a cair quando, ele levantou e enxugou a única lágrima que marcava seu rosto.

Vou ao menos tentar...

SOMBRAS DO DESTINOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora