ANA MACHADO
Diamanteira.
Esse era o nome da cidade do interior do Rio de Janeiro que sabia que mudaria a minha vida.
Eu e minha irmã decidimos ir de carro para pensarmos com mais calma sobre nossos próximos passos.
Tínhamos levado toda nossa pesquisa conosco, malas para um bom tempo e nossa disposição para desvendarmos tudo.
Tinham se passado dias e nada do investigador voltar a entrar em contato e isso que me deixava mal.
Será que algo havia acontecido com ele? Será que ele estava bem? Será que ele estava vivo?
Fora isso, a página do diário ontem...
Adanna de 1985. O diário era da mesma mulher que vinha aparecendo pra mim nos sonhos. Adanna que tinha sonhos de liberdade e estava num mundo novo querendo se achar.
Uma Adanna que me lembrava eu mesma quando pequena. Com minha vontade de desbravar o mundo e ainda procurando meu lugar nele, mesmo provavelmente sufocando com problemas de adulta no processo.
Era a vez da minha irmã dirigir, então botei a mão no relicário como tenho feito nos últimos dias para me acalmar.
— Tá pensando no que vamos fazer quando chegamos lá?
— Pensando mais no diário que comecei a ler ontem. A mulher do diário, a Adanna, era a mesma que eu ando sonhando e por mais louco que pareça... ela sou eu. Como isso é possível? – Olho meio assustada para minha irmã.
Sempre fui meio pragmática e extremamente realista. Ser criada em um orfanato enfrentando a dura rejeição da minha família biológica e de outras que viriam me fez assim. Mesmo quando a minha mãe me adotou, ainda demorei para depositar nela toda a confiança. Era difícil pra mim ter esperança de merecer tudo que sabia que merecia.
Foi por isso que quando minha irmã entrou na minha vida, ela lutou bravamente e foi a primeira dose de esperança e milagre que tive em toda a minha vida até a chegada da nossa mãe.
Não era de sonhos, não era de irrealismos e não acreditava em coisas que não se podiam explicar e que só se podiam sentir.
Era uma pessoa de ações, de demonstrações e de fatos.
Mas essa história toda estava fazendo com que descontraísse meus pensamentos na marra.
— Sei que você não acredita nisso, mas já pensou que talvez tudo esteja interligado de uma forma maior? Sua família biológica te largando às pressas, esse diário, o relicário ligado a uma família riquíssima no interior do Rio... Vai ver que o que você tem pra descobrir é maior que você.
Maior do que eu.
— Mas essa história da Adanna? Você acha que ela pode... ser eu? E ainda tem isso do nome do cara do diário dela também ser Dante.
Era até engraçado falar isso em voz alta, mas não isso não saia mais da minha mente. Não conseguia dormir mais sem ter fragmentos cada vez maiores de uma vida que eu não vivi e ao mesmo tempo já vi.
Sara me olha engraçada antes de rapidamente voltar seu olhar para a estrada e batucar os dedos no volante.
— A sonhadora sempre fui eu de nós duas, sempre acreditei que o destino tinha nos unido e nos unido a nossa mãe, e depois das últimas descobertas, só fica mais provado que nada é por acaso, Ana.
Nada é por acaso.
Suspiro pesadamente.
— Isso tudo parece loucura e ao mesmo tempo... – Paro de falar quando meus olhos se torna turvos diante da paisagem a frente.
— Ao mesmo tempo? – Sara empurra.
— Ao mesmo tempo penso que estou perto de algo libertador. E não só pra mim.
— Pela Adanna?
— Por ela. Por nós. Pela mamãe. Interligadas.
Sara vira seu sorriso com covinhas pra mim rapidamente antes de estender o mindinho tatuado e cruzá-lo com o meu também tatuado.
Tínhamos tatuado aos dezoito o símbolo do infinito com a nossa mãe. Era bem fino em cada um dos mindinhos e era uma promessa de que estaríamos sempre ligadas. Uma as outras. Interligadas para sempre.
Soltamos os mindinhos antes de voltamos nossa atenção para o plano em mente.
— Não posso do nada chegar lá cheia de perguntas. Se o investigador sumiu e pediu pra tomar cuidado, é porque boa coisa essa família não tá metida. Ou até mesmo a minha biológica.
— Pelo que pesquisamos e pelo diário, isso remonta a época um pouco depois da escravidão, então a Adanna era liberta quando conheceu o primeiro Dante. Ela falava muito de casa, mas pela descrição que você me deu, se assemelha a um quilombo.
Eu aceno em concordância.
— Era um quilombo mesmo. Eram espaços de resistência na época da escravidão e foram muito combatidos na época, não me surpreende em nada que tiveram outros mais escondidos. Uma pena que não tinha o nome dele no diário, ou pesquisaria na internet. Facilitaria mais o nosso trabalho.
— Com certeza. Mas já tenho uma ideia de como podemos nos aproximar da família Lombardi. – Minha irmã estufa o peito de orgulho e já fico com medo.
Sempre que ela inventa uma ideia mirabolante, era algo que eu deveria ficar com medo, muito medo.
— Sara, não acho que seja uma boa ideia já começamos com o pé esquerdo nesse lugar. Sem ideias que acabam comigo te tirando da cadeia.
Ela arregala os olhos antes de bater no volante.
— Foi só uma vez! – grita.
— Uma vez e depois uma quase nova prisão por você discutir com o guarda.
— Ele estava sendo um idiota, babaca... – Ela para antes de respirar fundo. — Enfim, não vale a pena ficar falando do passado quando temos que pensar no futuro e que não envolve prisão.
— Envolve o que então?
— Eu fui buscar empregos na região, para ter o que fazer enquanto estamos na cidade e me deparei com uma oportunidade de babá muito interessante...
— Babá? Você tá doida? Em que tempo vamos olhar uma criança enquanto temos que procurar tudo isso?
— Eu não. – Ela para com uma pausa dramática que eu sei que significa que vou me ferrar. — Você que vai. A vaga de babá é pra filha do Dante Lombardi.
Filha?
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Mais uma história com criança 🙌🏾🤣
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ENFIM, LIBERTA
RomanceSINOPSE: Ana sempre sentiu um vazio, uma desconexão com o mundo desde criança. Ela foi abandonada quando bebê na porta de um orfanato e adotada aos doze junto com sua irmã de coração. Mesmo assim, ela se sentia estranha. Esse vazio só aumenta quando...
