CAPÍTULO 31

220 43 10
                                        

ADANNA, 1915

Eu sabia no fundo de mim que minhas escolhas levaram a isso.
A esse momento em que meu coração sangra, mas minha vontade é de ferro.

Ontem eu vi que minha mãe tinha razão. Eu vivi em um mundo de sonhos. Me deixei levar pela beleza, pelo sentimento e pela certeza de que tudo daria certo se acreditássemos.

Mas foi em vão.

Dante está de casamento marcado e eu sei que a família dele nunca me aceitaria. Nunca nos aceitado. Eu vi como aquela mulher olhou com repulsa. Nojo.

Dante até tentou, mas me escondi dele também. Me escondi nas árvores que ele não sabia que eu me guardava. Só trouxe o caderno e uma coberta comigo. Vi ele o dia todo ontem me procurando, enquanto eu chorava lágrimas silenciosas

Eu tinha que ir pra casa. Ver minha família. Estar com quem eu sei que me ama, que me nutre.

Foi o que decidi fazer até ouvir mais cedo os galhos se partindo e o barulho de botas. Pensei até que fosse Dante, mas era outro homem. Um homem mais velho que parecia com o Dante e um grupo de outros homens brancos.

— Achem a neguinha! - O homem bradava. — Ela não deve de estar longe e temos que achá-la antes do tonto do meu filho. Se perdeu nas vestes de uma negra qualquer e agora quer arruinar nossas chances.

Negra qualquer.

As palavras cruéis retumbavam dentro de mim enquanto ouvia em detalhes como aquele homem parecia querer sumir comigo.

Apagar a minha existência.

— Temos que achá-la antes do tonto do Dante. Avante, homens!

Então o Dante não tinha ideia disso? Dessa tamanha crueldade?

Coloco a mão na minha barriga com raiva. Tremendo pelo meu destino e dessa criança que carrego no ventre. A raiva corrói meu corpo inteiro com a certeza de que eles poderiam me derrotar, mas eu levaria todos comigo.

Eu correria até os confins da terra para me proteger, nem que fosse a última coisa que eu pudesse fazer.

E talvez fosse.

Mas antes disso, queria deixar registrada aqui minhas últimas palavras. Meus últimos desejos em relação a esse mundo tão cruel com os diferentes.

Que a terra sinta minha fúria enquanto eu correr.
Que o vento me dê gás para voar pra longe daqueles que me querem mal.
Que os outros elementos me vinguem.
Que todos aqueles que não aprenderam, aprendam.
Deixo minhas palavras registradas para que ninguém nunca se esqueça, que tentei me libertar até o último minuto desse amargor de realidade.

Adanna.

ANA, atual

As lágrimas corriam pelo meu rosto como se fosse dali criar uma cachoeira.

Eu tinha finalmente terminado o diário de Adanna sabendo que depois daquilo, ela provavelmente sofreu uma morte horrível e ainda mataram seu bebê ainda na barriga.

Não teve uma chance porque ninguém deu uma chance. Será que se ela tivesse, teria perdoado o Dante? Teria voltado pro quilombo?

O racismo é a maior doença que existe. Nenhuma outra doença mata mais que ele. Nenhuma palavra é tão pesada quanto essa.

Um ódio generalizado por uma cor de pele. Um ideal criado sobre premissas de certo e errado. Um amor destroçado por ideais equivocados.

Famílias amaldiçoadas.

— Ana, eu... eu nem sei o que dizer. – Dante fala do meu lado, enquanto aperta a minha mão. Ele tem os olhos marejados de lágrimas, mas diferente de mim, as dele continuavam ali. — Tanto ódio... era palpável a indignação dela.

Ele para e enxuga minhas lágrimas que continuam a cair.

— É nós sabemos como terminou, Dante. – Respondo antes de me afastar um pouco e eu mesma limpar minhas lágrimas de maneira furiosa. — Ela amaldiçoou a todos porque todo mundo foi um cuzão com ela. Ela escreveu com raiva provavelmente pensando que dali nada sairia, ou talvez no fundo soubesse que se ela fosse cair, todos iriam cair com ela. E quer saber? Ela tá certa. Eu posso ter me ferrado, mas sua família ferrou ela demais.

Ele abaixa a cabeça e eu sei que no fundo, ele não tem culpa dos erros dos antepassados dele, mas caramba, eu precisava liberar de mim toda essa raiva.

O que só aumentavam os questionamentos. Quem me abandonou por acaso já teve acesso a esse diário? Foi essa pessoa que deu tudo isso pro detetive? Será que a família do Dante sabe de alguma coisa? E como terminou o primeiro Dante?

— Você sabe de alguma coisa desse Dante? Tem alguma coisa dele nos relatos da história da sua família? Ou da empresa?

Ele parece pensativo por um segundo.

— Segundo pesquisas que nunca vi mais a fundo, o fundador se chamava Dante e era um exímio desenhista. Os desenhos dele eram brilhantes, e eu me inspirei muito nele quando comecei. A história diz que ele terminou sozinho e triste. Eu venho da parte da família da irmã dele. Dante estava sim noivo, mas alguma coisa aconteceu que fez com que ele largasse tudo e se tornasse recluso, só aprimorando seus desenhos e fazendo sua peça mais famosa, o relicário em forma oval.

— Relicário? – Pergunto sentindo meu coração parar por um momento, o que era bem irônico.

Não podia ser...

Mas só podia ser.

Dante acena mais uma vez e eu decido mostrar meu colar pra ele dessa vez.

— Um relicário em forma oval, como esse? – Mostro o pingente na palma da minha mão, segurado pelo longo colar.

Ele me olha com os olhos arregalados antes de tocar no pingente meio rudimentar e antigo, mas ainda assim continha toda uma beleza delicada.

— As flores... dizem que Dante se inspirou nessas flores delicadas por lembrarem as da propriedade dele. Mas eu nunca havia visto elas antes, só quando corro pelo os arredores e...

Dante para de falar e arregala os olhos.

— Não são simples arabescos e flores, Ana. São flores específicas que crescem em uma parte do território lá de casa, perto de uma casa abandonada. O mesmo lugar que... que eu achei a minha filha enrolada.

Dante dessa vez precisa me segurar porque isso não pode estar acontecendo. Não pode ser, porque seria muita loucura.

Mas tudo parecia tão louco ao mesmo tempo tão possível.

E se o impossível fosse possível?

Antes que eu pedisse para Dante me levar de volta para as  terras dele, minha irmã entra no quarto com os olhos arregalados e com a dona Agatha atrás dela.

— Irmã, o detetive reapareceu, e você não vai acreditar.

O que mais podia ser?

_____________________________________________________

VOTEM!
COMENTEM!

Feliz Natal, meus amores!!!
Antes do ano novo eu consigo voltar, porque agora tenho um recesso pra dar mais atenção pra vocês!  🤣

ENFIM, LIBERTAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora