A voz da razão

1.6K 100 0
                                        

Estava cansado, fraco pra dizer a verdade. Eu ficava de jejum por um ou dois dias no máximo e isso nunca me fez mal, muito pelo ao contrário, sempre me senti revigorado depois. Só que dessa vez eu tinha ido além, quando dei por mim, mais um dia estava acabando, e o quarto dia de jejum estava se iniciando. Decidi terminar o jejum logo após uma boa noite de sono, estava exausto, como se minhas pernas pesasse uma tonelada.

Sentia o sol entrando pela fresta da janela e queimando meu rosto mas não conseguia abrir os olhos, não sentia fome mas ainda estava fraco, mais do que antes.
Uma voz melódica me chamou mas não conseguia abrir os olhos, como se estivessem muito pesados. Uma mão tocou em minha testa assim que abrir, com dificuldade, os olhos.

Era ela.

Esqueci da minha fraqueza, da ardência em manter meus olhos abertos, esqueci de que eu devia dar um sermão sobre entrar em meus aposentos, principalmente enquanto estou deitado.
Tudo o que eu queria era passar a mão em seus cabelos castanhos claros e saber o por quê de querer tanto isso.

Deus não havia me respondido e tudo o que eu podia fazer era aceitar que eu não teria resposta.

O que eu não podia aceitar era Maine achar que era a culpada! Ela não fazia ideia das minhas responsabilidades e do meu cargo em ascensão. Eu era o tolo da história, e não ela. Ela era apenas uma criança e eu um adulto, sacerdote e o único culpado de tudo.
Assim que meus olhos se abriram, eu vi a culpa mesclada em preocupação nos seus.

Tudo que eu sabia não me preparou para ver Maine chorar. Aquilo fazia eu me sentir horrível e foi cruel quando ela saiu correndo.

"Padre Oskar, como está?" A madre entrou juntamente com o médico David que já abria sua maleta. "Maine não parecia bem quando saiu daqui, tudo bem?"

"Estou bem, madre, não se preocupe. Maine veio fazer o que eu disse para a senhora que ela faria, se desculpar. Não se preocupe atoa, está tudo em ordem." Ou quase em ordem.

"Bom, vou te deixar com o doutor e vou atrás dela, ver se esta tudo bem. Melhoras, padre Oskar."

"Obrigado."

"Como está se sentindo, seja completamente honesto?!"

"Eu sou um padre, não precisa pedir isso."

"Ah, claro." Sorriu amarelo.

"Como chegou tão rápido aqui?"

O médico tocou minha testa e fez uma careta.

"Eu vinha ver Maine, convidá-la para um jantar, talvez. Que bom que eu vim, se ela me rejeitar pelo menos fui útil em algo." Brincou. Só que eu não via graça.

"Eu não tenho nada, apenas indisposição. Vou comer alguma coisa e ficar melhor, obrigado por vir me ver, doutor."
Não queria ser mal educado e para isso ele precisava sair da minha presença, o que não foi fácil mas em menos de dez minutos me vi livre do médico engomadinho.

Tinha tomado uma sopa feita pela irmã Tereza e tentei dormir um pouco, a febre havia ido embora e ensopado meu travesseiro.
Não sabia a hora que tinha acordado mas já estava escuro lá fora. Levantei e tomei um banho frio, me demorando debaixo do chuveiro e deixando a água levar todo resto de mal estar.
Fechei o chuveiro e me sequei, me enrolando na toalha e saindo do banheiro.

"Seus olhos são lindos, mesmo quase se fechando eles são lindos. O azul parece que foi pintado a mão."

Desde que eu bati na porta do convento e ela abriu pra mim, a exatos 12 dias, eu via o quanto ela admirava meus olhos. E eu suspeitava que ela sabia que morava neles.

Coloquei uma calça esportiva e uma camisa pólo, um tênis que tinha trazido da casa da minha avó e saí para dar uma corrida na praça.
Dei cinco voltas e desacelerei até enfim parar e sentar num banco frio. O tempo estava gélido e os galhos das árvores balançavam com o vento, havia poucas pessoas andando na rua devido ao horário. Me levantei pra começar novamente com minha corrida, já que meus pensamentos ainda estavam me torturando, quando uma senhora magrinha que parava perto do banco deixou sua bengala cair. A peguei do chão e entreguei para a idosa que sorria.

Padre NossoOnde histórias criam vida. Descubra agora