— Tão perto e não podemos abater... uma pena...
— Não seja fominha, Amanda kkkkkkk, sua bandida cruel! Sinceramente... eu gosto desse seu lado sombrio, rs.
Beka levanta uma parte do vestido, expondo sua cocha direita. Ali, no meio da multidão que se ajuntava na pista de dança, Amanda confere a munição de sua pistola Leizer, cuidadosamente escondida no coldre debaixo de seu vestido.
— Pronta pra qualquer safado que botar as mãos nessa bunda.
Beka ri da fala da colega e arrisca uma dança atrevida. Safadamente ergue os antebraços, rebolando os quadris, insinuando uma sensualidade magnética aos homens europeus presentes. A pele branca, alva, contornada por linhas suaves, desenha formas arredondadas firmes. Axilas depiladas exalando perfume do instinto da aproximação. Nuca e lado esquerdo da cabeça raspados dão ênfase ao corte channel e um cabelo loiro platinado pintado de verde-fluorescente nas pontas. Ela caminha para o centro do barulho, da música, das batidas, golpes de som em todos os ossos do seu corpo de soldado. É proibido ficar parado é proibido não dançar no ritmo de cada batida do coração dessa cidade. No meio da multidão, Amanda se solta, pula... vibra. Uma banda de Rock comanda a festa. Tecladista, guitarrista, baterista e cantora levam o público ao delírio. Alguns já apresentam sinais de embriagues e efeitos de entorpecentes sintéticos. Amanda reconhece a banda:
— Essa música... eu ouvia direto nos tempos de escola!
— Não conheço esses caras – respondeu Beka balançando a cabeça, distante em seu prazer de mover-se sem direção.
Música:
''Backward words/ He got'em
Shup Up/ I'm Talking
This time/ you listen
But when I look at you
You're forgiven
You drive/ Too fast and
I smoke/ Too much and
My Heart / Is Broken
But when I look at you
You're forgiven...''
Os quadris se batem sincronizados com cabeças pendentes ao pescoço. Braços balançam desconjuntados. Uma dança sem regras, sem começo nem fim. Corpos livres e soltos no infinito do mundo elemental. Alguns vizinhos transcendiam sob o efeito de alucinógenos. Na pista não há limites...
Pausa
Amanda vê uma jovem, 24 anos aproximadamente, cabelos pretos curtos, uma cosplay da branca de neve. Ela passa para um garoto um tablete de LSD, o rapaz tem uns vinte anos de idade. Ela ensina o rapaz como colocar a droga na boca embaixo da língua.
Soa familiar - pensou.
Mas o que a deixou paralisada não foi droga alguma, muito menos o torpor da música eletrônica. Ao passar os olhos pelo salão, viu de relance a forma antes vista do caçador, ''O alto'', que a perseguira na dimensão jurássica Ômega 47. A garota ainda busca com o olhar e encontra o caçador andando na direção do bar. O que esse desgraçado está fazendo aqui...?
— Tudo bem por aí? – Perguntou Beka segurando uma taça de espumante verde-fluorescente.
Amanda, confusa, volta-se para a colega, balança a cabeça, tentando um segundo de concentração, destacando a voz da amiga do barulho infernal da festa.
— Sim. Tá tudo bem. Eu preciso ir ao banheiro.
...
Sem perda de tempo, Amanda e Beka dirigem-se à porta do toalete; a fila anda rápido, afinal de contas, as pessoas daqui são civilizadas ou nem precisam usar a privada, corpos sintéticos não têm necessidades fisiológicas, limitam-se a retocar o make ou checar se as calças estão no lugar. Beka acompanha Amanda até o banheiro da cobertura e espera do lado de fora. Amanda então fica só, ela e mais três outras garotas dentro do banheiro feminino. Sua cabeça está zonza, o ouvido zunindo; Lembranças de Tomaz surgem como uma corrente de águas ganhando liberdade no rompimento de uma barragem.
Como chegara naquele ponto; diante do espelho, sem poder de escolha, cercada por gente do governo; gente querendo lhe tirar sua vida, sua história, sua identidade. Precisava beber; queria esquecer o inevitável; seu destino nessa profissão bandida. Por um tempo, proporcionou o vício alheio sem suspeitar que alimentava um monstro ainda maior dentro de si.
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Alcaline
Science FictionAmanda é uma jovem de 19 anos que ganha a vida como traficante de drogas sintéticas nas ruas da decadente Amsterdã do ano 3567. Após perder seu namorado em um atentado ela descobre que sua cabeça está a prêmio. Sem saber o que fazer ela acaba por ac...
