ADANNA, 1915
O tempo passava e eu continuava ali, escondida e observando aqueles homens pelas matas.
Eu era esperta, as mulheres da minha casa me ensinaram a ser. Não porque eu queria, mas porque eu precisava.
Havia algo no homem mais alto, da pele dele sendo branca e ao mesmo tempo marcada por horas ao sol.
Dante...
Ouvi o nome dele naquele dia.
Ouvi que eles estavam à procura de pedras e metais, porque Dante ou a família dele faziam colares. Joias.
Como seria isso?
Nunca tive esse apego material por coisas porque aprendi a sobreviver com o que eu posso carregar, com o que posso caçar e viver. Minha mãe dizia que tínhamos que estar prontas pra tudo, e apesar de viver feliz no meu quilombo, sabia que era necessário que eu explorasse.
Por mais "liberta" que eu estivesse, ainda tinha em mente que as diferenças eram extremas.
Por mais que visse Dante ali, trabalhando, eu via os pretos da minha cor mais cansados. Trabalhando muito mais e com roupas mais desgastadas.
"Podem nos considerar libertos, mas não iguais, não ainda."
A voz da minha mãe ecoava na minha cabeça enquanto eu observava. Não sabia o que tinha que me fascinava tanto, e talvez por isso, tenha cometido meu primeiro erro.
Quando Dante se afastou do pessoal para ir ao riacho, fui atrás. Estava bem afastada já deles, mas tinha uma ótima visão de longe.
Segui descalça, tentando fazer o menor barulho possível.
Quando vi Dante aos pés do riacho, levantando a camisa suada do corpo, percebi que meu "encantamento" por ele, era mais preocupante do que imaginava.
Minha mãe e as mulheres de casa haviam conversando comigo sobre isso. Desejo. Vontade. Troca de energias entre dois corpos. Sexo.
Muitas compartilharam suas experiências, e muitas dessas experiências foram ruins. Muito ruins. Tão ruins que faziam com que meus pelos do corpo se arrepiassem e me desse enjoo.
Mas outras foram ótimas. Transformadoras.
E era isso que sentia ali observando aquele homem. Podia ser nova, mas sabia o que sentia e o que era.
Foi por isso que cometi o erro de dar um passo à frente e chamar a atenção dele.
— Quem está aí? – Ele vira rapidamente na minha direção e acaba me pegando ali parada em conflito. Se ele tentasse alguma coisa, eu teria que matá-lo. Não tinha escolha. Não queria fazer, mas faria pela minha sobrevivência.
Fui ensinada a me defender, e só porque nunca pensei em tirar a vida de alguém, não significa que não tiraria uma pra me defender ou defender os meus.
Ele fica me encarando e eu também o encaro de volta. Ficamos ali parados, um avaliando o perigo do outro até que ele faz a pergunta que mudaria ambas as nossas vidas.
— Quem é você?
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ENFIM, LIBERTA
RomanceSINOPSE: Ana sempre sentiu um vazio, uma desconexão com o mundo desde criança. Ela foi abandonada quando bebê na porta de um orfanato e adotada aos doze junto com sua irmã de coração. Mesmo assim, ela se sentia estranha. Esse vazio só aumenta quando...
