CAPÍTULO 42

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DANTE

Alguma coisa estava errada.

Mas não sabia dizer o que era.

Era como se tudo que eu estava vendo, não era exatamente ali. Como se fossem peças de quebra-cabeça a serem encaixadas e arrumadas e aí sim eu conseguiria ver tudo como era pra ser. Era um sentimento estranho andar pela minha própria casa sentindo isso.

Maya estava na cozinha almoçando com o pessoal e eu fui ver como estava a minha mãe.

Tinha combinado comigo mesmo que iria ainda hoje estar com a minha Ana.

Era louca essa necessidade primária de estar com ela. Semanas atrás eu nem a conhecia, mas intimamente já esperava por ela. Agora que eu tinha um rosto, uma voz... era como se eu precisasse estar sempre com ela pra ter certeza que era real.

Que meu sonho era real.

Depois de anos sendo desacreditado pelos meus pais, de anos vivendo uma mentira...

Eu ainda queria discutir isso com eles, mas precisava que meu pai voltasse e minha mãe se recuperasse desse susto. Não queria que ela piorasse o estado dela por estresse. O médico havia me alertado disso.

Subi as escadas e estava perto do quarto dela quando ouço vozes semi-exaltadas.

Ambas eram familiares... meu pai? Meu pai já voltou? E ninguém havia me avisado de nada.

Chego mais perto do quarto e algo me faz parar, como se fosse meu instinto falando.

— Eu precisava de você aqui, e onde você estava? Viajando! Sei que era a trabalho, mas não vai ter trabalho algum se toda essa história vir a tona. – Minha mãe falando irritada.

— Mas você acha mesmo que vai chegar até esse ponto? Não vai! Eles podem saber de alguma coisa, mas não sabem de tudo. Não tem noção de coisa alguma! – Meu pai responde.

— E como você sabe? Como pode ter tanta certeza disso? Não foi você que viu seu filho olhando pra ela como se reconhecesse tudo. Não foi você tendo que orquestrar diversas situações para que eles não ficassem tempo demais juntos ou descobrissem mais coisas.

— Querida, confie em mim. Você acha que eu não tenho minhas precauções? Você acha que o diário não está bem guardado? Nunca descobrirão nada. Não caia em sandices absurdas de sonhos e premonições, aquele povo não era normal.

Diário? Mas...

Não.

Isso não podia estar acontecendo.

Era como se eu tivesse levado uma porrada no peito com essa descoberta.

Mais uma decepção com a minha família.

Até que ponto eles encobertaram? O que de pior eles ainda podem estar escondendo de mim? A ânsia de vômito chegava a me dominar só de pensar nas possibilidades.

Eu devia me revelar e tentar encurralar os dois. Mas talvez seja melhor investigar antes de revelar tudo.

— Você nunca chegou a me contar em que canto enfiou esse maldito diário. Ele está aqui em casa, não está? Ou foi sensato e colocou ele no banco?

— Não precisava de banco nenhum. Ninguém sabe da existência do diário do Dante. Ninguém sabe do testamento. É um segredo de família que é só nosso e nunca vazou. Não é agora por conta de uma premoniçãozinha que ninguém sabe que isso vai mudar.

Diário do Dante? Ele tinha um diário também? E que história era essa de testamento?

Eu precisava da Ana.

Eu precisava...

Como você pretende me ajudar com eles fuxicando tudo? E outra, você acha que é bobagem a premonição mas veio assim mesmo quando pedi. Não adianta negar que você também acredita. – Minha mãe resmunga.

— Pode deixar que vou dar um jeito nisso. Não vou me utilizar de dramas como você fez e quase se quebrou inteira ao tentar enrolar seu filho. Não precisamos disso.

A minha mãe caiu de propósito? Pra me atrasar?

Eu precisava sair daqui e levar minha filha daqui. Essa cara não era segura pra nenhum de nós dois.

Saio de perto e vou para o meu corredor, pegando a minha mala e a da minha filha que eu não havia desfeito ainda da viagem que não foi pra frente.
Iríamos embora dali. Minha casa não parecia segura mais.

Talvez nunca tenha sido.

Desço as escadas correndo e vou até a cozinha.

— Vamos, Maya, nós temos que ir. – Falo sério encarando minha pequena que apenas acena antes de terminar de beber seu suco.

Ela não seria tocada pelas mentiras e artimanhas da minha família.

Nossa governanta apenas me encara e por um momento eu me pergunto o quanto cada um daquela casa sabe e o quanto cada um deles me enrolou. Podiam ser paranoias subindo pelos cantos do meu cérebro, mas agora eu desconfiava de todos ali.

— Vamos, filha. Estamos atrasados.

— Atrasados pra que, papai?

Encaro seu rostinho ingênuo e precioso.

— Encontrar a Ana.

Ela se ilumina e sai da mesa vindo até mim e pegando a minha mão.

Dou um último olhar para os funcionários ali presentes que apenas me encaram e saio dali antes dos meus pais notarem.

Precisava pensar.

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