Uma das características fundamentais de um psicopata é a indiferença pelos sentimentos alheios, a incapacidade de se preocupar com as consequências de suas ações, sejam elas físicas ou emocionais.
Sob essa perspectiva, surge uma dúvida inquietante:...
Os dias pareciam passar mais rápidos agora, como se estivéssemos nos movendo em uma harmonia própria, algo que só nós dois entendíamos. Eu me sentia forte, renovado pela rotina das caçadas, mas ainda havia uma dor persistente que me lembrava do quanto eu estava longe de estar totalmente curado. A medicação, que aliviava por um tempo, logo se esvaía, deixando as dores reaparecerem com mais intensidade. Mas a caça... a caça fazia com que eu esquecesse, por alguns instantes, da fragilidade do meu corpo.
Logo pela manhã, depois do café da manhã que Dami preparava com tanto cuidado – frutas frescas, tortas deliciosas, sucos vibrantes e chá forte – saíamos para a mata. Caminhávamos lado a lado, com o som dos nossos passos se misturando ao cantar dos pássaros e ao farfalhar das folhas secas. Cada caçada começava com um silêncio confortável, como uma expectativa compartilhada. Eu a observava em busca de algo a mais, algo que ela não dizia, mas que estava ali, nas entrelinhas de cada gesto.
Os dias tornaram-se mais emocionantes, e via o próprio ato de caçar se transformado em uma linguagem silenciosa entre nós. Eu a ensinava a rastrear presas maiores, mais desafiadoras, enquanto ela, com uma leveza quase invisível, me mostrava sua destreza ao capturar pequenas criaturas, sempre com uma precisão impressionante. Havia algo de fascinante em vê-la agir – ela não fazia barulho, não perdia a calma, e sua paciência parecia infinita. Eu começava a entender que sua verdadeira habilidade estava em ser invisível para o mundo, um espectro na floresta.
E as armadilhas... suas armadilhas eram algo que eu não conseguia ignorar. Elas eram rápidas, certeiras, e pegavam qualquer criatura que se atrevesse a cruzar seu caminho. Não havia erro, nem hesitação em seus movimentos. Eu percebia como ela dominava cada pedaço da floresta, como se fosse parte dela.
A cada aventura na mata, a cada vitória silenciosa, o ambiente entre nós ficava mais carregado de uma cumplicidade sutil, mas intensa. Não era apenas sobre pegar a presa; era sobre como as nossas habilidades se entrelaçavam, como eu começava a confiar em cada movimento dela e ela, de alguma forma, começava a confiar nos meus. Era uma parceria, uma cumplicidade silenciosa, onde cada um sabia o que o outro ia fazer antes mesmo de fazê-lo.
Com o passar dos dias, fomos criando algo para marcar nossas vitórias: uma trilha de ossos, uma pequena lembrança de tudo o que havíamos conquistado juntos na floresta. Dami chamou isso de "nosso cemitério vitorioso”. Era curioso ouvi la falar disso, como se o nome fosse apenas uma forma de celebrar nossa união e a força que tínhamos construído ali, juntos, naquelas caçadas.
Ao fim do dias, o sol parecia brilhar de uma forma mais intensa por entre as árvores, como se a floresta nos aprovasse, como se o nosso entendimento da natureza fosse crescendo a cada passo.
E continuava me surpreendendo com Dami. Aquela mulher valorizava uma boa caçada, mas o que demonstrava apreciar muito mais era como podia usufruir de suas presas. Era prazeroso observá-la sorrir empolgada perdida em meio a pensamentos - que eu adoraria saber quais eram- enquanto cortava, temperava e cozinhava os alimentos.
Ela também se mostrava -detestavelmente- excelente cozinheira. E eu - vergonhosamente- amava sua comida.
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