Capítulo 22

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Capítulo XXII

Por Lin Dami

A manhã despontou resplandecente, banhada por uma luz suave que se infiltrava pelas frestas da neblina. Naquela época do ano, em Seoraksan, meu maior deleite era sair bem cedo, quando a cerração ainda repousava delicadamente sobre as montanhas, e colher flores silvestres para adornar meus vasos com os tonalidades da estação. Contudo, por mais encantador que fosse esse ritual, havia algo que me era ainda mais precioso, algo que nenhuma flor, por mais rara ou perfumada, poderia igualar em valor e significado.

Uma vista que me enchia de sentimentos bons e diria até acolhedores. Ter uma companhia naquela cabana estava sendo inovador. Aquele homem cuja autoridade impunha respeito, mas cuja vulnerabilidade, que devido ao destino - até mesmo minha curiosidade - me foi revelada, despertou em mim algo visceral. Eu sabia que nutria por ele um sentimento que ardia como brasa sob a pele: quente, possessivo, e perigoso. Não era apenas admiração ou desejo - era algo mais profundo, mais instintivo. Havia nele uma força contida, uma tensão sob o olhar firme e as palavras medidas, que me atraía como o abismo atrai os que se demoram à beira.

Ele dormia calmamente. Sua respiração era suave, baixa e tranquila. O observo julgando o com incredulidade o quanto alguém como ele podia dormir tão bem, com um sono tão calmo.

Aproximei-me da cama em passos lentos, quase imperceptíveis, como se cada movimento pudesse quebrar a frágil quietude que preenchia o quarto. O ar ali dentro era morno e denso, impregnado pelo perfume sutil da pele dele misturado ao leve odor de madeira e lençóis recém-aquecidos. A luz que filtrava pelas cortinas projetava sombras suaves sobre seu rosto, delineando-lhe os traços com uma beleza quase cruel - os cílios longos, a linha firme da mandíbula, os lábios entreabertos, levemente tortos, úmidos… tentadores.

Inclinei-me lentamente, guiada por um ímpeto que me arrebatava por dentro. Meus olhos se fixaram naquela boca, e uma fome quente me subiu do ventre até a garganta. Senti minha própria respiração tornar-se pesada, descompassada, enquanto a saliva se acumulava sob minha língua. Desejei tocá-lo, sentir o gosto daqueles lábios, provar o que por tanto tempo almejei em silêncio e agora me consumia de saudades.

Então, subitamente, ele abriu os olhos.

Por um instante, o tempo pareceu vacilar. Seu olhar encontrou o meu com uma nitidez cortante, como se atravessasse todas as camadas do que eu escondia. Mas em vez de recuar ou desviar o rosto, permaneci ali - próxima, vulnerável, entregue. Havia em mim uma espera muda, como se meu corpo inteiro implorasse por um único gesto dele: um sinal, um movimento sutil, um suspiro que me dissesse que eu podia… que eu devia tocá-lo com os lábios.

Seu olhar se manteve firme no meu, intenso e silencioso como uma promessa ainda não dita.

Seus olhos fixavam-se em meu rosto com uma intensidade quase insuportável - como se cada parte de mim estivesse sendo lida, despida, examinada em silêncio. Meu corpo, guiado por um desejo que queimava sob a pele, inclinou-se ainda mais, buscando o calor de sua boca. Eu queria senti-lo, provar o gosto daquele silêncio carregado de tudo que ele não dizia. Mas, num gesto seco e cortante, ele virou o rosto, como se recusasse mais que o beijo - como se estivesse me negando por inteiro.

Fiquei ali, suspensa, o coração latejando dentro do peito, o rosto a poucos centímetros do dele, o ar entre nós carregado de um constrangimento cruel. Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando compreender o motivo daquela recusa tão silenciosa e tão brutal. Era apenas um beijo… um gesto simples, quase inocente. Um “bom dia” que, dadas as palavras sussurradas nas noites anteriores, e as provocações ardentes trocadas entre olhares e silêncios de alguns dias seguidos juntos, não deveria significar tanto. Mas ele o transformara em algo monumental, quase humilhante.

Então, ele tornou a virar-se, e seus olhos voltaram a se encontrar com os meus. O mesmo olhar intenso, inquebrável, mas agora sem calor. Um abismo escuro, impenetrável. Fiquei ali, congelada entre o impulso e o orgulho, entre a fome e a dúvida. Deveria beijá-lo mesmo assim? Estaria testando minha coragem… ou zombando dela?

Quis, por um instante, entender o que se passava naquela mente tortuosa, imprevisível, onde conviviam o poder e o abismo. Mas não consegui. Ele era um enigma. Ele ficou em silêncio deixando o clima torturante. Virei-lhe as costas e fui preparar a medicação, os dedos trêmulos tentando encontrar no gesto mecânico algum traço de controle. O silêncio dele era uma presença opressora no quarto — não havia gritos, não havia confronto, mas ainda assim o ambiente estava impregnado de uma tensão densa, sufocante.

E naquele silêncio, o mais torturante não era o que ele escondia, mas tudo aquilo que ele me fazia sentir sem tocar em mim.

- Este é seu plano realmente?- pergunta finalmente- Me trazer pra cá, não me deixar voltar para Seul com esse papo de que vão me pegar indefeso, é de fato verdade ou você pretende algo a mais com isso?

- Eu só estava vendo se estava respirando bem! - digo notando imediatamente que aquela desculpa certamente não iria colar. Ele não acreditaria naquilo, muito menos eu deveria tentar esconder que estava tentando beija lo enquanto dormia.

-Uhum...-ele resmunga concordando.

-Eu vou deixar a medicação para quando conseguir se levantar. Coma também.

- Está bem!- concorda com seu tom sarcástico. -Vou fazer tudo que mandar. Eu quero sarar o mais rápido possível!

Não saberia dizer se ele falava aquilo para me irritar ou se representava um desejo devido a dor que sentia. Tudo que vinha dele poderia ser uma mentira, uma enganação, um plano bem armado. Então eu devia estar mais atenta. Por mais que eu soubesse a seu respeito, tratando-se dele eu poderia esperar tudo.

-Faça isso! -concordo saindo do quarto.

Naquele dia, ele permaneceu na cama por boa parte do dia e falamos pouco. A noite antes do banho, novamente o auxiliei a tirar a calça e camisa, dessa vez de botões na frente. Nada de brincadeiras ou insinuações. Ele apenas me observava atentamente. Eu me questionava se ele havia se lembrado de quem eu realmente era ou se estava tentando o fazer. Fato era que nada mudaria. Aquelas alturas, ele certamente já havia se dado conta que meu interesse ia muito além de apenas resgatar um humano da morte certa.

...

Data de publicação: 10/04/2024

É minha gente, parece que uma tensão entre eles...

E se preparem para o próximo capítulo porque é da hora!! Um dos meus preferidos!!

Um fim para RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora