Capítulo 35

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Capítulo XXXV

Por JunWoo

Meu peito aqueceu. Por um segundo o coração pareceu incendiar-se. Mas não - não havia espaço para ilusões. Para alguém como eu, perdão não seria tão simples. Aquela ideia me atordoou: será que eu poderia, de verdade, deixar para trás o que fui?

-Entenda que eu jamais vou poder recomeçar, que o que devo e sei fazer é trazer vingança, dor, morte... – lembrar e dizer aquelas palavras me feriram tanto quanto a lança de Vincenzo. Eu havia sido um monstro! Caí de joelhos me sentindo devastado. Eu realmente era alguém que não merecia nada. -Eu matei pessoas Dami! Você faz ideia do que é isso?

- Se eu faço? - ela me olha.- Você sabe que eu posso perfeitamente entender do que está falando...mas eu segui, eu entendi que por mais errado tenha sido eu apenas estava me defendendo ...é como nas caçadas. Ou eu me defendia ou viraria presa. Eu fui o caçador...você também tem sido em todos esses anos. Agora é hora de desfrutar do prazer que é estar em paz.

-Não. Eu matei pessoas inocentes!

-Quem disse? Inocentes porquê? Você não tem direitos de tirar a vida de ninguém, mas aquelas pessoas plantaram o que colheram! A mãe do Vincenzo mesmo foi uma delas, aquela mulher tirou você de sua mãe... ela foi uma das primeiras a te fazer tanto mal!

-Mas que direito eu tinha não é? Isso é só poesia, na realidade as coisas não são assim! – digo erguendo-me querendo dar um fim aquela conversa. - Mas, se eu posso em algum momento da minha vida fazer algo de bom o mais correto é me afastar de você. Se ficarmos juntos eu vou destruir sua vida, eu vou arruinar com o que você trabalhou para conquistar... você será presa, viverá enjaulada por minha culpa!

- Eu não posso aceitar isso. Se quer saber por que me coloquei em risco por você… foi um misto de fascínio e escolha. No começo fui atraída por sua imagem, aquele mistério nas escadarias do tribunal, e confesso: fui curiosa. Era uma aventura. Fui viciada nessa sensação. Mas me aprofundei. Mergulhei de cabeça no abismo de estar com você.

Ela parou, respirou, e a seguir falou como se dissesse aquilo só para mim.

- Percebi que, se eu não me permitisse sentir, morreria por dentro. Viver “certo” não me traria as alegrias que alguns dias ao seu lado me deram. Por isso me joguei: te persegui, te vigi, menti. E agora estamos aqui e sabendo o tanto que foi bom o que vivemos. Sabendo que fazia sentido...sabendo que quando você se entrega de coração, não tem como dar errado.

Aproximou-se e tocou meu rosto com firmeza.

- JunWoo, você é igual a mim. Está à beira do precipício e quer pular, mas ainda tem medo de se permitir. Acha que não merece amor, que seus “princípios” sujos devem ser mantidos como muralha. Mas você pode ser feliz. Pode se redimir. Pode recomeçar.

Olhei para ela, quebrado pela esperança e pela culpa.

- Se você quiser fazer certo, ser alguém correto, que se entregue à polícia e pague judicialmente - continuou - que assim seja. Mas você sabe tão bem quanto eu: a justiça é falha e corrupta. Se optarmos pela estrada honesta, podemos acabar separados.

Ela sorriu com amargura e conflito interno evidente, e eu senti cada palavra como um empurrão.

- Então, com meu coração em punho, eu prefiro pedir o improvável: que você seja covarde e ambicioso comigo. Que passe o resto dos seus dias ao meu lado, como meu parceiro nas caçadas. Que fique. Não para fugir da justiça... mas para viver outro tipo de vida - ao meu lado.

No silêncio que se seguiu, ouvi apenas o bater do meu próprio coração. Era a escolha que eu sempre temera: vi errado fugindo sem ser pego ou pagar por tudo, mas aceitar o amor que me oferecia e tentar, enfim, ser diferente. Eu seria capaz de ser alguém melhor?

- O que te faz pensar que vou me contentar em caçar um animal em vez de um ser humano?

- Não sou eu quem tem que dizer, e sim isso é algo que você deve dizer a si mesmo! Você não se contentaria a caçar um javali ao meu lado? Não se contentaria a saborear do fascínio em destroçar um bicho indefeso que não te causará mal e nem consequências a tirar a vida de uma pessoa que pode te pôr numa situação terrível.

- Esse é o prazer de caçar as pessoas! O desafio e risco que isso te proporciona! - disparo friamente- Entende Dami, o que espera de mim se não posso te oferecer nada além disso? -digo apontando para mim.

- Isso? É tudo que eu preciso.

-E quando eu chegar sangrando? – a questiono. - Vai me costurar todas as vezes que eu chegar em pedaços?

- Eu sararei suas feridas novamente, todas elas! – diz, atingindo meu coração. Ela voltava a se referir a meus sofrimentos e angústias.

-E quando eu chegar cheio de sangue de pessoas inocentes? -me encara.

-Você não mata inocentes.

-E se eu passar a matar aqueles que cruzarem meu caminho?

Ela sorri ignorando minhas palavras. Sabia que eu estava tentando afasta la.

- Você é doente! Você é pior que eu Dami!- digo jogando-me no sofá.

-E você não gosta? – pergunta chegando próximo e sentando em meu colo colocando uma perna de cada lado. Ela queria tanto meu amor, mas eu não sabia como dar isso a ela.

- Você sabe que tô é louco por você! - digo dando um beijo, hesitando. - Mas.

- Mas nada. Eu não quero te mudar. Eu não quero te transformar em outra pessoa, não precisa ser alguém bondoso se não é o que você quer. Eu só te quero em segurança e que se mantenha vivo. Eu estarei aqui por você, para você...por você! Entendeu? Não me deixe!

...

Data de publicação: 14/05/2024

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