CAPÍTULO 41

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ANA

Ligar para a minha tia não foi uma decisão tomada facilmente.

Ayo parecia feliz em me encontrar e me chamou novamente para sua casa. Como eu não queria ir sozinha, minha irmã e o detetive iriam comigo.

— Algo nessa história ainda continua estranho. Tem alguma coisa faltando, alguma peça desse quebra-cabeça está faltando e não consigo botar meu dedo nisso.

— Você acha que ainda pode ter mais nessa história? – Pergunto receosa. — Pensei já ter descoberto tudo que havia. A maldição, o amor condenado, o bebê que ela conseguiu deixar antes de fugir, sua morte horrível... por que agora eu fico vendo ela antes de morrer? O que mais falta?

— Irmã, eu não sei, e só posso imaginar sua angústia pra botar um ponto final nessa história toda. – Ela diz enquanto dirige, e estende uma mão para dar uns tapinhas na minha coxa. — Eu sinto que falta pouco.

— E eu espero que acabe logo. — Digo ao jogar a cabeça pra trás de exasperação.

Meu celular vibra e eu pego vendo uma mensagem do Dante.

"Ainda tem certeza que não quer que eu também te acompanhe?"

"Não, Dante. Melhor você ficar olhando sua mãe. Mesmo que tenha os empregados, você sabe que ela prefere você aí."

"Eu amo a minha mãe, mas eu prefiro estar com você."

Não tinha como nessa hora meu corpo todo não esquentar de emoção. Era engraçado, meses atrás eu nem pensaria em um relacionamento ou na possibilidade de encontrar aquela pessoa que era só pra mim, e hoje...

Hoje parece que não consigo imaginar a ideia de viver uma vida sem ele. Sem a Maya e a pequena felicidade que nós temos.

"Prometo contar tudo pra você."

"Eu posso ir até você também, não tem problema, só... tem alguma coisa."

E ainda tinha isso. Essa conexão louca que mesmo sem saber o que era de fato, ele sentia dentro dele que tinha algo errado.

"Depois a gente conversa, fica tranquilo e me avisa qualquer mudança com a sua mãe."

"Pode deixar. Se cuida, amor."

Amor.

Era a primeira vez que um de nós usávamos essa palavra e podia parecia parecer cedo, mas lendo, parecia muito certo.

Deixei por isso mesmo e levei minha mente para outras coisas.

A viagem dessa vez pareceu mais rápida do que a primeira, e talvez seja porque dessa vez eu estava mais calma, menos apreensiva de qualquer resultado que fosse sair disso. Dessa vez eu já sabia onde estava pisando e no que estava me metendo.

Estacionamos e andamos o mesmo caminho pela mata aberta. Era engraçado isso, viver assim escondido, no próprio mundo e ter acesso a tudo que a natureza pudesse fornecer.

Eu poderia viver assim? Não sei. Só sei que não me deram a oportunidade de escolher. Me deixarem a minha sorte para enfrentar coisas que não tenho ideia de que precisava enfrentar.

E se desse muito errado...

Por isso eu era grata a todos os dias pela minha mãe e depois de saber de tudo, era ainda mais grata por ela. Por que sei que ela lutou pela minha verdade até o fim e nunca me deixou. E sei que não deixaria de a doença não fosse fatal.

Sentia muita falta dela nessas horas.

Quando chegamos dessa vez no quilombo, tinha mais gente espalhada pelos cantos. Olhavam pra gente com curiosidade, e muitos olharam pra mim com aberto espanto.

Talvez eu me parecesse com alguém. Talvez com alguém da minha família biológica.

Falta a minha tia me dizer.

Chegamos na casa dela e Ayo estava na porta dessa vez, com um sorriso contido.

— Fiquei feliz com a sua ligação, sobrinha.

— Preciso de mais respostas.

Ela assente e cumprimenta os outros antes de entrarmos na casa.

Estava tudo como me lembrava e olha que só havia estado ali uma vez. Tudo bem iluminado, o tapete no chão, os sofás confortáveis com mantas coloridas, a mesa de centro, a TV na parede é uma mesa de jantar atrás... era aconchegante e bonito. Tinha peças coloridas espalhadas pela casa que me faziam indagar se minha mãe biológica era assim. Colorida. Viva. Feliz.

— Olha, eu sei que não terminamos em bons termos da última vez mas eu peço encarecidamente que nos perdoe. Não tivemos culpa. Fomo todos movidos na época por uma crendice e um desespero profundo. Nenhum casal da nossa família dá certo e somos mulheres condenadas a viver assim. Sei que o desespero pode levar a coisas idiotas, e sei hoje que isso prejudicou você de várias formas, mesmo que confiássemos na profecia que tudo daria certo. Eu te peço perdão novamente, minha sobrinha.

Assimilo aquelas palavras novamente e respiro fundo.

A chave para seguir o futuro é fazer as pazes com o passado. E eu precisava fazer isso agora.

— Eu prometo levar tudo isso consideração. Não acho que será fácil ou simples, mas prometo pensar sobre vocês com calma e fazer as pazes com o passado é a única coisa que me resta.

Ela assente e me oferece um dos refrescos que estavam na minha mesinha do centro. Tanto a minha irmã quanto o detetive estavam dessa vez mais afastados, provavelmente ouvindo tudo, mas nos dando certa "privacidade".

Peguei um copo e ela ofereceu outros para os dois que logo aceitaram junto com um prato de biscoitos caseiros.

Quando minha tia senta, minha expressão já começava a entregar alguma coisa, porque ela logo pergunta.

—  O que foi? Acho que você não veio aqui só para uma simples conversa, não é?

Balanço a cabeça.

— Tem mais alguma coisa dessa história toda que vocês não estão me contando? Porque ontem eu sonhei com a morte da Adanna como se fosse um aviso. Um aviso de que, tia?

Ayo parecia mais chocada com essa revelação e também vi ali um certo receio.

Então tinha mais alguma coisa.

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