CAPÍTULO 45

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DANTE

Acordei com gritos.

Levei um susto até perceber que os gritos vinham da Ana deitada enrolada em um bola do meu lado. Tínhamos adormecido juntos, mas não tinha percebido que ela tinha se separado de mim.

Me aproximei de leve e a toco gentilmente. Não querendo assusta-lá.

— Ana, acorda. Ana... – Chamo enquanto balanço ela devagar. — Você está me preocupando. – Falo baixinho.

Quando estava prestes a gritar para que ela acordasse, ela abre os olhos arregalados na minha direção no mais puro terror.

Ana...

Meu coração se partia por ela. Não sonhava mais, quase não tinha lembranças do meu passado e não sei o motivo. Mas preferia que eu tivesse todas as memórias do que ver a mulher que eu amo assim.

A mulher que eu amo.

A mulher que conheci em tão pouco tempo e tinha tomado cada canto da minha cabeça e da minha vida. Não conseguia mais me imaginar sem ela. Sem a pequena família que eu, ela e Maya poderíamos nos tornar.

— Você está bem, eu estou com você. – Repetia várias vezes enquanto a abraçava firmemente. Queria que se sentisse segura novamente.

As lágrimas logo começaram a molhar o meu peito e meu coração se partiu um pouquinho mais pelo desespero dela.

— Meu amor, o que foi dessa vez? Qual visão você teve? – Pergunto enquanto acaricio os cachos macios da sua cabeça.

Ela leva um tempo até finalmente conseguir me encarar com os olhos ainda marejados.

— O vazio. – Uma lágrima escorrega e ela limpa rapidamente antes que eu possa. — Dessa vez eu finalmente pude sentir o vazio completo da morte da Adanna. Foi como se eu sentisse tudo para começar a sentir mais nada. Foi horrível, Dante. Como essas pessoas puderam fazer isso? Como eles podem ter destruído uma pessoa por ganância? Por puro preconceito? O racismo ele é cruel. Ele massacra.

Nada do que eu poderia dizer podia consertar ou confortar isso. Essa doença que infesta a população até os dias de hoje. Que condena e mata só pela cor da pele. Que julga e aprisiona mediante a condição de nascença.

Quem é o ser humano pra definir que alguém é superior ao outro só pela cor da pele? Sempre acreditei que éramos todos iguais por sermos diferentes. As diferenças nos igualavam nesse sentido.

O aperto no peito que sinto ao ver minha Ana assim é saber que Adanna e Dante viveram coisas piores. Não que hoje tenha sido erradicado, mas que o que eles haviam enfrentado era maior do que eles podiam imaginar.

Mas isso iria mudar.

— Nós vamos divulgar tudo. – Digo com convicção. — Vamos entrar na casa dos meus pais, procurar esses documentos e explanar todo esse segredo sórdido.

Nos ajeito até que sua cabeça esteja apoiada no meu peito.

Ela vira de bruços e apoia as duas mãos no meu peito enquanto me olha chocada.

— Você tem certeza? Sempre te pergunto isso em relação a sua família porque apesar de tudo... eles são sua família, Dante.

— Você é a minha família. Eles foram os responsáveis por perpetuar muita dor a minha verdadeira família que é você, Ana.

Nessa hora ela abre um sorriso que pode me fazer mover montanhas... e eu faria, por ela.

— Pode ser perigoso e temos que pensar na Maya.

— Não se preocupe. Tenho pessoas de confiança que podem cuidar dela enquanto fazemos tudo isso. O destino nos trouxe de volta, ele nos uniu por uma razão. Por justiça.

— Por liberdade. – Ela fala baixinho. — Para libertar eles.

— Para libertar todos nós. Tem um versículo que eu gosto muito, "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", João 8:32.

— Esse versículo é lindo. Mamãe sempre lia pra mim e pra minha irmã a Bíblia. Eu sempre tive uma relação um pouco complicada com Deus. Mas depois foi tudo se encaixando e eu reconhecendo que os planos dele são sempre melhores que os meus. Afinal, eles me levaram até você. – E deposita um beijo no meu peito.

Escorrego meu corpo até estarmos frente a frente. O cheiro dela me inebriava.

Queria ser positivo e acreditar que apenas o nosso amor bastaria para tudo. Mas sabia que não seria tão fácil.

Minha família tinha recursos, eles podiam abafar toda a história antes mesmo de pensarmos em divulgar tudo.

— Precisamos pensar em como faremos isso. Achar alguém de confiança para expor a história toda e ter nossas provas. Precisamos de provas. – Digo.

— Talvez o detetive conheça alguém de confiança, mas o mais importante é como iremos entrar na sua casa.

Paro e penso um pouco.

— Posso voltar lá sem causar suspeitas, mas sempre tem alguém lá. Provavelmente teríamos que precisar de uma distração, algo que tirasse todos da casa.

— Ou uma festa? Eu e minha irmã já nos infiltramos uma vez, podemos nos infiltrar de novo.

Faço uma barulho como se estalasse algo na boca.

— Você e sua irmã... terríveis. – Digo com um sorriso no rosto.

Minha Ana dá de ombros e tem um sorriso atrevido.

— Somos uma equipe.

— Espero que estejam aceitando mais membros nessa equipe, porque vamos precisar de toda ajuda possível.

ENFIM, LIBERTAHistórias para pegar e não largar. Descubra agora