ANA
Podia sentir uma dor de cabeça se formando.
Mais algum segredo.
Mais alguma coisa horrível nessa história toda que eu iria descobrir.
E eu já não aguentava mais.
— Olha, sempre suspeitávamos que Adanna talvez tivesse um segundo caderno ou Dante tivesse deixado algo pra ela.
Ouço minha irmã suspirando com força ao longe.
Se isso for verdade... o império da família do Dante...
— E por que vocês suspeitam disso? – O investigador entra na conversa, quando eu não consigo raciocinar direito.
— Bem, algumas das joias que saíram eram muito parecidas com desenhos feitos pela própria Adanna no quilombo, desenhos que muitas de nossas crianças fazem. São símbolos do nosso povo, padrões trancados do nosso quilombo que foram gravados em joias, em medalhões...
— Mas se isso for tudo verdade então, o Dante original deve ter deixado tudo registrado, tudo documentado. – Minha irmã dessa vez opina.
— E se esse documento existe e a família dele sabia disso e nunca fizeram nada... – Eu começo antes de me arrepiar inteira. — Eles sabem. Eles devem saber de tudo e mesmo assim... acobertaram.
Podia sentir a náusea subindo. Que gente horrível, que nojo.
Eu convivi com essas pessoas, sorri pra elas... e elas maltrataram minha antepassada. Julgaram ela, arrastaram ela...
E o fim da Adanna...
Levantei correndo em direção ao banheiro e botei tudo pra fora. Não conseguia sustentar mais nada no meu estômago depois de saber disso.
A tontura me abalou inteira, mas de repente, outra coisa me tomou também.
Uma raiva.
Uma raiva latente.
A Adanna não teve escolhas. Teve um mundo de possibilidades negado pra ela desde o começo. Quando ela começou a sonhar, limitaram o sonho dela.
Ela nunca teve liberdade.
Mas eu lhe daria isso. Fui escolhida por algum motivo maior do que eu. Fui escolhida pra fazer justiça.
Fui escolhida para libertar.
E era isso que eu faria, nem que fosse a última coisa que tivesse que fazer.
Depois de dar a descarga, lavar as mãos e me refrescar um pouco, sai do banheiro com uma certeza renovada.
— Precisamos fazer justiça para a Adanna. Antes eu não queria me meter mais nessa lama toda, não queria saber detalhes de mais nada... mas eu fui escolhida e não posso mais me esquivar disso, da minha missão.
Todos ali me olhavam com orgulho.
— Vai ser difícil, mas conta comigo, maninha. Estamos juntas até o final. – Ela levanta e me abraça e me sinto ainda mais energizada.
Todos ali também balançam a cabeça anuindo e estava prestes a voltar a falar quando meu telefone toca.
— É o Dante. – Digo antes de me afastar um pouco para atender. — Alô? Dante?
— Ana... - Ele começa suspirando. — Cadê você? Eu... eu não sei por onde começar... mas precisamos conversar.
Algo me dizia que essa conversa com ele teria a ver com essa agora com a minha tia. Mas precisava encontrá-lo também e longe de todo mundo.
— Eu estou no quilombo, mas vou voltar agora pra pousada. Você me encontra lá?
— Já estou quase chegando lá.
Nos despedimos rapidamente e eu passo nossa conversa e meu instinto pras pessoas ali presentes.
— Se você vai mesmo atrás de justiça, irá agir contra a família dele. É sensato ele saber. — O detetive opina e eu concordo.
Combinamos de nos encontrar novamente em breve e vamos todos embora, bem, menos o senhor Pinheiros.
— Meninas, eu gostaria de ficar e encontrar aqui algumas pistas eu mesmo.
— Não acha perigoso ficar sozinho em uma área que não conhece?
Ele nos olha de maneira marota.
— Eu sei me virar e vocês devem saber disso internamente.
Isso era verdade. Se alguém podia se virar, era esse homem.
Damos um último abraço nele e saímos.
**
— Você não se importa mesmo? – Pergunto para a minha irmã.
Tínhamos voltado para a pousada e nos encontramos com Dante e a Maya ali. A pequena ficou imensamente feliz de me ver e eu também. Sentia falta dela demais e pude ver que era recíproco. Apesar do nosso começo turbulento, eu sabia que nosso carinho era genuíno. Era verdadeiro demais.
Ela também se deu bem com a minha irmã logo de cara, e Sara, tendo uma conexão incrível comigo, logo disse que olharia a Maya essa noite e eu e Dante teríamos o resto do dia até amanhã para nós dois.
Eu havia falado que ela não precisava, mas minha irmã sempre sabia do que eu precisava antes que eu soubesse verbalizar. E sabia que nós dois não tivemos tempo até agora para tentar ser um casal.
— Relaxa, você sabe que eu adoro crianças. E acho que vocês precisam finalmente de pelo menos umas horas de paz e calmaria antes de começarmos a atacar com a artilharia pesada. – Ela faz uma careta e eu rio.
Só minha irmã pra me fazer rir nesse momento tenso. E ela sempre teve essa habilidade, ela e a nossa mãe. E por isso, eu sempre seria grata.
— Obrigada, irmã, de verdade. – Agradeço mais uma vez antes de me despedir da Maya, que estava entretida com diversas páginas em branco espalhadas e lápis de cor de todas as cores possíveis espalhados no chão.
Dante da um último abraço na filha e pega na minha mão antes de nos levar até o quarto que ele alugou na pousada.
Agora seríamos só eu e ele.
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Me perdoem pela demora, mas minha cachorra ficou doente, internada e depois faleceu. Tudo nesse meio tempo.
Eu não tive cabeça pra nada e agora que estou voltando.
Me perdoem e espero que gostem.
Reta final de Enfim, liberta 🤎
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ENFIM, LIBERTA
RomanceSINOPSE: Ana sempre sentiu um vazio, uma desconexão com o mundo desde criança. Ela foi abandonada quando bebê na porta de um orfanato e adotada aos doze junto com sua irmã de coração. Mesmo assim, ela se sentia estranha. Esse vazio só aumenta quando...
